Notícia

Jornal do Commercio (PE)

Biodiversidade em ilhas é mistério para cientistas

Publicado em 04 janeiro 2009

São Paulo - Se a viagem dos paulistanos para passar o réveillon na praia já parece longa hoje, por causa do trânsito, imagine como era 20 mil anos atrás. Naquela época, o mar ficava muito mais distante da costa e as ilhas que se enxergam no horizonte eram montanhas em terra firme, diretamente ligadas ao continente. Depois de cruzar a Serra do Mar, ainda seria necessário dirigir 100 quilômetros em linha reta até a praia mais próxima.

Foi 6 mil anos atrás, ao final da última era glacial, que a linha da costa se estabilizou na posição atual e as antigas montanhas foram definitivamente aprisionadas pelo mar.

Nesse momento, um espantoso processo evolutivo já estava em curso. Animais que tiveram o azar - ou a sorte - de ficar isolados nas ilhas começaram a se diferenciar rapidamente de seus familiares no continente. Algumas populações ficaram tão diferentes que viraram novas espécies, restritas a uma única ilha.

Algumas dessas espécies - chamadas endêmicas - já são conhecidas dos cientistas, como as famosas jararaca-ilhôa e jararaca-de-alcatrazes. Mas muitas ainda devem estar escondidas dentro de suas pequenas florestas insulares. Os próprios cientistas reconhecem que seu conhecimento sobre a biodiversidade das ilhas paulistas é muito limitado. "Comparado ao que sabemos sobre a biodiversidade do continente, é praticamente nada", diz o ecólogo Marcio Martins, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

Por causa dessa falta de conhecimento, os ecossistemas marinhos - praias, manguezais, ilhas e o próprio mar - foram mantidos fora dos mapas de áreas prioritárias para conservação do programa Biota, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Pesquisadores de várias instituições, porém, estão redigindo projetos, empenhados em reverter esse cenário a partir de 2009.

"Tivemos dificuldade com essa parte marinha e estamos incentivando os grupos a preencher essa lacuna agora", diz o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, coordenador do Biota e pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). O esforço é em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado.

O plano é apresentar, até março, propostas para três projetos temáticos sobre biodiversidade do mar, das ilhas, das praias e dos manguezais paulistas. "Em cinco anos queremos chegar ao nível de conhecimento que temos do continente", diz Martins.

"Pode esperar que vai aparecer muita coisa interessante."

Laboratórios Naturais

O litoral paulista tem cerca de 150 ilhas, ilhotas e lajes. Esses ecossistemas insulares são laboratórios perfeitos para o estudo de processos evolutivos. A biodiversidade de ilhas é tipicamente menor do que a do continente - em número de espécies por área -, porém altamente diferenciada. Uma vez isoladas em populações menores e geograficamente restritas, as espécies insulares tendem a mudar (evoluir) com maior rapidez. O grau de endogamia é maior e, por isso, genes que conferem adaptação a alguma condição específica da ilha se disseminam pela população com facilidade.

Além das jararacas, várias espécies endêmicas de anfíbios também já foram identificadas, e os cientistas estão certos de que há muitas outras por aí. "Se tem até sapo endêmico, imagina o que não tem de invertebrados", diz a bióloga Cinthia Brasileiro, pós-doutoranda da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. Muitas das ilhas nunca foram estudadas. E mesmo Ilhabela, tão próxima do continente e cheia de turistas, também vem revelando espécies novas e endêmicas.

Adaptação impõe mutações às cobras

Na Ilha de Queimada Grande, no Estado de São Paulo, os milhares de anos de isolamento foram suficientes para transformar radicalmente os hábitos e a aparência da jararaca comum do continente (Bothrops jararaca). As cobras da ilha ficaram menores, mais delgadas e amareladas. Também foram obrigadas a adotar novos hábitos alimentares: sem pequenos mamíferos para comer na ilha, aprenderam a subir em árvores e passaram a se alimentar apenas de passarinhos.

"É um bicho completamente diferente", diz o ecólogo Marcio Martins, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). O que era Bothrops jararaca virou Bothrops insularis - vulgo jararaca-ilhôa. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção, como outras cobras e anfíbios endêmicos das ilhas paulistas. Um trabalho publicado recentemente por Martins e outros especialistas estima que haja cerca de 2 mil jararacas-ilhôas nos 25 hectares de floresta da ilha - metade do que havia dez anos atrás. Pode ser uma queda natural, relacionada a eventos climáticos que reduziram a migração de passarinhos. Mas há indícios de que serpentes têm sido retiradas ilegalmente da ilha para venda como animal exótico ou para extração de veneno.

Já as jararacas que ficaram isoladas na Ilha de Alcatrazes (Bothrops alcatraz) seguiram um caminho evolutivo diferente. Esteticamente, são iguais às do continente, mas ficaram "anãs" e passaram a se alimentar de centopéias e pequenos lagartos. Uma jararaca adulta tem cerca de 1,5 m. A de Queimada Grande chega a 1 m e a de Alcatrazes dificilmente passa dos 50 cm.

Tanto o nanismo como o gigantismo são fenômenos comuns entre as espécies insulares. Dependendo das características físicas e biológicas da ilha, as espécies tendem a ficar maiores ou menores do que eram originalmente, mesmo que não mudem outras características.