Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Biocontrole é arma na guerra as pragas

Publicado em 07 novembro 2004

Por Tatiana Fâvaro - tfavaro@rac.com.br
O Instituto Biológico (IB) da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) trouxe para o Brasil este mês o pesquisador vietnamita Khuong Ba Nguyen, da Universidade de Gainesville, na Flórida. O especialista passou cerca de dez dias em Campinas e ministrou para os pesquisadores ligados à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo um curso sobre taxonomia (nomenclatura) de nematóides. Nematóides são vermes que ocorrem naturalmente no solo. Podem ser os chamados nematóides de plantas ou nematóides de insetos.Os primeiros são prejudiciais ao homem, pois acabam com as lavouras. Os últimos são uma ferramenta no controle biológico de pragas. Isso porque eles carregam em seu trato digestivo uma bactéria capaz de causar doenças a insetos das plantações. À primeira vista, trazer um pesquisador com 30 anos de experiência nos Estados Unidos para ensinar brasileiros a identificar pequenos vermes pode parecer algo muito peculiar ao circuito Acadêmico, às rodas de cientistas. Mas sabendo classificá-los, nossos pesquisadores poderão registrar essas nomenclaturas e aplicar esses organismos legalmente em produtos de controle biológico de pragas. Assim, impedirão ataques ao alimento, que chegará saudável à mesa do consumidor. Além disso, explica o pesquisador Laerte Machado, do Laboratório de Controle Biológico do Centro Experimental do IB em Campinas, especificar os nematóides significa poder ter um controle mais direcionado e, melhor ainda, sem riscos de contaminação. "Hoje temos muitos problemas de alimentos com resíduos de pesticidas que, muitos sabem, podem até ser cancerígenos", lembra. "O controle biológico é uma tendência, pois, bem aplicado, é sinal de segurança para o mercado", completa. E biocontrole, ressalta Machado, não é particularidade das lavouras. Ele também tem se mostrado um importante instrumento nos aviários e, conseqüentemente, uma alternativa para fortalecer a economia do País. "Os produtos orgânicos, embora dêem mais trabalho, significam melhor preço para o produtor e melhor qualidade para o consumidor", diz. Potencial Os nematóides já são utilizados como bioinseticidas em diversos países do mundo, destacando-se como técnica alternativa de controle de pragas de solo, atesta o pesquisador Khuong Ba Nguyen. E o desenvolvimento de produtos à base desses organismos no Brasil pode ser favorecido pela exploração da diversidade biológica que o País tem. Basta identificar novos agentes vivos com potencial de uso em controle biológico. O curso, dizem Nguyen e pesquisadores do IB, contribui para o avanço nos estudos de nomenclatura, biodiversidade e preservação desses organismos. O uso de nematóides já foi testado em besouros da raiz da cana-de-açúcar, na cigarrinha da cana (veja texto nesta página), no bicho furão dos citros, no Fungus gnats do fumo e dos citros e no cascudinho, besouro encontrado em granjas de frango de corte. Biologia e mercado As bactérias contidas dentro do aparelho digestivo do nematóide são liberadas pelo verme nas aberturas naturais (boca, ânus etc.) do inseto. Lá, elas se reproduzem rapidamente e, entre 12 e 48 horas, provocam a morte da praga que incomodava o produtor rural. Segundo Machado, os nematóides se reproduzem no corpo do inseto morto, formando novos organismos, que irão procurar outros insetos. "Eles têm um comportamento equilibrado. Os nematóides não se tornariam uma praga, pois se reproduzem até em quantidades inferiores ao necessário para dizimar uma população de insetos", diz o pesquisador. O curso ministrado no Centro Experimental do IB em Campinas faz parte de um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e realizado em parceria com a empresa Biocontrole, de comércio de produtos para controle de pragas. Segundo Machado, a parceria com a Biocontrole permitirá a produção dos nematóides em larga escala. "Elevando a população dos vermes no solo, será possível controlar as pragas mais rapidamente e com resultados melhores", diz. "Isso já é feito na Europa, Canadá, Estados Unidos", completa. Numa primeira fase do projeto, pesquisadores do IB testaram a viabilidade e o potencial dos vermes no controle de pragas. Isolaram esses microrganismos e os reproduziram em laboratórios. Depois, fizeram ensaios em campo. "Em vez de importar material, trabalhamos com nossa biodiversidade e obtivemos 20 tipos diferentes de nematóides em 11 regiões de São Paulo, da região de São José do Rio Preto ao litoral", diz. A segunda fase do projeto é instalar uma biofábrica. Serão reproduzidos em larga escala os nematóides que apresentarem 80% de eficiência nos testes de laboratório. A idéia dos pesquisadores do IB e da Biocontrole é tornar os nematóides um produto convencional, do ponto de vista da aplicabilidade. "Queremos fornecer os organismos em pó, para serem dissolvidos na água e utilizados como produto agrícola", afirma.