Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Bentão reúne 90 anos de história

Publicado em 01 março 2009

Milhares de prontuários, centenas de fotografias tratadas e catalogadas. Documentos raríssimos, como o nome de alunos que, ao longo de 90 anos, ajudaram a construir a história do Bento Quirino, um dos mais tradicionais colégios campineiros. O centro de memórias do "Bentão" foi instalado na raça, por professores e alunos que sentiram a importância de se preservar um acervo precioso que apodrecia em caixas e gavetas. Um grupo de 20 estudantes se ofereceu para trabalhar aos sábados e recuperar folhas que desmanchavam de velhas.

A equipe teve recursos da Associação de Pais e Mestres (APM) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para comprar equipamentos de higienização de papéis e montar uma área fixa de exposição, com direito a salas climatizadas e computadores. Acontece que a ideia nunca parou de crescer. Agora, o espaço deve se tomar ponto de encontro eventual dos apaixonados pela escola. Hora para a troca de velhas fotografias. E para que senhores e senhoras (muitos agora com cabelos branquinhos) possam compartilhar lembranças marcantes.

O Centro de Memórias Professora Orleide Alves Ferreira— que homenageia no nome a diretora da escola — teve entre seus idealizadores o professor Américo Baptista Villela. Formado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o historiador de 38 anos leciona no Bentão desde 1992. Ele alterna as aulas ministradas ao Ensino Médio com um emprego no Museu da Cidade.

Villela feia que a proposta didática do centro de memórias não é mais montar exposições permanentes. Trata-se, agora, de um museu dinâmico. O acervo e os encontros terão temas definidos pelas próprias turmas ou pelos campineiros que, eventualmente, tenham interesse em colaborar na formação do acervo. A ideia, fala, não é recolher fotos ou documentos doados, mas reproduzir o material.

Mas Villela quer, sim, despertar nas novas gerações interesse pela trajetória de cidadãos marcantes, famosos pelos serviços que prestaram à comunidade. Bento Quirino dos Santos, que dá nome à escola, ficou rico produzindo café e negociando as ações do grão na bolsa de Santos. Quando ele se foi, deixou mil contos de réis para a instalação de escolas profissionalizantes.

Em 1910, por exemplo, os recursos ajudaram a criar a escola de comércio (o atual Colégio Politécnico Bento Quirino, ou Poli-Bentinho). O Bentão nasceu em 1918, a partir de uma associação de notáveis. José Paulino e o coronel Silva Telles, por exemplo, estiveram à frente do grupo, que ergueu o imponente prédio da Rua Culto à Ciência.

Lá, os meninos faziam marcenaria, tornearia, desenho, ferraria e caldeiraria. Aprendiam até a construir locomotivas no curso que formava ferroviários. A seção feminina ensinava costura e rendas, bordados, artes aplicadas. Mas as dependências amplas também acabaram sendo usadas para ações sociais históricas, como o dispensário de puericultura que dava assistência médica, alimentava crianças pobres e orientava mães. Domingos Boldrini atendia por ali. A foto do médico, muito jovem, faz parte do acervo catalogado. Também funcionou no prédio a enfermaria dos combatentes constitucionalistas de 1932.

A escola, que já era administrada pelo Estado desde 1927, permaneceu no prédio até o fim da década de 60, quando se mudou para o terreno onde funciona até hoje, na Avenida Orosimbo Maia. A sede antiga do Botafogo (com a marca da arquitetura impecável de Ramos de Azevedo) passou a ser ocupada pelo Colégio Técnico da Unicamp (Cotuca). No Cambuí, o Bentão teve espaço para instalar novos cursos profissionalizantes. Hoje, alem do Ensino Médio, há cursos técnicos de eletroeletrônica, mecânica, administração, logística e contabilidade.

O colégio mudou várias vezes de nome. Foi instituto Educacional, Escola Profissional, Ginásio Industrial, Escola Técnica Estadual. Todos e:es, no entanto, mantiveram a homenagem a Bento Quirino. Também nunca mudou, segundo o professor Villela, o orgulho dos estudantes pelo colégio.