Notícia

Jornal da Manhã (Cricíuma, SC)

Barcelona brasileira é uma imagem do Brasil operário no começo do século

Publicado em 20 fevereiro 2003

Por Adelto Gonçalves, jornalista e escritor em entrevista a Gécia Prado Souto Maior
Barcelona brasileira, de Adelto Gonçalves (Publisher Brasil, 190 págs., R$ 28), é um romance extraído das entranhas da própria história do Brasil do começo do século findo. É na cidade portuária de Santos, durante o período que vai de 1917 a 1922, que decorre a ação do livro que reúne emigrantes portugueses e espanhóis, um líder anarquista catalão, um dirigente operário seduzido pelo socialismo autoritário, um médico poeta defensor das causas trabalhistas, um vereador destemido e um chefe de polícia implacável na defesa da ordem burguesa. Adelto Gonçalves, 51 anos, é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo, e autor de Gonzaga, um poeta do iluminismo, publicado ao final de 1999 pela Editora Nova Fronteira. Esse livro, uma biografia de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), constitui seu trabalho de doutoramento e revela fatos inéditos na história da Literatura Portuguesa, avançando muito em relação ao último trabalho sobre o poeta escrito há 60 anos pelo reputado filólogo português Rodrigues Lapa. "É a primeira grande biografia do poeta é um instigante ensaio de história social das Minas Gerais e do Moçambique da Segunda metade do século 18", diz, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-embaixador do Brasil em Portugal e presidente da Academia Brasileira de Letras. Nessa entrevista a Gécia Prado Souto Maior, o autor revela o que trata a sua obra e um pouco de sua vida. - Por que Barcelona brasileira? - Barcelona brasileira foi como a cidade de Santos ficou conhecida à época, em razão da influência das idéias anarquistas sobre a massa trabalhadora. Não é fortuito que o romance termine em 1922, ano da fundação do Partido Comunista do Brasil, o partido de Luís Carlos Prestes que, depois, viraria Partido Comunista Brasileiro e hoje sobrevive com outro nome, adotado já depois da queda do Muro de Berlim e do fim do comunismo na antiga União Soviética. Antes houve no Brasil outros partidos comunistas, mas de tendência anarquista. O livro conta como foram as lutas internas nas organizações operárias entre líderes de tendência libertária e os de tendência autoritária, que advogavam uma ditadura transitória e, por fim, acabaram por ganhar a luta pelo domínio político das entidades trabalhadoras. Por esse tempo, a cidade de Santos abrigava uma massa trabalhadora equivalente em número à de Buenos Aires, igualmente participativa. Com a greve de 1921, que durou mais de 35 dias, a Companhia Docas demitiu mais de 1.700 operários, cujos nomes encheram duas páginas e meia do principal diário da cidade. Além de crianças, também bandidos comuns, que estavam nas prisões do Rio de Janeiro, foram recrutados para substituir os grevistas. - Com que, então, estamos diante uma história real? - É uma história verdadeira contada como se fosse ficção. É claro que há alguns episódios inventados, inclusive a história de amor que perpassa o livro. Para a reconstrução histórica, vali-me de jornais da época. O romance conta o caso do assassinato a tiros de um chefe de tráfego da Companhia Docas enquanto viajava tranqüilamente num bonde à noite a caminho de casa em companhia de um filho menor. Por aqueles dias, muitas bombas explodiram de madrugada sob a inspiração de um grupo a que os conservadores chamavam de "camorra ou máfia comunista". Nesse grupo conviviam extremistas libertários e autoritários. Para compor as personagens também vali-me de pessoas da época. Há um médico claramente inspirado em Martins Fontes, poeta parnasiano amigo de Olavo Bilac. O advogado e jornalista Menotti del Piero, está claro, é inspirado em Menotti del Picchia, outro poeta daquele tempo. Até o delegado de polícia Parsifal Abud é claramente inspirado numa personagem da época. Os agitadores sociais também foram buscados em gente de carne e osso. A época foi marcada ainda pela luta entre burgueses conservadores e liberais. Os conservadores entendiam que a questão social era uma questão de polícia, enquanto os liberais preferiam falar em alternativas para a ascensão dos menos favorecidos por meios pacíficos. Os anos assinalam também o início da derrocada da República Velha e das oligarquias rurais, que, perdendo as rédeas do poder, seriam substituídas por Getúlio Vargas, que acabaria por fundar o Estado Novo, implantando uma ditadura que iria durar quinze anos e só cairia com a redemocratização depois da Secunda Guerra Mundial. - É Barcelona brasileira o seu romance de estréia? - Não, meu primeiro romance, Os vira-latas da madrugada, saiu em 1981 pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, e igualmente conta uma história de amor em meio às lutas sociais à beira do cais de Santos. Só que a época é outra: o romance atravessa o golpe militar de 1964. Foi escrito quando eu tinha 18 anos de idade e ainda morava no local em que imaginei as personagens e vi com os próprios olhos as movimentações dos operários e a repressão pelo Exército e pela Polícia Marítima, uma força policial que hoje não existe mais. Dez anos depois, já redator da seção de política de O Estado de S. Paulo, reescrevi o romance e acabei por ser um dos ganhadores do Prêmio José Lins do Rego de 1980 da Livraria José Olympio Editora, o mais tradicional da história literária do Brasil. - Lido Barcelona brasileira, fica-se com a impressão de que utilizou várias maneiras de escrever e até de falar. É correta essa constatação? - Como a ação localiza-se entre o fim dos anos 10 e começo dos anos 20 do século 20, procurei, sem deixar de adotar as técnicas modernas do romance, reproduzir, muitas vezes, a linguagem daquele tempo. Não só a maneira de falar como também o modo de pensar das pessoas. Ao procurar reproduzir trechos de discursos oficiais e de relatórios policiais, tratei de escrever como se escrevia no Brasil há 80 anos. Por isso, muitos discursos aparecem pomposos, às vezes até vazios, porque era assim que eram feitos naquele tempo. Isso quer dizer que, no romance, há algumas palavras que hoje, também no dia-a-dia, já não são usadas. Ao fazer isso, só repeti uma técnica usada há séculos por Miguel de Cervantes no Dom Quixote. Hoje, mesmo quem conhece o castelhano a fundo já não consegue perceber que Cervantes coloca suas personagens a falar como falavam os cavaleiros medievais, não em sua época, mas dois séculos antes do momento em que escreve. Com queria ridicularizar as novelas de cavalarias, pretendia também ridicularizar esse tipo de linguagem fossilizada. Ao mesmo tempo, procurei escrever um romance com muita ação, que faça o leitor sentir prazer e não tenha dificuldade para avançar na leitura. - Como foi sua estréia na literatura? - Na literatura estreei em 1977 com um livro de contos intitulado Mariela Morta, que saiu por uma editora pequena, a Complemento, que hoje não existe mais. O livro não entrou nos canais de distribuição. Foi vendido mais para os amigos e conhecidos. Depois, vieram Os vira-latas de madrugada e alguns prêmios literários, como o Assis Chateaubriand de 1987 e o Aníbal Freire de 1994, ambos da Academia Brasileira de Letras, e ainda o Fernando Pessoa de 1986, da Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro. Em 2000, Gonzaga, um poeta do Iluminismo ganhou o Prêmio Ivan Lins de Ensaio da Academia Carioca de Letras e da União Brasileira de Escritores. - Como tem sido a sua carreira profissional? - Formei-me em Jornalismo pela Universidade Católica de Santos em 1974. Ainda estudante, trabalhei no jornal Cidade de Santos, já extinto, e em A Tribuna, de Santos, passando, em 1975, para o Estado de S. Paulo, onde fiquei até 1980. Nos aos 80, voltei a trabalhar na Tribuna e no Estado de S. Paulo e passei ainda pela Folha da Tarde e pela Editora Abril. Em 1992. tornei-me mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana pela Universidade de São Paulo com tese sobre a obra do romancista espanhol contemporâneo Eduardo Mendoza e o romance picaresco, que ainda está inédita. Em 1997, doutorei-me em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo com tese sobre a vida, a época e a obra de Tomás Antônio Gonzaga. De março de 1999 a março de 2000, pesquisei em arquivos e bibliotecas portugueses a vida do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), também com o objetivo de escrever a sua biografia. Para tanto, ganhei bolsa com duração de um ano da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). O livro Bocage: o perfil perdido sai no começo de 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa. Em Lisboa, fui correspondente da revista Época. Escrevo resenhas de livros para o suplemento Das Artes das Letras do jornal. O Primeiro de Janeiro, do Porto, e para os sites www.storm-magazine.com. Sou articulista da página 2 de O Estado de S. Paulo e de A Tribuna, de Santos, e ainda colaborador da revista Vértice, de Lisboa, e da Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Sou professor titular de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), de Santos. - Como o jornalismo tem contribuído para a sua atividade como escritor? - Antes de virar jornalista, eu já havia me aventurado no mundo literário, escrevendo o romance que, dez anos depois, reescrevi. Isso quer dizer que. antes de ser jornalista, eu queria mesmo era ser escritor. Se tivesse seguido outra profissão, com certeza, não teria deixado de escrever livros. Mas o jornalismo apareceu-me como uma profissão mais fascinante e que me daria a oportunidade de conhecer o mundo e outras gentes, o que dificilmente conseguiria se tivesse ficado fechado num escritório. De qualquer modo, o jornalismo ajudou-me bastante no sentido de depurar a linguagem, de escrever de uma forma mais direta. Quando decidi fazer estudos acadêmicos de investigação histórica, o jornalismo ajudou-me bastante. Ler documentos do século 18, como no caso das biografias de Tomás Antônio Gonzaga e de Bocage, e ainda ler jornais do começo do século 20 para escrever Barcelona brasileira, foi como se fizesse jornalismo de investigação. A única diferença era que as fontes estavam mortas. Além disso, o olhar que tive da História do Brasil e de Portugal foi não só a de historiador como também a de jornalista, preocupado com detalhes que, às vezes, foram encontrados nas últimas linhas de um documento de muitas páginas que nem sequer estava ligado diretamente aos poetas. Foi como se tivesse funcionado como repórter da História.