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Banda criada por alunos e professores da USP toca sem regras

Publicado em 20 março 2010

Por Fabio Reynol

Não há partituras. Os músicos começam a tocar interagindo uns com os outros, o que cria um evento musical novo a cada apresentação. A performance e a música gerada serão únicas e não poderão ser repetidas. Assim atua a Orquestra Errante, formada por alunos e professores da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

O grupo, que funciona como um laboratório de improvisação musical, nasceu ano passado como fruto do trabalho intitulado Investigação sobre o ambiente da livre improvisação musical: fundamentos para uma máquina de performance.

- Nosso objetivo é estabelecer um ambiente criativo em que todos tenham voz - disse Rogério Luiz Moraes Costa, professor do Departamento de Música e coordenador do trabalho.

Para que a performance não gere uma sonoridade caótica, os músicos seguem pressupostos preestabelecidos.

- É fundamental uma escuta intensa de si, do outro e do conjunto a fim de que a "fala" de todos seja respeitada - disse Costa.

Segundo ele, no grupo não existe hierarquia, pois todos os instrumentistas devem se respeitar para não encobrir ou atravessar a produção do vizinho, em uma participação que chama de democrática.

Isso não quer dizer que não haja impasses. A improvisação, segundo salienta Costa, pressupõe imprevisibilidade e, por isso, são comuns performances em que os instrumentistas começam a seguir linhas discrepantes que dialogam para formar uma produção conjunta.

As diferenças de estilo entre os artistas são valorizadas dentro da orquestra.

- Diferentemente da improvisação idiomática, na qual a música se dá dentro de um idioma como o jazz, o choro ou o blues, por exemplo, a improvisação livre não possui esse compromisso e as contribuições se misturam, cada uma baseada na história de um artista - explicou.

Assim, fragmentos de choro podem ser identificados ao lado de reminiscências de jazz e de arranjos que lembram o frevo, isso tudo dentro de uma mesma performance. Isso ocorre porque cada músico traz suas influências e sua história de vida.

Esse ecletismo de idiomas musicais é uma das características da orquestra da ECA-USP, que foi propositadamente constituída por músicos das mais variadas formações.

"Escultura sonora"

- O som é a nossa matéria-prima, com ele criamos uma grande escultura sonora - disse Costa.

Programas de computador também foram aplicados para expandir as possibilidades de criação ao se constituir novas fontes sonoras ou acrescentar recursos aos instrumentos musicais tradicionais.

- É relativamente novo no Brasil o estudo sistemático sobre a improvisação e suas conexões com a composição, os processos criativos e cognitivos, a educação musical e a tecnologia - disse Costa, destacando o pioneirismo da linha de pesquisa e da nova disciplina.

Agência Fapesp