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Bactérias da folha da laranja são capazes de degredar pesticidas

Publicado em 07 outubro 2020

O uso indiscriminado de agrotóxicos gera uma série de impactos ao meio ambiente. Dependendo da forma como são aplicados e da dose empregada nas plantações , os produtos podem gerar uma acumulação no solo, nos rios ou nas próprias hortaliças, afetando insetos que vivem no local, como as abelhas, além de poluir os recursos hídricos . Os riscos também atingem as pessoas, que possam tanto se intoxicar pela exposição aos agroquímicos quanto se intoxicar pelo consumo de alimentos contaminados.

O desenvolvimento econômico brasileiro está voltado principalmente para as atividades agrícolas, cenário que contribui para o Brasil ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pelo Censo Agropecuário de 2017, entre 2006 e 2017 o Brasil registrou um aumento de 20% no número de propriedades rurais que utilizam os produtos químicos.

Encontrar alternativas para solucionar esse problema e eliminar esses compostos depositados na natureza foi o que motivou pesquisadores do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo a estudarem bactérias do gênero Bacillus que foram extraídas da superfície das folhas da laranja. Depois dos testes, eles descobriram que esses determinados microrganismos produzem enzimas que são capazes de biodegradar dois pesticidas muito utilizados na agricultura brasileira: a Bifentrina e o Fipronil.

Banidos na União Europeia, tanto a Bifentrina como o Fipronil são empregados no Brasil como inseticida e formicida em diversos tipos de plantações, como por exemplo, plantações de tomate, batata, milho, arroz, soja, entre outras. Além de sua aplicação no campo, o Fipronil também é utilizado para matar pulgas e carrapatos em cães, podendo até gerar riscos aos próprios animais caso seja administrado de maneira incorreta. Em abelhas, os dois produtos são capazes de atingir o sistema nervoso e levá-las à morte, acarretando problemas não só para nós, que perderíamos uma população de insetos responsável pela polinização de flores que produzem diversos tipos de alimentos, mas também para a economia.

A hipótese dos cientistas para estudar essas bactérias é que eles acreditavam que elas conseguissem degradar os agrotóxicos, visto que tais microrganismos habitam o mesmo ambiente onde os produtos químicos são aplicados e ainda conseguem se manter vivas.

Para comprovar tal teoria, os cientistas realizaram inúmeros testes no Laboratório de Química Orgânica e Biocatálise do Instituto de Química de São Carlos - USP. Um desses experimentos, diversas espécies de Bacillus extraídas de folhas de laranja de uma plantação em Tabatinga, interior de São Paulo, foram colocadas em frascos que continham pequenas amostras dos agroquímicos. Após cinco dias, alguns resultados chamaram a atenção: a bactéria Bacillus amyloliquefaciens conseguiu biodegradar 93% do Fipronil, enquanto a bactéria Bacillus pseudomycoides eliminou 88% da Bifentrina.

Bactéria Bacillus

A pesquisadora Juliana G. Viana, autora desse trabalho, o qual foi financiado pela FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, também testou como seria o desempenho de grupos de bactérias do gênero Bacillus atuando juntas contra os agrotóxicos. O resultado mostrou que oito linhagens dos microrganismos de diferentes espécies foram colocadas para reagir com os produtos químicos e alcançaram uma degradação de 81% do Fipronil e de 51% da Bifentrina.

“Elas promoveram reações de biodegradação dos pesticidas, mostrando potencial para eliminar tais agentes tóxicos lançados no meio ambiente.” afirma Juliana G. Viana. E segundo o professor André Luiz M. Porto, o qual orientou o trabalho, quando as bactérias estão em conjunto, pode haver competição por espaço e nutrientes, o que pode fazer com que aconteça um “desvio de foco” do combate aos pesticidas. Isso de certa forma justificaria a taxa de biodegradação ser um pouco inferior ou mais lenta nos testes com bactérias trabalhando em equipe.

André Luiz M. Porto e Juliana G. Viana

FOTO: Henrique Fontes

Segundo eles, as bactérias estudadas no instituto têm um enorme potencial para serem utilizadas por agricultores na eliminação dos resquícios de agrotóxicos que sobram nas plantações, e também para evitar a contaminação de outros seres vivos e dos recursos naturais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

https://jornal.usp.br/ciencias/bacterias-da-folha-da-laranja-podem-reduzir-impacto-de-agrotoxicos-na-natureza/

http://www5.iqsc.usp.br/2020/bacterias-da-folha-da-laranja-podem-reduzir-impacto-de-agrotoxicos-na-natureza/

https://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2020/09/06/bacterias-da-laranja-podem-reduzir-impacto-de-agrotoxicos-segundo-estudo-da-usp-sao-carlos.ghtml

 

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