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Meu Nenê

Bem longe da violência

Publicado em 01 outubro 2007

Por Flávia Benvenga

A criança pode sofrer agressões físicas, psicológicas ou sexuais. Especialistas orientam como proteger seu filho desses maus-tratos, que muitas vezes acontecem dentro de casa

Palavras grosseiras minam a auto-estima da criança, tornando a tímida e triste


Acena é pra lá de corriqueira e acontece com nove entre dez pais: a criança chora, faz birra... E sem saber como lidar com a situação, muitas vezes, eles acabam não só pensando em fazer uma besteira, como acabam agindo com xingamentos e usando tapas ou força para punir.

Infelizmente, esta é uma realidade que deveria ser evitada a qualquer custo. Afinal, cuidar de uma criança e educá-la dá trabalho e exige muito dos responsáveis, especialmente paciência, persistência, auto-controle, mas, fundamentalmente, amor. Caso contrário, a família pode se contaminar com comportamentos violentos. "O ideal é que as crianças venham ao mundo porque seus pais optaram por isso, partindo da idéia de que eles se prepararam em todos os aspectos para recebê-las e, assim, serem bem acolhidas pela família", afirma a pediatra Renata D. Waksman, presidente do Departamento Científico de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Para cultivar a atmosfera de paz, vale a pena tomar alguns cuidados já nos primeiros dias com o filho. A psicóloga Magdalena Ramos, co-autora de E agora, o que fazer? (Ágora), dá uma dica: "nos momentos de desespero, é necessá rio que outra pessoa menos tensa (pai, babá, avó) entre em cena para acalmar o bebê e, assim, permitir que a mãe tome distância da situação e se recupere. Sabemos que todos 'pensamos besteiras', o importante é conseguir falar sobre elas e desabafar, isso permite que muitas idéias não sejam colocadas em prática".

A psicóloga Maria Tereza Maldonado, autora do livro Cá entre nós - Na intimidade das famílias (Integrare Editora), explica que qualquer pessoa tem o potencial da amorosidade e da agressividade e é preciso expandir o primeiro para nutrir a capacidade de amar e ser solidário. "A agressividade é inata e necessária para lutarmos por nossos direitos e nos indignarmos com as injustiças, mas a violência não corresponde a uma necessidade biológica. Os comportamentos violentos são aprendidos e podem ser desaprendidos."

Ela ocorre quando não se consegue transformar o conflito em acordos construtivos. Nesses casos, a energia é usada de modo destrutivo", observa.


Pequenos estragos

Negar ao filho os cuidados básicos também é uma forma de maus-tratos

O impacto negativo que os comportamentos violentos e agressivos são capazes de causar no emocional da criança são os mais diversos. "Ela pode reproduzi-lo em todos os ambientes em que freqüenta, como o clube e a escola, e acaba entendendo que todas as situações de conflito devem ser resolvidas com a força", alerta a pediatra Renata.

A psicóloga Maria Tereza ressalta que cultivar o amor e o respeito são os ingredientes indispensáveis para criar filhos não-violentos e saudáveis. "Ser amorosamente firme com a criança é a melhor maneira de ajudá-la a conter o impulso de fazer o que não pode, sem criar clima de guerra", afirma.

Confira a seguir as dicas dos especialistas para vencer e proteger seu filho da violência:


Palmadas não educam!

"Muitos pais batem em seus filhos acreditando que seja a única forma de educá-los. Discordo", afirma Lauro Monteiro Filho, pediatra e presidente da Abrapia - Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência. Bater é sempre um ato de covardia, um abuso do mais forte contra o mais fraco. "Devemos buscar outras formas de educar filhos, sem castigos físicos ou maus-tratos psicológicos. Segundo Lauro, a insegurança por parte dos responsáveis, a falta de atenção e o descontrole pessoal são os principais problemas que os levam a adotar o castigo físico como forma pedagógica. A pediatra Renata acrescenta: "o tapa é uma violência contra a criança, que fica reduzida à condição de coisa".

Boa parte dos pais podem achar que essa conversa nem é com eles. Afinal, nunca sequer pensaram em bater nos filhos. Mas hoje é comum a criança ficar sob os cuidados de outras pessoas, babás ou escolinha. É importantíssimo saber como ela é tratada quando você não está por perto. Em caso de desconfiança, por menor que seja, é preciso tomar alguma atitude. Muitas vezes o diálogo com o coordenador da escola ou a babá pode esclarecer se realmente houve alguma atitude violenta contra a criança. Caso a dúvida ainda permaneça, não hesite em mudar a criança de escola ou demitir a babá.

É preciso também atitudes concretas para prevenir acidentes, estabelecendo os limites necessários com ações conscientes, do tipo "não pode colocar o dedo na tomada porque faz dodói" e distrair a criança. "Assim, pouco a pouco, sem precisar de palmadas, ela aprende que não pode fazer o que quer na hora que bem entende."

Xingamento e humilhação também são atos de violência e devem ser evitados a qualquer custo, garante a pediatra Renata. "Para isso é necessário existir um vínculo forte entre pais e filhos, desde antes do nascimento, uma relação de amor e respeito, para que a criança se sinta segura e acolhida dentro de casa", diz.

"Palavras ferinas constituem maustratos emocionais. Essa forma de violência é mais difícil de detectar do que a violência física: não fratura ossos, mas destrói a auto-estima; não provoca hematomas, mas machuca o coração, gerando mágoas profundas", salienta Maria Tereza. "São atitudes que transmitem desamor e rejeição que repercutem em sentimentos de desamparo: xingar, colocar rótulos ou apelidos depreciativos, ridicularizar, humilhar, intimidar, ameaçar..."

A criança que leva uma palmada fica reduzida à condição de coisa


Olho vivo para o abuso sexual

Os especialistas no assunto são unânimes ao falar da importância de ensinar as crianças desde pequenas a respeito de certos carinhos. É bom instruí- las sobre lugares no corpo que são muito particulares como o bumbum e os órgãos genitais. "A criança deve saber que, se um carinho a deixa desconfortável ou envergonhada, não precisa participar dele, não deve ter medo de dizer 'não' e contar para uma pessoa em quem confie", orienta Renata. "O adulto que abusa de criança geralmente pede para ela manter segredo, diz que isso é uma coisa especial e secreta, só para os dois, que não pode contar para ninguém; ele quer a criança em silêncio e, para isso, muitas vezes até faz ameaças." Mas a criança precisa estar ciente de que tem de procurar alguém de sua confiança, de preferência um adulto, para dizer o que está acontecendo. O pediatra Lauro, da Abrapia, alerta para a existência de muito mais casos de abuso sexual do que imaginamos, em todas as classes sociais e, em 90% das situações, a criança conhece e confia na pessoa que comete o ato. "Pode ser o próprio pai, o padrasto, o avô, o tio, o irmão mais velho ou um vizinho próximo."


E a violência na rua?

O adulto que está com uma criança pequena na rua precisa prestar muita atenção a qualquer comportamento diferente de pessoas estranhas. "Na situação de um assalto, mantenha a calma, jamais reaja ou tente fugir", alerta Renata. "Vale mais perder um bem material do que a vida!"

Tornar-se uma criança medrosa e isolada são alguns dos comportamentos comuns em crianças que sofreram abuso sexual


Não incentive a violência

É preciso supervisão por parte dos responsáveis para tentar evitar que a criança tenha contato com a violência apresentada pela mídia (TV), brinquedos, computador e videogame. Mas a pediatra Renata Waksman acredita valer mais uma orientação do que é danoso e representa perigo, do que simplesmente proibir. "A criança precisa perceber desde cedo que está rodeada por influências que podem gerar violência, mas precisa estar apta a entender, se proteger e se afastar dela em todos os sentidos."


Conheça os tipos de violência doméstica

Física - Uso da força física de forma intencional por parte dos pais ou responsáveis ou adolescente mais velho, com o objetivo de ferir, provocar dano ou levar à morte a criança ou o adolescente, deixando ou não marcas evidentes.

Sexual - Ato praticado por adolescente mais velho ou adulto responsável pela criança com o qual mantém algum vínculo familiar ou de relacionamento, para gratificação sexual, incluindo desde carícias, manipulação na genitália, pornografia, exibicionismo, exploração sexual, até o ato sexual com penetração anal ou vaginal. Segundo o artigo 224 do Código Penal Brasileiro, a violência é sempre presumida em menores de 14 anos, deficientes mentais ou quando a vítima não pode, por qualquer outra causa, oferecer resistência.

Psicológica - Consiste na submissão da criança ou adolescente por parte dos pais ou responsáveis, por meio de agressões verbais, humilhação, desqualificação, culpabilização, indiferença ou rejeição, podendo levar a danos, irreversíveis a seu desenvolvimento global, principalmente na área psicossocial.

Negligência - É quando os pais ou responsáveis não tomam os cuidados básicos para o desenvolvimento físico, emocional e social, provocada por privação de medicamentos; falta de atendimento aos cuidados necessários com a saúde; descuido com a segurança e com a higiene; ausência de proteção contra as inclemências do meio como o frio e o calor; não provimento de estímulos e de condições para a freqüência à escola.


Proteja seu filho da violência sexual

Anote as dicas da Academia Americana de Pediatria que podem prevenir que seus pequenos sejam vítimas de abuso sexual:

• Ensine a seu filho o nome das partes do corpo entre 18 meses e 3 anos.

• Converse com ele sobre as partes privadas do corpo (aquelas cobertas pela roupa de banho) quando ele tiver entre 3 e 5 anos, e também como dizer não. Fale sobre a diferença entre "o bom toque e o mau toque".

• Ouça seu filho e acredite nele por mais absurdo que pareça.

• Disponha de tempo para ele.

• Conheça os coleguinhas e os pais de seu filho. E saiba com quem seu filho está ficando nos momentos de lazer.

• Informe-se sobre o que sabem e como lidam com a questão da violência e do abuso sexual os responsáveis pela creche ou escola, pelos programas de férias. Faça o mesmo com o pediatra, o conselheiro religioso e a empregada.

• Fale com seu filho e lembre-se que o abuso sexual pode ocorrer ainda nos primeiros anos da infância.


Os números da violência em crianças

21.192 é o número de crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, mortos por causas externas, representadas por acidentes (lesões não intencionais) e violência (lesões intencionais), segundo o Datasus de 2004.

1 em cada 4 meninas que vivem nos Estados Unidos sofreram (ou sofrem) de abuso sexual na infância de acordo com o livro Abuso sexual de crianças (M. Books). No Brasil, embora não se tenham dados oficiais, "provavelmente temos a mesma proporção norteamericana", calcula Lauro Monteiro Filho, pediatra e presidente da Abrapia - Associação Brasileira.

16% do total de homicídios em todo país corresponde a crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde e informações que compõem o Banco de Dados da Imprensa sobre graves violações de direitos humanos do Núcleo de Estudos da Violência da USP (pesquisa participante do programa Cepid da Fapesp), no intervalo de 1980 a 2002.


Sinais de alerta

"A criança pode estar triste, apática, indefesa e, algumas vezes, com uma postura defensiva, encolhendo-se, fechando os olhos e protegendo o rosto", enumera a pediatra Renata. O mais importante é prestar atenção com relação à mudança de atitude da criança. Mas saiba que a presença de um sintoma não indica necessariamente a ocorrência de abuso sexual. Veja alguns sinais descritos por Christiane Sanderson, no livro Abuso sexual de crianças (M. Books):

• Tem comportamento sexual inadequado com brinquedos e objetos.

• Passa por mudanças de personalidade, sente-se insegura.

• Tem distúrbios do sono.

• Torna-se isolada e retraída.

• Retoma comportamentos de quando tinha menos idade.

• Tem medos inexplicáveis de lugares e pessoas em particular.

• Muda os hábitos alimentares.

• Apresenta sinais físicos, dor ou feridas sem explicações nos genitais, ou doenças sexualmente transmissíveis.