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Berçário de idéias

Publicado em 01 setembro 2010

Por Por CARLOS RYDLEWSKI

A primeira vista, não há nada que o torne peculiar. O prédio é pequeno, com grandes porções de concreto aparente, em sintonia com o padrão arquitetônico das outras construções da USP (Universidade de São Paulo). Mas sua singularidade emerge à medida que o visitante abre cada uma de suas portas, espalhadas por amplos corredores, empilhados em três pavimentos. Elas abrigam embriões de empresas. A maioria erguida sobre ideias espetaculares. Na sala de número 13, Giovani Amianti cria robôs-espiões. São pequenas aeronaves e outros veículos não tripulados, como submarinos, usados em missões de monitoramento em áreas de proteção ambiental e em teatros de guerra. Israel Cabrera, o inquilino da sala 1, vale-se da bioengenharia para produzir uma membrana que estimula a regeneração de ossos.

Em outra sala. no piso térreo, Samy Menasce constrói uma máquina que toma o ar como matéria-prima, transforma-o em ozônio, e limpa piscinas, quartos de hotel e até turbinas de hidrelétricas. Spero Morato, sala 16, mantém em atividade um aparelho que dispara um riozinho de laser. Com ele, produz o primeiro stent brasileiro. Stents são minúsculos cilindros de metal, parecidos com molas, usados em pacientes com estreitamento de artérias. Detalhe: o edifício aqui descrito tem quase uma centena de portas. E boa parte delas guarda criações desse mesmo calibre - e engenhosidade.

O lugar em questão é o Centro de Inovação. Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), instalado em uma das unidades do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), no campus da USP. É a maior incubadora de negócios da América Latina. No mundo, em tamanho, só encontra similares na China. Mas eis a sua mais perfeita definição: um berçário de inovações. Em geral, a tarefa de uma incubadora é oferecer infraestrutura, além de ferramentas de gestão, para fortalecer empresas nascentes, principalmente aquelas movidas por novidades tecnológicas. Em muitos casos, também insere o empreendedor num ambiente acadêmico, como é o caso da USP, rico em conhecimento e abastecido com recursos de difícil acesso para pequenos empreendedores, como microscópios eletrônicos e túneis de vento. O modelo de negócios parte de um pressuposto óbvio. Considera eme, sem esse suporte inicial, essas companhias, ainda que inspiradas, teriam chances escassas de sobrevivência no mercado. Em contrapartida, caso prosperem, podem servir de catalisadores para a profusão não só de produtos mas também de estratégias organizacionais e processos disruptivos. A longo prazo, a meta desse tipo de estratégia é dilatar a veia tecnológica de uma nação.

No Brasil, surpreendentemente, existem mais de 400 incubadoras em torno das quais orbitam 8 mil empresas. Somadas, empregam diretamente 35 mil pessoas e têm um faturamento anual de R$ 3,5 bilhões. Esse conjunto de companhias, caso formasse um só bloco corporativo, estaria entre os 60 maiores conglomerados empresariais brasileiros, ao lado de nomes como Renault. JBS e Nestlé. Criado em 1998, o Cietec embalou 336 negócios. Atualmente, acolhe 139. tocados por 840 pessoas. Eles têm uma receita anual de R$ 45 milhões. Mas nem todos os empreendimentos chocados na USP prosperam. No terceiro ano de atividade, perto de 20% deles fracassam. No país, contudo, o índice de mortalidade de pequenas e médias empresas geridas fora dessa redoma é bem maior. Alcança 50%. Também não são todas as ideias incubadas que se revertem imediatamente em receita. Muitas iniciativas encontram-se num estágio pré-comercial, momento em que são feitos ajustes na estratégia de ingresso no mercado.

Esse é o caso da Xmobots, a inventora dos robôs-espiões. Ela foi formada em 2007. por três estudantes de engenharia da Escola Politécnica da USP. Três anos antes, ainda na faculdade, o grupo realizara um estudo para monitorar remotamente avarias.

Em linhas de transmissão de energia. O trabalho serviu de trampolim para a criação do negócio. "Quando formalizamos a Xmobots. 70% da tecnologia já estava pronta", diz Giovani Amianti, sócio da empresa. O passo seguinte foi tirar da prancheta o primeiro rebento: o robô. No caso, um pequeno avião, com 2.5 metros de comprimento. 32 quilos e 8 horas de autonomia de voo. Foi batizado de Apoena (significa "o que enxerga longe", em tupi).

Mas a máquina de voar não foi a única criação dos jovens empresários. O trio também desenvolveu um algoritmo de visão computacional. O nome assusta, mas sua função é popular, ao menos em Hollywood. Trata-se de um software que permite ao avião seguir automaticamente um alvo predeterminado. Nos filmes de espionagem, é um recurso de sucesso inquestionável. O modelo da Xmobots tem simples. A aeronave carrega uma camera. As imagens captadas pelo aparelho são transmitidas para a central do sistema. Ali. um operador acompanha as cenas e escolhe o item que será seguido. Pode ser urna pessoa ou um veículo. Para iniciara perseguição, basta clicar sobre a imagem na tela. Se for um homem, o robô orbitará tranquilamente pela região. No caso de um carro, vai se deslocar enquanto a bateria permitir. Tudo isso a três quilômetros do chão. coletando dados sobre a latitude e a longitude fio alvo 20 vezes por segundo.

O desenvolvimento desse tipo de produto por uma pequena empresa, tanto o hardware como o software, torna-se possível numa incubadora. No Cietec, as eompanhias-bebês têm acesso a 400 laboratórios da USP. Na produção da aeronave-robô. por exemplo, Amianti e seus sócios fizeram uma parceria com o Ipen. Eles criaram um tipo especial de balança para o laboratório de instrumentação da entidade. Em contrapartida, usaram gratuitamente o túnel de vento da instituição, cuja taxa para testes chega a R$ 50 mil.

Outra especialidade das incubadoras é acolher projetos, ainda que soem extravagantes para um investidor tradicional. Há 15 anos, o dentista peruano Israel Cabrera havia vislumbrado a possibilidade de trabalha com bioengenharia. Após o mestrado e o doutorado feitos no Brasil, montou a Bioactive, em 2007. Hoje, investe em um leque variado de produtos. O principal é uma membrana biodegradável que estimula a rápida regeneração de ossos. Pode ser colocada na cavidade deixada no maxilar por um dente perdido, por exemplo. Inicialmente, a película atrai o sangue que passa por aquele ponto, carregando células de todo tipo. O produto induz essas células a se transformarem em ósseas - o que dá início ao processo de recuperação, facilitando a realização de um implante. Estratégia similar, mas com composição química diversa, está sendo preparada para a regeneração da pele. O cardápio de produtos da Bioactive conta ainda com um creme para enxertos em ossos e um líquido que mata as bactérias causadoras da cárie. Ainda sem faturamento, a Bioactive está adequando suas inovações às normas de órgãos públicos nacionais e internacionais. "Vamos entrar no mercado em seis meses", diz Cabrera.

Nesse estágio pré-comereial, as incubadas sobrevivem com recursos de agências de fomento à inovação, como a Finep, ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Muitos empreendedores, no entanto, já se lançaram ao mercado. Samv Menasce.

Da Brasil-Ozônio, tem mais de 300 clientes e faturou R$ 1 milhão no ano passado - em 2010, acredita que dobrará esse valor. Menasce criou um sistema que usa o ozônio para a higienização de ambientes. A tecnologia acumula 50 aplicações, como a limpeza de piscinas, poços artesianos e turbinas de hidrelétricas, além do tratamento de efluentes químicos e a esterilização de instrumentos cirúrgicos. "Estou sempre criando um novo uso. As pessoas me ligam e perguntam: "Você consegue higienizar tal coisa?". Aí invento uma novidade", diz Menasce.

Casos semelhantes marcam a história das principais incubadoras brasileiras. As primeiras surgiram em 1984. por iniciativa do então presidente do Conselho Nacional de De senvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o engenheiro Lynaldo Cavalcanti. A inspiração veio do Vale do Silício, na Califórnia, o berço da indústria americana de eletrônicos, com estreitas ligações com a Universidade de Stanford. O mesmo modelo replica-se mundo afora. Na China, por exemplo, há perto de 700 incubadoras, com 44 mil empresas. Elas criaram 1,2 milhão de empregos.

Muitos desses berçários estão associados a parques tecnológicos, condomínios que abrigam não só ideias, para transformá-las em negócios, mas também indústrias e centros de pesquisa já estabelecidos. No Brasil, existem 25 desses parques, além de outros 17 em implantação e 32 projetos. Incubadoras e parques podem ler um tema dominante. Em Recife, são os softwares. Em Florianópolis, os games. O Cietec, embora focado em tecnologia, é eclético. Mas há uma tendência entre as empresas nascentes de explorar novas frentes da economia.

A energia limpa é um desses filões. A Electrocell. com faturamento anual de RS 1,2 milhão, produz células de combustível de hidrogênio que não poluem, pois emitem apenas vapor d agua. Tem 120 clientes. Abasteceu.em maio, um ônibusexperimental movido por células de hidrogênio criado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Criou ainda uma bateria com tecnologia intermediária entre as convencionais e as de lítio. No entanto, tem melhor performance que a primeira, custa um quinto da segunda e foi idealizada para grandes veículos híbridos, como caminhões e ônibus. E qual a receita da Electrocell para inovar? Quem explica é o engenheiro e sócio Gerhard Ett: "Investimos todo o lucro, que representa 20% do faturamento, em pesquisa".

A Care-Electric é outro destaque do Cietec no tópico meio ambiente. Ela conquistou um prêmio inédito. Foi a primeira empresa nacional a integrar o ranking Technology Pioneers, divulgado em dezembro pelo Fórum Econômico Mundial, com 25 start ups definidas como visionárias. A Care-Electric criou um novo conceito de hidrelétrica, que dispensa a construção de barragens e a consequente inundação de terras. É formado por uma estrutura pré-moldada, instalada entre as margens de um rio, à semelhança de uma ponte. Pequenas turbinas, movidas pelo movimento natural da água. Geram a energia.

Mas as inovações incubadas na LISP também alcançam áreas como os fármacos - o que, em geral, exige investimentos pesadíssimos. Nesse ramo está a Zelus. Ela fabrica pequenas bolinhas, chamadas pellets, cuja função é liberar o princípio ativo de um med icamento em pontos específicos do organismo. Para ingressar nesse setor, foi necessário construir o maquinário usado na linha de produção. "O que já existia no mercado era importado e caríssimo, a ponto de tornar o negócio inviável. Fizemos os nossos aparelhos, e o que custaria USS1 milhão saiu por R$ 6 mil", diz o químico Mario Moffa, um dos sócios da empresa. No Cietec, outra iniciativa no campo da saúde é a Innovatech, que fabrica os stents usados para desobstruir veias. Ela é um desdobramento (spin-off) de outra companhia, a Laser Tools. Trata-se. então, da segunda geração de uma idéia.

Apesar das novidades, a incubadora da USP passa por uma fase crítica. Em 12 anos de existência, a entidade teve no Sebrae-SP seu principal financiador, bancando quase a metade das despesas de custeio, o equivalente a RS 950 mil por ano. O restante do valor é captado junto às empresas incubadas. Elas pagam um aluguel mensal que varia entre R$ 500 e R$ 1,5 mil. A fonte do Sebrae-SP, entretanto, secou em junho. Isso porque a entidade perdeu uma ação civil pública movida por um grupo de consultores. No processo, a Justiça do Trabalho determinou que o Sebrae suspendesse todos os convênios baseados em consultorias, o que afetou acordos mantidos com 70 incubadoras paulistas, entre elas a da USP.

Agora, resta ao Cietec cortar despesas. "Ainda temos fôlego para mais alguns meses e estamos tentando criar novas fontes de receita", diz o diretor executivo Sergio Risola. Essas alternativas passam, por exemplo, pela ampliação e diversificação das parcerias. Uma delas foi formalizada com a Nitro Química, um braço do Grupo Votorantim. Ela abrigará cinco companhias nascentes em sua sede, na Zona Leste paulistana. Todas com negócios relacionados à atividade da empresa e selecionadas pelo Cietec, que ficará com parte do aluguel pago pelos empreendimentos nascentes. A Nitro Química será uma espécie de âncora para inovadores. "Essa é uma estratégia promissora. Com ela, nos transformamos numa franquia de inovação", diz Risola. Agora, o Cietec não só abriga inovadores. Mas inova para sobreviver.