Notícia

Blog Jornal da Mulher

Bactérias que provocam periodontite são transmitidas de pais para filho

Publicado em 18 março 2021

Pais com periodontite transmitem para os filhos as bactérias que podem causar a doença no futuro. E, mesmo com diferentes tratamentos nas crianças, esses microrganismos permanecem na cavidade bucal. Isso reforça a necessidade de prevenção desde o primeiro ano dos bebês para tentar evitar o desenvolvimento da doença. Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicado na Scientific Reports.

A periodontite é uma inflamação que atinge o tecido entre os dentes e a mandíbula (periodonto), infeccionando as gengivas que sangram e resultam em mau hálito. Em casos graves, leva à perda óssea e de dentes. Se as bactérias ou microrganismos que causam a doença chegarem à corrente sanguínea, também podem desencadear outros tipos de inflamação no organismo. O tratamento vai desde a limpeza do local feita por dentistas até o uso de anti-inflamatórios e antibióticos.

"O microbioma oral dos pais é um determinante da colonização microbiana subgengival de seus filhos (...). Além disso, essa microbiota disbiótica adquirida por crianças de pacientes com periodontite em uma idade precoce é resiliente a mudanças, e a estrutura da comunidade é mantida mesmo após o controle do estado de higiene", escrevem os pesquisadores na conclusão do estudo Parents with periodontitis impact the subgingival colonization of their offspring.

Segundo a cirurgiã-dentista Mabelle de Freitas Monteiro, primeira autora do artigo, a pesquisa é resultado de dez anos de trabalho do grupo, que vem acompanhando pais com a doença e o impacto na saúde dos filhos.

“Trazendo o estudo para o dia a dia dos consultórios, é possível dizer que ele ajuda a traçar abordagens mais diretas. Isso porque se o cirurgião-dentista entender que a doença periodontal pode afetar a família do paciente é possível trabalhar a prevenção, com chance de diagnosticar precocemente a doença e reduzir eventuais sequelas", afirma Monteiro, que recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (16/03704-7 e 16/19970-8).

Renato Corrêa Viana Casarin, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp), orientador da pesquisa que também assina o artigo, reforça que os pais devem se preocupar com a saúde gengival das crianças desde pequenas. "Com essa linha de pesquisa inédita comparamos pais sem e com periodontite. Encontramos colonização das bactérias muito precocemente nos filhos. Porém, ter a comunidade de bactérias 'herdada' não significa que a criança, quando adulta, está fadada a desenvolver a doença. Por isso, a importância de ficar atento aos mínimos sinais e procurar ajuda especializada", diz Casarin.

No Brasil, há poucos dados disponíveis sobre a saúde bucal da população. De acordo com o último levantamento nacional feito pelo Ministério da Saúde, em 2010, 18% dos jovens de 12 anos nunca tinham ido ao dentista no país. Em relação à condição periodontal, 11,7% do total nesta faixa etária já tinha registrado sangramento. Entre os 15 e 19 anos, 13,6% não haviam passado por uma consulta com dentista. O estudo epidemiológico seria atualizado no ano passado, mas por causa da pandemia de COVID-19 teve as atividades temporariamente suspensas.

Em São Paulo, a Secretaria Estadual da Saúde divulgou a última pesquisa bucal em 2019, apontando, entre outros resultados, que dor de dente, sangramento na gengiva e doença periodontal eram motivo de incômodo para 50,5% dos adultos entre 35 e 44 anos (leia mais em: agencia.fapesp.br/30015/).

Pesquisa de campo

Para realizar o estudo, os pesquisadores da FOP-Unicamp coletaram material de 18 pais com história de periodontite agressiva generalizada e de seus filhos, com idade entre 6 e 12 anos, além de outros 18 pais periodontalmente saudáveis.

Foram analisadas amostras de placas bacterianas e fluidos da gengiva desses pacientes. Pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio (Estados Unidos), orientados pela professora Purnima Kumar, fizeram a avaliação microbiológica e o sequenciamento genético dos diferentes tipos de bactérias encontradas.

“Filhos de pais com periodontite foram colonizados por bactérias como Filifactor alocis, Porphyromonas gingivalis, Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Streptococcus parasanguinis, Fusobacterium nucleatum e várias espécies pertencentes ao gênero Selenomonas. Esses patógenos também surgiram como discriminadores robustos das assinaturas microbianas de filhos de pais com periodontite”, descreve o grupo no artigo.

À Agência FAPESP, Casarin explica que, mesmo tendo feito controle de placa bacteriana e escovação intensa, os filhos de pais doentes continuaram tendo as bactérias na cavidade bucal. Já no grupo de crianças com pais saudáveis os efeitos da higiene bucal e da profilaxia foram mais significativos.

“O fato de os pais terem a doença periodontal faz com que os filhos assumam essa comunidade com característica de doença. Essa criança vai carregar a informação bacteriana para a fase adulta”, afirma Casarin.

O professor da FOP-Unicamp diz que, quando se analisa a colonização das bactérias, há uma relação de transmissão mais forte por parte da mãe. Agora, o grupo de pesquisadores vai trabalhar com mulheres grávidas para tentar “quebrar o ciclo”, ou seja, atuar com o objetivo de evitar que as bactérias colonizem a cavidade bucal das crianças.

“Vamos tratar as mães já durante a gravidez, antes de as crianças nascerem, para analisar se é possível impedir que a colonização das bactérias ocorra”, diz ele, lembrando que os estudos com pacientes só serão retomados quando houver condição em decorrência da pandemia.

Reconhecimento

A linha de pesquisa coordenada por Casarin para estudar a periodontite recebeu prêmios nacionais e internacionais. Em 2019, Monteiro conquistou o primeiro lugar na categoria pesquisa clínica do Prêmio Hatton na International Association for Dental Research (IADR).

O encontro promovido pela IADR é considerado o maior congresso de odontologia do mundo e a competição tem o objetivo de promover os melhores jovens pesquisadores na área (leia mais em: https://www.fop.unicamp.br/index.php/pt-br/doi-odontopediatria/2352.html).

Anos antes, o grupo já havia recebido o prêmio de melhor estudo de impacto clínico concedido pela Academia Americana de Periodontia.

O artigo Parents with periodontitis impact the subgingival colonization of their offspring está disponível em www.nature.com/articles/s41598-020-80372-4#Abs1.

Luciana Constantino

Agência FAPESP

https://agencia.fapesp.br/bacterias-que-provocam-periodontite-sao-transmitidas-de-pais-para-filhos/35427/