Notícia

Gazeta Mercantil

Bahia produz cacau de proveta

Publicado em 02 novembro 1997

Por Inês Figueira - de Salvador
O governo da Bahia, a Comissão Executiva do Plano de Recuperação da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e a Cooperativa de Crédito Rural Gra-piúna (Credicoograp) estão investindo R$ 2,9 milhões na construção da primeira biofábrica brasileira de mudas de cacau resistentes à vassoura-de-bruxa, doença que reduziu em 55,2% a safra baiana em menos de dez anos, de 380 mil para 170 mil toneladas. Com o projeto, serão distribuídas no mercado 200 milhões de mudas em 2002, quando a biofábrica estará funcionando com sua capacidade plena. Na próxima semana, a Ceplac - responsável pelo desenvolvimento e aplicação das tecnologias de propagação - lançará o edital para a compra dos 50 hectares que servirão para a montagem do jardim clonal, de onde sairão as mudas para a renovação das lavouras de cacau da região, condição básica para que a doença seja controlada e a região sul da Bahia possa retomar sua produção. Segundo o diretor da Ceplac, Hilton Kruschewsky, a entidade está buscando uma área que possua água em abundância, com luz elétrica, solos férteis e que tenha uma plantação de cacau. "As plantas existentes no terreno serão enxertadas com material genético resistente produzido pela Ceplac", diz. A produção de mudas também será acelerada através do plantio adensado, utilizando a técnica denominada estaquia, ou seja, ao invés de utilizar sementes serão plantados galhos de plantas resistentes que receberão doses de fito-hormônios para acelerar o processo. O resultado é a redução pela metade no tempo de produção do material genético a ser repassado para apenas um ano e meio, enquanto no processo normal, com o plantio de sementes, as mudas só seriam obtidas após três anos. As mudas, todas contendo certificado de garantia da Ceplac, deverão ser vendidas em média aos produtores por R$ 0,14, ou seja, 30% mais barato que o preço cobrado no mercado. "A idéia é fornecer mudas pelo menor valor possível", diz Kruschewsky. O valor será determinado pelo custo operacional, que no primeiro ano de operação da biofábrica deverá ficar em R$ 900 mil. A responsabilidade da distribuição está à cargo da Coograp, que também administrará a biofábrica. Com início das atividades marcado já para o próximo ano, o empreendimento deverá estar produzindo 350 mil mudas em 1999. Este número sobe 11,2 milhões de mudas no ano 2000 e 119 milhões no terceiro ano de atividades. Além do jardim clonal com 500 mil cacaueiros que produzirão mudas suficientes para cobrir 100 mil hectares por ano, a fábrica contará com uma casa de estaqueamento de 300 metros quadrados de área construída, casa de vegetação com 9 mil metros, áreas de aclimatação com 36 mil metros quadrados, área de circulação e edificações de apoio administrativo. A capacidade de estoque será de 3,4 milhões de mudas. Oásis em pleno deserto Um oásis no meio do deserto é a imagem da experiência que está sendo desenvolvida na Fazenda Pedra Branca, no município de Gandu, sul da Bahia, desde 1991. Preocupado com os baixos preços do cacau na época, o proprietário Carlos Bayard decidiu apostar no aumento da produtividade para viabilizar a lavoura. Com a ajuda de um geneticista da Comissão Executiva do Plano de Recuperação da Lavoura Cacaueira (Ceplac), o produtor iniciou um processo de substituição das copas dos cacaueiros existentes, onde decidiu enxertar clones originados da variedade Scavinia 6, de alta produtividade e resistente à vassoura-de-bruxa. Nos 40 hectares já substituídos, o agrônomo está obtendo uma produtividade média de 150 arrobas por hectare, em comparação com a média da região que não ultrapassa 30 arrobas por hectare. Além do processo de enxerto, o agricultor começou a utilizar a técnica de adensamento, plantando lotes com 2,2 mil árvores com espaçamento de três metros por 1,5 metro. Há ainda experimento com 3,33 mil plantas por hectare, com espaçamento de 3 metros por 1. Bayard informa que, paralelamente ao melhoramento genético, são feitos os tratos culturais indicados, com a poda e a aplicação de fungicida à base de cobre. A expectativa de Bayard é de que no prazo máximo de quatro anos tenha conseguido substituir os 150 hectares restantes por variedades resistentes e com alto índice de produção. (I.F.)