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B2B Magazine

Balanço do ano

Publicado em 01 dezembro 2003

Este foi um ano muito difícil, não só para a área de tecnologia como para o País como um todo. Se considerarmos que o crescimento deve ser de menos de 1% e o crescimento vegetativo da população deve se manter perto dos 3%, está claro que houve um retrocesso. Com isso, é difícil abrir novas oportunidades, novos negócios e expandir os já existentes. Na área de Governo Eletrônico a situação foi ainda mais delicada. Há um repensar de todos os investimentos e processos. Mas em tecnologia, parar de avançar significa retroceder e, de fato, é isto que demonstram os relatórios internacionais de e-Gov: o Brasil caiu dois lugares no ranking. O problema incide diretamente na capacidade de investimento do setor público. Reduzir os custos de funcionamento da máquina pública significa liberar recursos para o desenvolvimento que estavam emaranhados nas estruturas burocráticas até o momento. Em uma projeção para o Brasil, com os critérios usados no estudo da BEC, a economia anual substituindo o sistema tradicional de compras pelo eletrônico seria de 36,11 bilhões de reais. Brecar o processo significa também perda de dinheiro para o País. A discussão sobre a substituição de software comercial pelo software livre colaborou no questionamento de tudo o que se vinha fazendo. Parece-me que as defesas veementes ao software livre são mais uma questão ideológica que uma vantagem efetiva. Cada caso é um caso, mas não podemos confundir a implementação de um software livre num telecentro que a implementação do mesmo num processo de compras. Estou preparando um estudo sobre os custos ocultos que a substituição traz, que colaborará com uma tomada de decisões mais consciente e menos ideológica. Algumas questões: qual é o custo de desenvolvimento do software dentro da própria empresa? Se a externalização de processos promove a queda dos custos, o que acarretará a internalização? Quantas perdas podem ocorrer sem as garantias assistenciais (benefícios e serviços) oferecidas ao usuário quando se compra um software comercial, tais como consultoria processual, help desk etc.? Quais serão as despesas necessárias para a evolução e a melhoria contínua? Qual será o custo do benchmark para saber se os produtos que a empresa está desenvolvendo está no mesmo nível tecnológico dos concorrentes? Sem contar o custo de quebra de contratos e a falta de confiança que será ocasionada por essa mudança repentina de regras do jogo. Não há dados confiáveis, mas também não foi verificado nenhum avanço na inclusão digital. O longo processo da inclusão social - que necessariamente precederá a inclusão digital - depende da passagem de uma geração inteira pelo processo de educação formal, pelas mudanças na qualidade dessa formação, pela abertura de capacitações à altura dos requerimentos do mercado de trabalho atual etc.. O Brasil tinha conseguido ser líder mundial em muitos processos de governo eletrônico. Brecá-los é um luxo que o País não pode se dar. O governo e a sociedade como um todo são os grandes perdedores. Florencia Ferrer é doutora em sociologia econômica pela USP, pesquisadora da FAPESP e consultora em implementação social da tecnologia florencia.ferrer@terra.com.br