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Baixo investimento em pesquisa e inovação deixa Brasil despreparado para enfrentar coronavírus, diz Ipea

Publicado em 17 maio 2020

Por Ricardo Balthazar, FOLHAPRESS

O baixo investimento do Brasil em pesquisa e inovação deixou o país despreparado para enfrentar a pandemia do coronavírus e sair da crise quando o pior ficar para trás, na avaliação de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que é ligado ao Ministério da Economia.

Em uma nota técnica em que compara os investimentos feitos pelo Brasil com os de outros países, o grupo conclui que a timidez das iniciativas brasileiras aumenta a dependência tecnológica e agrava riscos para a população na pandemia, contribuindo para a falta de equipamentos e tratamentos.

O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações lançou dois editais para seleção de projetos de empresas e pesquisadores interessados em desenvolver tecnologias para o combate ao coronavírus, incluindo testes diagnósticos, equipamentos médicos e pesquisas sobre vacinas e medicamentos.

Juntos, os dois editais oferecem R$ 70 milhões, incluindo recursos que já faziam parte do orçamento do ministério, além de dinheiro do Ministério da Saúde e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Outros fundos do ministério foram reforçados em R$ 447 milhões pelo governo federal.

Nas estimativas do grupo do Ipea, os recursos aplicados pelo governo brasileiro representam apenas 1,8% do orçamento anual dedicado a pesquisas e inovação. O esforço de outros países foi muito maior, alcançando 4% nos Estados Unidos, 11% no Reino Unido e 12% na Alemanha.

— Não é de hoje que os investimentos do Brasil nessa área estão diminuindo — observa a economista Fernanda De Negri, uma das responsáveis pela nota do Ipea. — No contexto atual, isso limita muito a capacidade do país de se articular com as redes de pesquisa na linha de frente do enfrentamento ao vírus.

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Os EUA destinaram até agora US$ 6 bilhões para ampliar os orçamentos de institutos de pesquisa do governo na área de saúde — sem contar os investimentos que o setor privado tem feito em meio à corrida dos laboratórios para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos para a covid-19.

A Alemanha decidiu investir US$ 2,3 bilhões, com recursos destinados a fundos de capital de risco para garantir a sobrevivência de empresas de tecnologia ainda em desenvolvimento. O Reino Unido pretende ampliar em US$ 1,7 bilhão seus investimentos, incluindo subvenções para empresas.

— Claro que o Brasil não tem condições de igualar o esforço desses países, mas seu isolamento preocupa. Isso ficará evidente no dia em que descobrirem uma vacina para o coronavírus, quando provavelmente iremos para o fim da fila entre os países que terão acesso à imunização — afirma De Negri.

Ela observa que o Brasil já encontra dificuldades para adquirir testes e equipamentos essenciais para o tratamento dos doentes, como os respiradores necessários para casos graves e os equipamentos de proteção individual para profissionais de saúde.

A nota dos pesquisadores do Ipea também critica a falta de agilidade do governo brasileiro. Os projetos selecionados pelos dois editais lançados até aqui serão conhecidos em junho e terão prazo de dois anos para apresentar resultados - o dobro do tempo previsto em outros países analisados pelo grupo.

Uma versão resumida da nota técnica será publicada pela Rede de Pesquisa Solidária, iniciativa que reúne pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e outras instituições acadêmicas públicas e privadas para estudar as políticas de combate à pandemia no Brasil. Os boletins estão disponíveis online.