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Biodiesel pode causar mutações genéticas, conclui pesquisa de Rio Claro

Publicado em 21 novembro 2010

Por Cínthia Leone

O dano ambiental do biodiesel derivado da soja é significativo e pode provocar mutações genéticas em seres vivos. A conclusão é da tese de doutorado de Daniela Morais Leme, do Instituto de Biociências (IB), câmpus de Rio Claro. O estudo é um dos vinte vencedores da edição 2010 do Prêmio Green Talents (http://www.dialogue4s.de/en/338.php), promovido pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha. O resultado foi anunciado este mês.

O biodiesel é uma das apostas do governo brasileiro para responder à demanda mundial por combustíveis "verdes". É feito com matérias-primas renováveis, como óleos vegetais, mais comumente o de soja, ou gordura animal. Além disso, não lança na atmosfera altas doses de gás carbônico, já que não é derivado do petróleo, como a gasolina e o diesel convencional. "O problema é que a análise da qualidade desse produto só leva em conta o nível de emissão de poluentes no ar e não verifica se há substâncias tóxicas para o solo e a água", afirma a autora da pesquisa.

A investigação foi iniciada em 2007 com a proposta de verificar o impacto no meio ambiente em caso de vazamentos de combustível nas etapas de distribuição. A estudiosa analisou biodiesel de soja e diesel puros e misturas dos dois óleos em diferentes concentrações encontradas no mercado, denominadas B-50, B-20 e B-5 (classificação que varia de acordo com a porcentagem de biodiesel na composição).

Os resultados demonstraram que o diesel comum é tóxico para as células, mas a surpresa da estudiosa foi o desempenho do biocombustível. No solo, tanto os óleos compostos como o B-100, como é chamado o biodielsel puro, apresentaram efeito mutagênico (alteração do DNA das células). O B-100 ainda manteve essa característica quando aplicado na água.

A tese foi orientada pela bióloga e professora do IB Maria Aparecida Marin Morales e será defendida em dezembro. Parte do estudo foi desenvolvida durante um estágio de doutorado realizado na Agência de Proteção Ambiental da Alemanha, sob a coordenação da bióloga Tamara Grummt. A doutoranda contou que recebeu bolsa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e teve a colaboração de especialistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto. Em 2011, a estudiosa dará prosseguimento à pesquisa em seu pós-doutorado, no Instituto de Diagnósticos Ambientais e Estudos de Água (Idaea), em Barcelona, na Espanha.

Teste com cebolas

Daniela usou procedimentos padronizados em todo o mundo para a avaliação de efeitos mutagênicos. Foram três experimentos ao todo. Num deles, a cientista colocou cebolas em amostras de água poluída com cada combustível e em um recipiente com água limpa. Dessa forma ela constatou anomalias no crescimento das raízes. O teste conhecido internacionalmente como Allium ceppa, nome científico da espécie de cebola usada, foi empregado por ser simples, barato e eficiente.

Em outra simulação, a pesquisadora expôs linhagens de bactérias do gênero Salmonella aos poluentes. Esses microorganismos são deficientes na produção de um aminoácido, o que naturalmente impede seu crescimento. Após o contato com os agentes, as bactérias passaram a crescer, indicando que seus genes foram alterados.

Células de ovário de hamster-chinês (Cricetulus griseus) foram usadas na última experiência. A estudiosa comparou culturas de células contaminadas pelos poluentes com tecidos do mesmo tipo sem o contágio. O teste é feito para verificar sequências de micronúcleos, estruturas resultantes da fragmentação de cromossomos após o processo de divisão celular. Um aumento na frequência de micronúcleos caracteriza efeitos mutagênicos, o que foi estatisticamente observado pela investigadora.

Agulha no palheiro"

"Os resultados se complementam e indicam que, de fato, o biodiesel é capaz de gerar mutações. Agora, precisamos saber que parte do combustível provoca esse feito e determinar se é possível neutralizá-la", explica Daniela. Para isso, uma nova etapa de pesquisa começou a ser desenvolvida por ela, em conjunto com o Instituto de Química (IQ), câmpus de Araraquara. A química Mary Rosa Rodrigues de Marchi, professora do IQ e coordenadora desse estudo, afirma que será árduo o trabalho de identificar o que está causando as respostas genéticas.

Em princípio, a equipe apostava que hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) fossem as substâncias que geravam as alterações observadas. Os cientistas já sabiam de antemão que esses compostos podiam desencadear mutações genéticas e estavam associados ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer no homem e em outros animais. Enquanto a experiência dos pesquisadores e a literatura científica apontavam nessa direção, os resultados das análises químicas mostravam que não havia relação direta entre quantidade de HPAs e atividade mutagênica detectada nas amostras.

No estágio atual, os especialistas investigam os flavonoides, componentes comuns em diversas espécies vegetais, nesse caso, apenas aqueles presentes no óleo de soja usado para criar o biodiesel. "A quantidade de flavonoides é enorme. Embora já tenhamos conseguido restringir o número de "suspeitos", será como procurar uma agulha no palheiro", afirma Mary Rosa. Ela enfatiza que, mesmo identificando a substância causadora das alterações genéticas, pode não ser possível retirá-la do combustível.