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Bactérias do intestino do Aedes podem ser armas contra dengue e outras doenças

Publicado em 02 julho 2017

Assim como os humanos, os mosquitos abrigam em seus intestinos uma enorme variedade de bactérias. Estudos recentes sugerem que modular o perfil desse microbioma pode ser uma estratégia para tornar os insetos mais resistentes à infecção por patógenos. Trata-se, portanto, de uma forma alternativa de controlar a disseminação de doenças como dengue, zika, febre amarela, chicungunha e malária, entre outras.

O tema foi abordado por George Dimopoulos, professor da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health (Estados Unidos), durante a Escola São Paulo de Ciência Avançada em Arbovirologia. Apoiado pela FAPESP, o evento foi realizado entre os dias 29 de maio e 9 de junho em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.

“Até agora, as doenças transmitidas por vetores, especialmente a dengue, têm sido combatidas basicamente com a aplicação de inseticidas e modificações ambientais, como eliminação de criadouros do mosquito transmissor. Embora esses métodos tenham alcançado algum sucesso, há uma dificuldade logística de mantê-los no longo prazo e, por isso, os retrocessos são frequentes. Existe a necessidade de desenvolver novas estratégias de controle”, disse Dimopoulos à Agência FAPESP.

Em seu laboratório, o pesquisador usou uma espécie de néctar artificial para alimentar mosquitos das espécies Aedes aegypti (transmissor dos vírus da dengue, Zika, febre amarela e chikungunya) e Anopheles gambiae (transmissor do parasita da malária) e, assim, colonizar seus intestinos com bactérias do gênero Chromobacterium.

O experimento mostrou que o microrganismo reduziu drasticamente a sobrevivência tanto de larvas quanto de mosquitos adultos. Além disso, os espécimes sobreviventes tornaram-se menos suscetíveis à infecção pelo vírus da dengue, no caso do Aedes, e pelo Plasmodium falciparum, no caso do Anopheles.

“A ideia seria desenvolver um biopesticida, feito com essas bactérias naturalmente encontradas no solo e inofensivas à saúde humana. Poderíamos borrifar no ambiente, como um inseticida, ou explorar a preferência dos insetos por açúcar e criar um néctar artificial para ser colocado em dispositivos que atraem mosquitos. Também seria possível usar essa mesma bactéria para criar pastilhas, que podem ser colocadas nos criadouros e atingir as larvas”, explicou Dimopoulos.

Como comentou o cientista em sua apresentação, também estão sendo testadas no controle da dengue – em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil – outras abordagens que exploram bactérias do gênero Wolbachia. “Estudos mostraram que determinadas cepas desse microrganismo, quando presentes no microbioma do Aedes, tornam o inseto resistente à infecção tanto pelo vírus da dengue quanto pelo zika. E como essa bactéria é transmitida à prole pela mãe, pode ser propagada em toda uma população de mosquitos automaticamente”, contou o pesquisador.

De acordo com Dimopoulos, em teoria, bastaria liberar um pequeno número de mosquitos infectados com a cepa-chave de Wolbachia. Eles cruzariam com mosquitos encontrados na natureza e transmitiriam os microrganismos à prole, que também transmitiria à geração seguinte e, gradualmente, uma grande proporção de insetos se tornaria resistente aos patógenos.

“Uma coisa é certa: precisamos de uma variedade de estratégias para controlar doenças transmitidas por vetores. Medicamentos, vacinas, controle do mosquito e também alguma dessas novas estratégias de bloquear a infecção nos insetos. É como lutar em uma guerra. Não se ganha uma guerra com uma única arma”, comentou Dimopoulos.

Da Agência Fapesp de notícias

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