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Jornal do Commercio (PE) online

Banho de bactérias

Publicado em 18 outubro 2009

Agência Fapesp

Os chuveiros domésticos oferecem um ambiente propício para a proliferação de micróbios potencialmente patogênicos, que podem ser inalados na forma de partículas suspensas, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Colorado (UC) em Boulder, nos Estados Unidos.

A pesquisa concluiu que cerca de 30% dos chuveiros analisados abrigavam níveis consideráveis de Mycobacterium avium, ligada a doenças pulmonares. O patógeno contamina com mais frequência pessoas com sistemas imunológicos comprometidos e, eventualmente, pode infectar também pessoas saudáveis. Segundo o autor principal do estudo, Norman Pace, professor do Departamento de Biologia Molecular, Celular e de Desenvolvimento da UC, os cientistas analisaram cerca de 50 chuveiros de nove cidades em sete Estados norte-americanos.

Pace destacou que não é surpreendente encontrar patógenos em águas da rede pública, mas o estudo surpreende pelo fato de os pesquisadores terem descoberto que algumas das bactérias se aglutinam, formando um biofilme viscoso, que adere ao interior dos chuveiros, em uma concentração mais de 100 vezes maior que a encontrada na água encanada. "Quando a pessoa liga o chuveiro e recebe um jato de água, provavelmente está levando também uma carga elevada de Mycobacterium avium, que pode não ser muito saudável", disse Pace. O estudo integra pesquisa mais ampla que tem como objetivo avaliar a microbiologia dos ambientes internos, com apoio da Fundação Alfred P. Sloan.

Outra pesquisa, do Hospital Nacional Judaico, em Denver (EUA), indicou que houve um crescimento naquele país, nas últimas décadas, de infecções pulmonares relacionadas a espécies de bactérias não ligadas à tuberculose, como a Mycobacterium avium. Segundo os autores, esse crescimento pode estar ligado ao fato de a população do país ter passado a utilizar mais o chuveiro e menos a banheira. "A água que jorra do chuveiro pode distribuir gotículas recheadas de patógenos que ficam suspensos no ar e podem ser facilmente inalados, penetrando nas partes mais profundas dos pulmões", afirmou Pace.

Os sintomas da doença pulmonar causada pela bactéria, segundo o estudo, podem incluir cansaço, tosse seca persistente, falta de ar, fraqueza e sensação geral de mal-estar. "Pessoas com o sistema imunológico comprometido, como gestantes, idosos e doentes, são mais propensas a tais sintomas", diz Pace.

De olho na água

Embora os cientistas tenham tentado testar a presença de patógenos nos chuveiros por meio de cultura de células, essa técnica é incapaz, segundo Pace, de detectar 99,9% das espécies de bactérias presentes em um determinado ambiente. Uma técnica de genética molecular criada pelo grupo do pesquisador nos anos 90 permitiu a retirada de amostras diretamente dos chuveiros, isolando o DNA e determinando as sequências de genes presentes, possibilitando a identificação de tipos de patógenos específicos. "Alguns precedentes indicavam que os chuveiros podiam ser prejudiciais, mas não sabíamos o quanto", diz Pace.

Apesar dos resultados, Pace ressalta que um bom banho de chuveiro não é exatamente perigoso, desde que o sistema imunonlógico da pessoa não esteja comprometido. Uma boa opção, já que os chuveiros de plástico apresentam uma carga maior de patógenos, é optar pelos aparelhos de metal. "Já existem ferramentas para controlar a qualidade da água com mais precisão que as utilizadas hoje em dia", disse.