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Bactéria companheira pré-histórica

Publicado em 08 fevereiro 2007

Artigo publicado na Nature afirma que a Helicobacter pylori, bactéria responsável por boa parte das gastrites e úlceras, está presente no estômago de humanos há mais de 60 mil anos

A Helicobacter pylori, bactéria responsável por boa parte das gastrites e úlceras que atingem os humanos, é uma velha companheira. Apesar de sua existência ter sido descoberta apenas na década de 1980, ela tem acompanhado o homem há muito tempo — e põe muito nisso.
Um grupo de cientistas de diversos países acaba de descobrir que a H. pylori está presente no sistema digestivo do homem desde que esse migrou do leste da África, há mais de 60 mil anos.
O estudo chama a atenção não apenas por aumentar a compreensão a respeito de um patógeno, mas também por oferecer uma nova maneira de estudar a migração e a diversificação do homem moderno em seus primórdios.
A pesquisa, cujos resultados foram publicados nesta quarta-feira (7/2) pela revista Nature, foi conduzida por cientistas da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e do Instituto Max Planck e da Escola Médica de Hannover, na Alemanha.
Os pesquisadores compararam seqüências de DNA de humanos e da bactéria e verificaram que as diferenças genéticas entre populações humanas surgidas a partir da dispersão pelo continente africano durante milhares de anos têm semelhanças com as alterações no microrganismo.
Os cientistas combinaram análises genéticas com simulações em computador para indicar como a bactéria pode ter se espalhado pelo mundo. Os resultados apontam que a H. pylori deixou o leste africano na mesma época que os humanos, há cerca de 60 mil anos.
"O estudo mostra que por milhares de anos nossos ancestrais têm sofrido com os efeitos dessa bactéria", disse o líder do trabalho, Francois Balloux, da Universidade de Cambridge.
Outro destaque é a abertura de novos caminhos para entender melhor como o homem se espalhou pelo planeta.
Os pesquisadores descobriram que a caracterização genética da H. pylori é mais diversa do que a do homem e esperam que a análise do DNA da bactéria possa contribuir para trabalhos futuros em diversidade geográfica humana.
"Ao mostrar que a Helicobacter pylori emergiu da África ao mesmo tempo que os primeiros humanos, torna-se mais fácil examinar algumas das questões controversas sobre a migração humana. Por exemplo, podemos usar o que aprendemos sobre a migração da bactéria para entender melhor as pouco compreendidas mudanças populacionais na Europa, África e Ásia", disse Balloux.

Descoberta recente
"Mais da metade dos seres humanos está infectada pela Helicobacter pylori, bactéria gram-negativa (com um compartimento e limitada por uma membrana) que causa úlceras e constitui um fator de risco para o câncer", escreveram os autores no artigo publicado na Nature.
Em países em desenvolvimento a prevalência é ainda maior.
A H. pylori foi descoberta em 1982 pelos australianos Barry J. Marshall e J. Robin Warren. Até então, o estresse e o estilo de vida eram considerados as principais causas de úlcera. Hoje, estima-se que 90% das úlceras duodenais e 80% das gástricas são causadas pela bactéria.
A relação entre a infecção promovida pelo microrganismo e as subseqüentes gastrite e úlcera foi estabelecida por meio de diversos estudos após a descoberta de Warren e Marshall.
A infecção ocorre em geral na infância, na maior parte de mãe para filho, e a bactéria pode permanecer no estômago do hospedeiro por toda a vida.
A descoberta da H. pylori e de seu papel nas doenças estomacais deu aos pesquisadores australianos o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2005.
O artigo An African origin for the intimate association between humans and Helicobacter pylori, de Bodo Linz, François Balloux e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em http://www.nature.com.

(Agência Fapesp, 8/2)