Notícia

Jornal do Brasil

Bagaço da cana dá origem a bateria

Publicado em 19 junho 2000

Pesquisadores do Departamento de Química da USP de Ribeirão Preto estão desenvolvendo materiais a partir do bagaço da cana-de-açúcar para produzir baterias recarregáveis de íons de lítio, tipo de bateria que causa menor impacto ambiental e é mais potente do que as baterias de níquel/cádmio. Ao contrário das baterias tradicionais, que usam eletrodos feitos de metais pesados, como o cádmio, os eletrodos das baterias de íons de lítio são à base de componentes químicos com baixo teor de toxicidade - óxido de manganês, pirita mineral e carbono. O carbono usado é geralmente encontrado na forma de grafite, cujo quilo custa em média US$ 3. O que os pesquisadores da USP estão fazendo é substituir este carbono pelo carbono obtido do bagaço da cana. Dessa forma, otimizam a matéria prima nacional, reduzindo a necessidade de importação do grafite. "Além de ser mais barato, o uso do carbono da cana-de-açúcar acaba contribuindo para reduzir a poluição, pois, sem utilidade prática, muitos agricultores costumam queimar o bagaço para gerar energia", diz o físico-químico Maurício Roselen, da USP. Reciclagem - Maurício ressalta que o carbono, seja extraído da cana ou não, é mais fácil de ser reciclado do que os metais pesados. "Isso é um atrativo para os fabricantes, pois podem reaproveitar materiais que usam na fabricação de suas próprias baterias. E mais econômico", conta. Em caso de corrosão, as baterias de íons de lítio também apresentam vantagens sobre as de níquel/cádmio. "Por serem feitas de materiais de baixa toxicidade, um possível vazamento para lençóis freáticos não causaria danos ao meio ambiente", diz. Já as baterias que contêm metais pesados podem trazer grandes prejuízos à natureza. "Esses metais podem ser consumidos pelos peixes e chegar até o homem, pois, como não são digeridos, se acumulam na cadeia alimentar", explica. Potência - Não bastasse a vantagem econômica e ambiental, as baterias de íons de lítio são mais potentes do que as tradicionais. Isso acontece porque o princípio de armazenamento de energia dos dois tipos de bateria é diferente. Nesta última, o eletrólito liquido que permite a mobilidade dos íons, gerando energia-é um solvente aquoso. Isso faz com que cada célula da bateria gere apenas 2 volts de energia. As baterias de íons de lítio usam eletrólito não-aquoso. Por isso, suas células alcançam até 5 volts. "Em vez de usar três pilhas de níquel/cádmio, você pode usar apenas uma de íons de lítio", diz Maurício. As baterias de íons de lítio também duram mais. Podem ser recarregadas até 800 vezes, enquanto as tradicionais não agüentam mais que 500 vezes. No momento, Maurício está negociando com indústrias para fabricar baterias de lítio com o carbono obtido da cana, mas ainda não há previsão de comercialização. O desenvolvimento de materiais à base do novo carbono começou há quatro anos e conta com financiamento da Fundação de Amparo' à Pesquisa do Estado de Sã Paulo (Fapesp) e do CNPq.