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Diário da Saúde

Bactérias intestinais dos insetos revelam estratégias para combatê-los

Publicado em 13 dezembro 2019

Desarranjando o intestino dos pernilongos

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) estão criando uma nova estratégia para bloquear a transmissão da malária pelo pernilongo vetor.

A técnica foca as bactérias intestinais do mosquito, que influenciam o desenvolvimento do parasita causador da doença no organismo do inseto, o que altera também as chances de transmissão da malária para os humanos.

Quando o Anopheles darlingi pica um humano que está com malária, ocorre uma interação entre o parasita e as bactérias intestinais do mosquito, o que é crucial para a continuação do ciclo de transmissão da doença.

E o conjunto de microrganismos no intestino do mosquito parece determinar sua vulnerabilidade à infecção pelo parasita Plasmodium vivax - espécie responsável pela maioria dos casos de malária no Brasil.

"Descobrimos que, no intestino do Anopheles, a carga parasitária tem influência na composição da microbiota e vice-versa. Após investigar a relação parasita-bactéria mais a fundo, integrando dados da composição da microbiota a análises genéticas referentes a imunidade do mosquito, pretendemos realizar estudos de silenciamento de genes. O objetivo é desenvolver mosquitos imunes ao Plasmodium vivax," explicou o professor Jayme Augusto Neto, da Unesp de Botucatu e coordenador do projeto.

Quando esses objetivos forem atingidos, o mosquito não se infectaria e, consequentemente, não transmitiria o parasita para os humanos.

A descoberta vai possibilitar o desenvolvimento de estratégias de modificação da população de insetos, por exemplo, liberar na natureza mosquitos transgênicos que sejam imunes ao parasita da malária, como já vem acontecendo com os pernilongos transmissores da dengue, zika e chikungunya.

Tigre asiático

Pesquisadores franceses também estão estudando outros pernilongos.

"Estudos recentes indicam que as bactérias presentes no intestino dos mosquitos transmissores contribuem para o potencial adaptativo desses insetos. É importante, portanto, estudar fatores genéticos, microbiológicos e ecológicos para entender o potencial invasivo, por exemplo, do mosquito-tigre-asiático [Aedes albopictus]," contou a professora Claire Valiente, da Universidade Claude Bernard Lyon 1, em palestra apresentada em evento promovido pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

O mosquito-tigre-asiático é um dos vetores da dengue e hoje está presente em todos os continentes, com exceção da Antártica. Originário da Ásia, o inseto tem apresentado um potencial adaptativo alto, sendo encontrado tanto em áreas de clima tropical quanto de clima temperado. Recentemente, o governo francês emitiu alertas sobre a presença do mosquito no país.

Um estudo recente, liderado por Claire Valiente, comparou a microbiota de mosquitos-tigre-asiático capturados em uma floresta no Vietnã com a de insetos da mesma espécie capturados na França. Os pesquisadores observaram que os intestinos desses insetos eram habitados predominantemente por bactérias Dysgonomonas sp e que havia maior variedade de cepas nos mosquitos vietnamitas.

Análises genéticas mostraram uma correlação entre a diversidade bacteriana no intestino e a diversidade genética das populações de mosquito. "É possível que fatores ambientais e atividades humanas influenciem a diversidade da microbiota intestinal do mosquito e este é um fator que não deve ser negligenciado quando se estuda arboviroses," disse a pesquisadora.

Combate ao percevejo

Pesquisadores franceses também estão estudando a relação de simbiose que existe entre os insetos da espécie Cimex lectularius, conhecido como percevejo de cama, e as bactérias do gênero Wolbachia.

"Esse percevejo é um parasita humano e se alimenta apenas de sangue - uma dieta não balanceada. Descobrimos que a bactéria intracelular é sua fonte de vitamina B e tem, portanto, um papel essencial para a sobrevivência do inseto," disse Natacha Kremer, também pesquisadora da Universidade Claude Bernard Lyon 1.

Segundo ela, o uso constante de inseticidas fez com que os percevejos adquirissem resistência a partir dos anos 1990. "Em 2017, foram registradas 180 mil infestações e, em 2019, foram 360 mil. Precisamos urgentemente de métodos de controle, por isso a necessidade de estudar esse tipo de relação de mutualismo," disse.

Com informações das agências Brasil e Fapesp