Notícia

Gazeta Mercantil

Baixa da Nasdaq retrai investimento de risco

Publicado em 20 abril 2001

Por Fideo Miya e Luciana Monteiro - de São Paulo
A queda de 39,3% registrada pela bolsa eletrônica Nasdaq em 2000 produziu perdas de US$ 10 trilhões com a desvalorização das ações das empresas de alta tecnologia e gerou retração dos investimentos pelos fundos de "venture capital" e de "private equity", que viram os altos retornos despencar para um índice negativo de 6,3% no último trimestre do ano passado. Nos Estados Unidos, esses investimentos serão reduzidos drasticamente para US$ 40 bilhões neste ano, menos da metade dos US$ 100 bilhões aplicados em 2000, com impacto direto no Brasil, disse ontem o diretor do Darby Technology Group, Peter Jones. O Darby Technology é um fundo de investimentos em negócios de alta tecnologia em estágio inicial criado no ano passado pela empresa do ex-secretário do Tesouro americano, Nicholar Brady, a Darby Overseas Investments, disse Jones, durante o "Seminário Venture Capital no Brasil", promovido ontem no Hotel Maksoud Plaza pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em conjunto com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e as associações brasileiras de Capital de Risco (ABCR) e de Companhias Abertas (Abrasca), com o apoio da GAZETA MERCANTIL. Em maio de 2000, o Darby adquiriu uma participação de 35% da Inova Tecnologia, empresa brasileira de infra-estrutura de internet, com investimentos de US$ 5 milhões. No ano passado, os gestores dos fundos internacionais de capital de risco investiram US$ 1,5 bilhão em empreendimentos na América Latina e 80% dos recursos foram alocados para o Brasil, México e Argentina, disse Jones. No mesmo período, as empresas latino-americanas captaram US$ 3,13 bilhões com a abertura de capital no mercado americano por meio dos IPOs (Initial Public Offerings). Os investimentos no Brasil continuarão, disse Jones, mas os critérios para seleção dos empreendimentos serão bem mais rigorosos. Uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) junto a 31 instituições administradoras de fundos de "venture capital" e de "private equity", sob encomenda da ABCR, revelou que no mínimo US$ 2.1 bilhões estão alocados para investimentos em empresas brasileiras. Segundo o sócio-diretor da Mercatto Gestão de Recursos e ex-presi-dente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Thomás Tosta de Sá, se forem incluídas as intenções de investimentos, embora sem recursos alocados, o volume sobe para US$.3,8 bilhões, cujo desembolso ocorrerá neste e nos próximos anos. No ano passado, os investimentos realizados no Brasil chegaram a US$ 747 milhões, segundo a pesquisa. Paralelamente ao seminário, a Finep realizou a terceira edição do "Venture Fórum Brasil", destinada a promover encontros entre empreendedores em busca de capital de risco e investidores interessados em oportunidades de negócios. Um grupo de 16 empresas selecionadas pela Finep montaram estandes num salão do hotel para apresentar seus projetos aos representantes de cerca de 50 investidores inscritos. Segundo Paulo Myers, diretor da The Capital Network, instituição privada americana especializada na realização de "venture fóruns", nos EUA um terço das empresas que participam desses encontros acabam recebendo recursos de investidores, que assumem o risco do negócio na condição de sócios. Os administradores de oito fundos de investimentos de capital de risco em atividade no Brasil apresentaram as suas respectivas políticas de investimentos, num painel coordenado pelo diretor do UBS Capital America, Luiz Spínola. Ele disse que os gestores de fundos de "venture capital" e de "private equity" querem obter altos retornos, porém legalmente, ou seja, investindo em empresas que não sonegam. O diretor do GP Tecnologia, Denis Jungerman, afirmou que o foco do fundo são empreendimentos diferenciados nas áreas de telecomunicações, software em áreas específicas, internet, aplicações para setores de infra-estrutura e serviços acessórios. O objetivo é investir em 10 a 20 projetos, destinando de US$ 5 milhões a US$ 25 milhões para cada um. O fundo foi criado pela GP Investimentos, que administra US$ 1,4 bilhão em fundos de "private equity". A Eccelera é o braço de investimentos do grupo venezuelano Cis-neros na área de tecnologia. Segundo p presidente da empresa, Pedro Cordeiro, a empresa pretende investir US$ 100 milhões em participações minoritárias de até 49% em companhias brasileiras, dos quais US$ 40 milhões em pequenos empreendimentos emergentes e o restante em grandes empresas, junto com outros fundos de "private equity". NOVO MERCADO ESTIMULA PROJETOS As perspectivas com o Novo Mercado têm feito surgirem várias iniciativas públicas e privadas no sentido de financiar projetos, principalmente na área de tecnologia, e empresas com faturamento entre R$ 15 milhões e R$ 60 milhões, que se deparam com a necessidade de um capital mais competitivo. O Projeto de Apoio às Novas Sociedades Anônimas, do BNDESPar - empresa de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) -, é um deles. Lançado em outubro do ano passado, o programa adquire participação na empresa interessada, oferece financiamentos a taxas especiais, mas exige que a companhia se comprometa a abrir o capital no Novo Mercado. "O projeto deve liberar R$ 500 milhões em cinco anos. Só em 200.1 serão R$ 100 milhões", diz o superintendente da BNDESPar, Alberto Miguel Pecci. "Normalmente, financiamos pequenas e médias empresas ligadas à tecnologia, mas há também boas oportunidades no setor tradicional com excelentes chances de crescimento e ganho." A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) também aposta suas fichas no sucesso de um mercado que seria formado por empresas de menor porte. Gilberto Mifano, superintendente-geral da bolsa, diz que essa iniciativa fortaleceria o mercado acionário, pois aumentaria o número de produtos mais próximos às expectativas dos investidores. Os fundos de investimento também teriam mais uma opção para diversificar as carteiras. Na opinião dele, o Novo Mercado está muito próximo de ser lançado. "Só falta acontecer. Há interesse de todos." GARANTIAS Mifano alerta, no entanto, que são necessárias garantias junto aos controladores das companhias. "Sem retorno e sem garantia mínima das regras do jogo, não se atrai investidores", diz o superintendente. Lançar somente ações com direito a voto, garantir a representação dos minoritários no conselho de administração e incluir no estatuto social instrumentos legais que assegurem o tratamento igualitário de todos os acionistas são considerados requisitos básicos para a sobrevivência num ambiente de negócios dominado, sobretudo, pelos grandes participantes globais. Mas segurança é algo que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pretende garantir. A abertura de capital de empresas menores já passou pela Câmara dos Deputados e está atualmente aguardando votação no Senado. Se aprovada, é enviada para a CVM fazer a regulamentação e, em seguida, ser colocada em prática. "Estimular a participação dessas empresas é demonstrar mentalidade aberta para o mercado de capitais no Brasil", afirmou o diretor da CVM, Marcelo Trindade. (LM.)