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Correio do Estado (Campo Grande, MS) online

Bactérias do intestino podem ter relação com câncer colorretal

Publicado em 02 abril 2019

Um novo estudo realizado por pesquisadores do A.C.Camargo Cancer Center, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade de Trento, na Itália, apontou relação entre o câncer colorretal e alterações na microbiota intestinal. Por meio da análise de sete estudos sobre o tema utilizando softwares, os especialistas chegaram a 16 bactérias que podem indicar a presença da doença nos pacientes. O achado, publicado nesta segunda-feira, 1º, no periódico científico Nature Medicine, poderá ser uma ferramenta no futuro para diagnósticos mais precisos e como base para estabelecer medidas preventivas.

Para a pesquisa, foram analisadas amostras extraídas de fezes de 969 pacientes divididos em grupos com e sem a doença. As amostras eram de pacientes dos Estados Unidos, Canadá, Japão, China, França, Alemanha e Itália.

"Cada vez mais, a microbiota vai se tornar um elemento forte para o tratamento e a prevenção de várias doenças. Também para descobrir as causas delas. Tem alguns estudos anteriores que mostraram que a microbiota é um preditor para o câncer colorretal. Usamos dados públicos e privados que geramos na Itália. Usamos softwares que têm métodos estatísticos que aprendem com os dados que damos para eles. Demos os perfis da microbiota e eles indicavam se era câncer ou não", explica Andrew Thomas, biólogo e pesquisador na área de microbioma humano e bioinformática, que é o principal autor do estudo.

Segundo Thomas, no início, todas as bactérias que fazem parte do microbioma intestinal eram avaliadas e os pesquisadores iniciaram um processo de redução das espécies utilizadas no estudo até chegar a um grupo de 16 que indicavam a presença da doença.

"Pode ser que alguns pacientes tenham as 16 ou um subconjunto das 16, variações delas, mas, quando se vê um perfil com elas, é uma fonte preditora para o câncer colorretal. Os controles (pacientes saudáveis) podem ter, mas é mais provável que não."

O especialista diz que o câncer colorretal é de crescimento lento e, quando diagnosticado precocemente, tem alto potencial de cura. Ele explica que os resultados não devem fazer com que exames invasivos, como a colonoscopia sejam substituídos pela técnica, mas que ela pode se tornar mais um meio de tornar o diagnóstico mais preciso. "Percebemos que, quando combinávamos o uso da microbiota com o exame de sangue oculto nas fezes, tínhamos maior precisão e sensibilidade."

No Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados 36.360 casos da doença por ano (2018). Pessoas com mais de 50 anos, pacientes acima do peso, quem tem histórico familiar e pessoas que consomem embutidos e carne vermelha em excesso têm mais risco de desenvolver a doença. Sangue nas fezes, fraqueza, perda de peso e alterações do hábito intestinal estão entre os sintomas.

Thomas afirma que a pesquisa também pode oferecer caminhos para a prevenção da doença. "Identificamos que a presença de uma enzima degradadora de colina, um nutriente que está presente na gordura e na carne vermelha, estava mais abundante nos pacientes com câncer colorretal. Isso cria um link de como deve ser a alimentação de quem quer evitar a doença." A degradação desse nutriente já era associada a doenças cardiovasculares.

O estudo é parte do doutorado de Thomas em bioinformática pela USP e pela Universidade de Trento com bolsa da Fundação de Apoio Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).