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Diário do Povo

BARRIGA VAZIA

Publicado em 03 dezembro 2003

Por ZEZÉ DE LIMA - Agência Anhangüera
Cerca de 200 mil pessoas, ou seja, 20% da população estimada em 1,06 milhão de habitantes, passam fome em Campinas, diz a pesquisadora Ana Maria Segall Corrêa, do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), da Unicamp. Isso é quatro vezes maior que os 50 mil estimados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base na renda familiar de meio salário mínimo mensal. Esse contingente de 200 mil pessoas, formado principalmente por aqueles com renda familiar de um, dois e até quatro salários mínimos, segundo a pesquisadora, vive sem ter garantia de acesso aos alimentos em qualidade e quantidade adequados para uma vida saudável. Apenas famílias com renda superior a quatro salários mínimos não passam por algum nível de insegurança alimentar em Campinas. Segundo a pesquisadora, a fome experimentada pelas 200 mil pessoas está entre um grau moderado, onde se encontram aquelas famílias onde os adultos comem em quantidade insuficiente para poder alimentar as crianças: e severo, onde a comida não é suficiente para as crianças nem para os adultos. A pesquisa apontou que, mesmo quando o poder aquisitivo é um pouco maior, a alimentação é preterida em relação a outros itens de sobre vivência, como aluguel, água e luz. Através de um inquérito populacional (questionário mais complexo), os pesquisadores ouviram durante o mês de agosto passado 847 famílias moradoras em zonas urbanas de Campinas. O próximo passo será desenvolver o trabalho com famílias da zona rural para, da mesma forma, acompanhar e avaliar as condições de segurança alimentar dos seus integrantes. A pesquisa foi proposta para validar uma nova metodologia para medir o grau de insegurança alimentar no Brasil. Campinas mais outras três cidades do País - Manaus (AM), João Pessoa (PB) e Brasília (DF) foram escolhidas para o trabalho do qual participaram como parceiros a Organização Pan-americana de Saúde (OPS). Ministério da Saúde e Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). O número da pesquisadora surpreendeu Mário Biral, presidente da Central de Abastecimento S/A (Ceasa), um dos pilares do programa Fome Zero em Campinas, que trabalhava com o universo de 50 mil pessoas, estimado pela FGV, com base em estudos considerando renda e poder de compra dos alimentos. "Imagina nossa responsabilidade saber que não são 50 mil, mas 200 mil", disse o presidente da Ceasa na última semana, ao receber a doação de 10 toneladas de sopa do grupo Brasilinvest. Das quatro cidades pesquisadas. Campinas apresenta a melhor situação. A pior foi verificada em Manaus, seguida de João Pessoa, capital de Paraíba e Brasília. A equipe da pesquisadora constatou que o alimento, gênero de primeira necessidade para o homem, entre as populações de renda familiar entre um e quatro salários, é o último item de uma lista em que o dinheiro primeiro é canalizado para o aluguel, energia elétrica, água e medicamentos. "O que sobra, se sobra, vai para comprar comida", testemunha. "No moderado os adultos estão expostos a fome, no severo todos estão, crianças e adultos", reforça a coordenadora do trabalho que diz ainda que também pôde ser observado que, em função da situação econômica e social, mesmo em famílias com rendimento acima de cinco salários mínimos há uma insegurança alimentar psicológica. "As pessoas temem não ter comida na próxima semana, no próximo mês e apresentam sintomas de depressão", disse.