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Biocombustível é tema de debate global

Publicado em 16 março 2010

Por Dayana Aquino

A expansão do uso de biocombustíveis é considerada um movimento inexorável para o futuro na matriz energética mundial. Essa premissa, no entanto, ainda divide especialistas quanto a sustentabilidade do processo de produção em escala deste energético renovável, já que os recursos naturais, principalmente a água e a terra, podem não ser suficientes para atender a demanda.

Esse será um dos temas tratados na a convenção latino-americana do projeto Bioenergia Sustentável Global – GSB (The Global Sustainable Bioenergy Project). O evento acontecerá na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) de 23 a 25 de março. O encontro faz parte de uma série de rodadas internacionais de discussões sobre a bioenergia nos próximos 50 anos. Nesta terceira edição, de um total de cinco, será abordado o papel da participação da América do Sul em um cenário de participação de 25% de biocombustíveis na matriz energética mundial.

Para o idealizador do GBS, o pesquisador americano Lee Rybeck Lynd, o objetivo é apresentar os cenários sistêmicos de uso da terra, onde haja equilíbrio entre a produção de alimentos, preservação de habitats e produção em escala de biocombustíveis. A proposta é viabilizar um caráter global de todas as questões sobre segurança energética de cada país, no que tange os biocombustíveis.

Lynd, que já foi convidado diversas vezes pelo Senado dos Estados Unidos para falar dos aspectos técnicos e estratégicos do uso da biomassa na produção de energia, também é cofundador e diretor científico da Mascoma Corporation (EUA), criada em 2005 para viabilizar comercialmente a produção de energia a partir de biomassa.

Para Lynd, do ponto de vista de alguns países menos privilegiados, a dependência de fornecedores de biocombustíveis externos também deverá gerar impactos econômicos distintos. Porém, as mesmas questões que aparentemente dividem os países podem se tornar uma razão a mais para uni-los.

O Brasil está representado no Comitê Gestor do GSB por José Goldemberg, pesquisador do Centro Nacional de Referência em Biomassa, vinculado ao Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da Universidade de São Paulo (USP); e Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

GSB

O programa teve início no ano passado e mobiliza cientistas de várias partes do mundo em torno de soluções para as questões internacionais referentes a produção sustentável de bioenergia. A primeira edição aconteceu na Europa, Holanda, de 24 a 26 de fevereiro. A próxima será na África, entre 17 e 19 de março, seguida da América Latina, no Brasil, de 23 a 25. Depois serão realizadas reuniões na Ásia, na Malásia, de 14 a 16 de junho, e nos Estados Unidos, de 14 a 16 de setembro.

A realização dessas cinco conferências encerrará a primeira etapa do trabalho do GSB, que é o de perceber as dificuldades, carências, necessidades e possibilidades de cada continente em relação à produção e uso de bioenergia sustentável.

A partir das recomendações de cada uma das conferências, o programa segue para as próximas fazes. Uma delas visa entender se é fisicamente possível atender à demanda por transporte e eletricidade a partir da biomassa enquanto o mundo tem outras importantes necessidades como alimentação, preservação e manutenção da qualidade do ambiente. Por fim, será proposta a criação de políticas e estratégias que permitam a transição responsável para uma sociedade sustentável no mundo. No Brasil, o grupo convidado apontará a Visão Latino Americana para os próximos 50 anos.

No contexto de discussão global proposto pelo GSB, as lacunas nos projetos deverão ser diferentes entre si. Enquanto Europa e Estados Unidos apresentam limitações no uso da terra, a América do Sul e a África estão em situação bem diferente. No Brasil, por exemplo, uma porção relativamente pequena de sua área agricultável é usada para produzir a matéria prima do principal combustível renovável do país, a cana-de-açúcar.

Para Lynd, o Brasil deve-se honrar o progresso do país na liderança de uma base sólida de recursos sustentáveis e ocupar lugar central num mundo que use biocombustíveis intensivamente. Em sua avaliação, o país potencial para desempenhar um papel maior que hoje, mais amplo do que o de produtor de cana.

Da conferência realizada na Holanda, o resultado das conclusões envolveu a recomendação para que a Europa use a terra disponível ou que possa ser disponibilizada por meio da produção sustentável. De acordo com a FAPESP, algumas projeções mostram que há 40 milhões de hectares abandonados ou subutilizados e que sua utilização para cultivo de plantas pode gerar empregos, investimentos e beneficiar a diversidade, o ciclo da água, a estabilidade e qualidade do solo – aumentando os estoques de carbono e produção de alimentos.