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Forbes Brasil

Baiana tipo exportação

Publicado em 10 junho 2005

Por Elaine Bittencourt
Há cinqüenta anos, o Brasil se comovia com a morte de Carmen Miranda
 
A vibrante brasilidade de Carmem Miranda conquistou o imaginário norte-americano a ponto de torná-la a campeã de contratos de publicidade na Hollywood dos anos 40

As divas do cinema sempre foram modelos de comportamento. Quem não se lembra de elegância de Grace Kelly ou da sensualidade de Marilyn Monroe? Mas nem só de deusas louras vive Hollywood. Nos anos 40, brilhou entre estas estrelas uma explosiva morena mignon: Carmen Miranda. Para o bem e para o mal, a baiana estilizada da cantora e atriz, cujo cinqüentenário de morte se comemora neste ano, caiu no gosto do americano com sua presença alegre e bem-humorada, transformando-se, para sempre, num símbolo da mulher latino-americana.
A América lhe trouxe fama e riqueza, mas apesar de tudo isso, Carmen teve grandes decepções. Vivenciando um momento recheado de contradições culturais e políticas, a atriz sofria pela impossibilidade de agradar a todos. Seu sofrimento era de fato mais que uma questão particular, era resultado de um período histórico peculiar no qual o seu talento serviu como uma luva aos interesses da política de boa vizinhança dos americanos. Este é um dos temas abordados no livro "O It Verde e Amarelo de Carmen Miranda (1930 -1946)", editado pela Annablume em parceria com a FAPESP (252 págs, R$ 35). Originalmente uma tese de doutorado defendida por Tânia da Costa Garcia, professora de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap) na Universidade de São Paulo, a obra analisa de que forma a atriz transformou- se num ícone da identidade nacional no exterior.
Carmen vestiu-se pela primeira vez com a fantasia de baiana para participar de "Banana da Terra", em 1938, último filme rodado com a participação da artista no Brasil. Na fita, ela aparece cantando a música do então estreante Dorival Caymmi, o clássico "O Que é Que a Baiana Tem". Barriga de fora, uma fenda nas saias, balangandãs e o célebre turbante compunham o visual exótico que ganharia o mundo.
A baiana de Carmen era um produto perfeito para exportação, percebeu logo o empresário americano Lee Hubert. Primeiro, ele a leva aos Estados Unidos para uma série de shows na Broadway, em 1939. No ano seguinte, quando a cantora já estava no Brasil, recebe o recado: Hubert havia assinado em seu nome um contrato com a 20th Century Fox. Era o início de uma carreira meteórica. Uma das estrelas mais bem pagas da época, a atriz ainda aumentava seus rendimentos com a participação em diversos comerciais. Seu estilo ganhou as lojas da Quinta Avenida e as americanas logo se renderam à moda da Pequena Notável.
O clima no Brasil era de euforia. Alguns setores lamentavam que uma representante tão ligada ao mundo carnavalesco fosse ao exterior representar a nação. Mas outros, influenciados pela política nacionalista do governo de Getúlio Vargas, vibravam com a perspectiva de apresentar na terra de Tio Sam aquela que se configurava como a canção popular nacional, o samba.
Nem tudo, porém, era festa nos últimos anos da década de 30. A ameaça de uma guerra se avizinhava e Vargas mantinha uma posição dúbia na sua política externa. Os EUA, que há anos tentavam expandir seu domínio político, temia, sobretudo, a aproximação do Brasil com a Alemanha, com quem o País mantinha fortes relações comerciais. Em agosto de 1940, reiventando o antigo pan-americanismo, o governo Roosevelt cria uma agência de assuntos estratégicos, o Office of Coordinator of Inter American Affairs (OCIAA), com sede no Rio de Janeiro, que tinha entre os objetivos obter o apoio das nações latino-americanas.
Apesar de não haver documentos que comprovem a ligação do órgão com o contrato assinado por Carmen com a Fox, não há como negar que, após a criação da agência, os investimentos em filmes que pregavam a política de boa vizinhança aumentaram consideravelmente. Carmen era apenas mais uma peça nesse jogo, uma figura simpática, que tanto podia agradar aos brasileiros como aos americanos, que precisavam ser convencidos das vantagens do bom relacionamento com a América Latina.
Mas Hollywood nunca foi exatamente uma terra fiel à realidade. Ainda mais em tempos de guerra, era preciso levar os espectadores a um mundo de fantasia. A Brazilian Bombshell surge então nas telas dos americanos como a imagem do bom selvagem, alegre, divertida, extravagante e sensual. Somente nos Estados Unidos, a atriz participou de 14 filmes. Fez quase sempre o mesmo papel. Como lembra a autora da tese, Tânia da Costa Garcia, "Carmen Miranda nas películas produzidas em Hollywood transformava- se no símbolo de uma América Latina tropical e mestiça aos olhos do yankee. "Quase sempre fantasiada, esquecendo o samba em favor de tangos e rumbas, ela contrastava com o mundo civilizado das belas loiras com as quais contracenava.
Não por acaso, quase sempre Carmen termina só em seus filmes. A sensualidade exagerada e a malandragem de alguns dos personagens tornavam-na repulsiva aos galãs, que acabavam sempre por cair nos braços das meigas americanas, mulheres perfeitamente talhadas para o casamento. No cinema, para desgosto de muitos brasileiros, a atriz sempre representou um mundo subdesenvolvido, a mulher que, apesar do bom humor, não se adaptava às regras de uma nação de ética protestante. Infantilizada, ela representava um continente que para amadurecer, precisaria do apoio daquele que surgia como o país mais desenvolvido do Ocidente.
Por fim, a guerra acabou, e vieram os anos 50. O contrato com a Fox terminou, mas ela fez outros filmes e shows. Mas sua imagen não mais condizia com os planos desenvolvimentistas do País. Como que pressentindo que seu tempo havia passado, Carmen morre em agosto de 1955, nos Estados Unidos. "A baiana exótica que lembrava um Brasil negro e subdesenvolvido não combinava com a idéia de um presidente que prometia em cinco anos fazer o País progredir cinco décadas", escreve Tânia. À Brazilian Bombshell cabia apenas o lugar de mito e ceder espaço para os novos tempos, novos artistas, uma nova música: era hora de exportar a bossa-nova.
No Museu Carmem Miranda no Rio de Janeiro encontram-se peças originais doadas pelo marido da cantora e atriz morta prematuramente