Notícia

Correio Popular online

Bacia do Anhumas agoniza com expansão urbana

Publicado em 13 março 2005

Desbarrancamentos, alagamentos, inundações, mortes. O Ribeirão Anhumas vem colecionando grande quantidade de prejuízos e desesperos ao longo dos anos: são pessoas levadas pela enxurrada, carros arrastados pelas águas, casas alagadas e em constante risco de desmoronamento, sem contar a convivência diária com águas fétidas de esgoto. Os culpados são vários: o Poder Público, que não planeja e não fiscaliza, a população que faz o que bem entende numa bacia hidrográfica onde os descasos ambientais se acumulam há décadas.
Os problemas não são exclusivos do ribeirão, diz o pesquisador Ederson Costa Briguenti que, no final de janeiro, defendeu seu mestrado em Geografia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), utilizando geoindicadores na avaliação da qualidade ambiental da Bacia do Ribeirão Anhumas. Toda a bacia, que ocupa uma área de 150 quilômetros quadrados, dos quais 48% já estão urbanizados e onde vivem 283,3 mil pessoas, tem impactos. Todos provocados pelo homem, desde o início da bacia, no Bosque São José, até a foz, no Rio Atibaia.
O principal deles é a alta taxa de impermeabilização do solo que acontece nas partes mais altas da Bacia do Anhumas. Em pelo menos 80% do solo no chamado alto curso da bacia, a água não consegue infiltrar. Nos dias de chuva, essa impermeabilização faz com que a enxurrada desça para os córregos com grande volume de água e em grande velocidade. Ou seja, inundação na certa.
Isso quer dizer basicamente o seguinte, explica o pesquisador Archimedes Perez Filho, que orientou a tese de Briguenti: as calçadas, o asfalto, os prédios, os quintais calçados do Centro de Campinas e de bairros como Proença, Cambuí, Guanabara, Botafogo e outros localizados no alto curso da bacia provocam um escoamento de águas superficiais elevado. É uma área com maior declive e a água desce mais rápido. Por isso, o Córrego Proença transborda na Avenida Princesa d'Oeste e o Córrego do Serafim inunda a Avenida Orosimbo Maia.
A grande quantidade de água levada por esses dois córregos (eles se unem e formam o Ribeirão Anhumas na altura da Chácara da Barra) levam problemas ainda mais impactantes para o médio curso da bacia, onde existem uma série de ocupações, como as favelas da Rua Moscou, Cafezinho, Pixão, Escorpião e outras que seguem o Ribeirão Anhumas desde a Rua Luiza de Gusmão até a rodovia D. Pedro I. É nessa área que está também o Parque Imperador, onde três pessoas morreram afogadas em fevereiro de 2003 por causa do transbordamento do Córrego São Quirino.
O grande problema nesse trecho da bacia é a degradação ambiental. O Ribeirão Anhumas serve de depósito de lixo dos moradores que constróem seus barracos nas margens e o resultado é que a grande de quantidade de água vinda das regiões centrais que passa com maior velocidade naquele trecho vai escavando as margens, provocando desmoronamentos. A grande quantidade de entulhos e lixos na calha do ribeirão ajuda a elevar o nível da água e vem a inundação. "O grande problema é o solapamento das margens", diz Perez Filho.
Mais à frente, na área do baixo curso da bacia, o relevo é mais plano e está ali a maior parte das planícies de inundações, informa Briguenti. Os problemas acontecem porque foram construídas casas em áreas que deveriam ser preservadas para as inundações naturais dos riachos e córregos. É por isso que hoje existem inundações no Vale das Garças, no bairro Guará em Barão Geraldo. A omissão da fiscalização da Prefeitura resultou nos transtornos hoje existentes para os moradores.

Trecho de Barão é o de melhor qualidade
O distrito de Barão Geraldo é a melhor área da Bacia do Anhumas em qualidade ambiental, conforme os critérios adotados pelo pesquisador Ederson Costa Briguenti, que definiu indicadores para dez categorias de classes ambientais existentes na bacia. Ele procurou estabelecer a influência que a pressão de diferentes padrões de ocupação urbana exerce sobre as atuais condições ambientais.
Utilizando informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de dados sobre solo, relevo e os impactos, ele estabeleceu indicadores, ou melhor, geoindicadores para cada área da Bacia do Anhumas que permitem avaliar a qualidade ambiental da bacia.
O indicador classifica de 0 a 1 essas áreas. Quanto mais próximo de 1, melhor a qualidade. O índice leva em conta três tipos de indicadores. Um, que ele chama de indicador de estado, é formado por informações sobre declividade, formas de relevo, solos, densidade de rios. Outro, chamado de indicador de pressão, mescla densidade demográfica, densidade de arruamentos, densidade de domicílios, não-alfabetizados com mais de 5 anos, responsáveis com até dois salários mínimos, destino do lixo em terrenos e rios. E, por último, o que ele chama de indicador de resposta, que é formado pelo percentual de território protegido e existência de parques urbanos.
Em toda a bacia, nenhuma teve classificação 1. A melhor classificação foi de 0,77, dada à área onde está Barão Geraldo. A segunda, que obteve 0,75, é a área onde está a Unicamp e a Telebrás, onde existem novos loteamentos.
A área de pior qualidade ambiental, com 0,39, é o conjunto de ocupações existentes ao longo do Ribeirão Anhumas, como a favela da Rua Moscou, o Genesis, entre outras. A segunda pior, com indicador de 0,40, é a área onde estão o Jardim São Fernando, o Parque Brasília e a Vila Brandina.
A pesquisa, informa o professor Archimedes Perez Filho, é a primeira dissertação de mestrado que sai do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e que envolve a Unicamp, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Prefeitura.
Os resultados obtidos serão encaminhados para a Prefeitura, para que o gestor público possa utilizá-lo como instrumento para o desenvolvimento de políticas públicas capazes de minimizar os problemas existentes hoje na Bacia do Anhumas.

Danos ambientais ainda podem ser controlados
A grave situação existente hoje na Bacia do Anhumas não é culpa da chuva, mas da má ocupação da terra. E, se nas áreas centrais a situação é irreversível, ainda muito se pode fazer para reduzir os danos ambientais nos médio e baixo curso da bacia, afirma o pesquisador Ederson Briguenti.
O "piscinão", diz o professor Archimedes Perez Filho, talvez seja a solução para reter volumes de água que e guem para a Rua Moscou, solapando os barrancos onde estão assentados grandes quantidades de barracos. O que existe na foz dos córregos Proença e Serafim (e onde se forma o Ribeirão Anhumas) é uma alternativa, mas precisa que a saída da água seja dimensionada para que haja vazão sem prejuízos. Hoje, há ali um afunilamento que, se romper, diz Perez Filho, resultará em uma catástrofe.
"Um piscinão pensado corretamente consegue evitar problemas sérios nos dias de muita chuva", afirma. Mas não é apenas isso a ser feito. Educação ambiental vale, e vale muito. O Anhumas tem sérios problemas de assoreamento por causa de lixo jogado na calha do córrego. A limpeza é essencial para minimizar problemas.
É também preciso retirar as populações que estão vivendo nas margens do córrego, correndo risco de verem os barracos deslizarem com o solapamento das margens. Depois de retiradas, as áreas remanescentes devem abrigar projetos como parques lineares, com recomposição da vegetação ciliar para garantir a permeabilização e, ao mesmo tempo, oferecer área de lazer à população. "Se desocupar e nada for feito, a área volta a ser invadida, como já aconteceu no passado", reflete.
Se, nas áreas centrais, o alto grau de impermeabilização provoca fortes enxurradas e aguaceiros, os impactos são ainda mais agravados com a canalização de córregos e a ausência de vegetação ciliar, diz Briguenti.

O raio X da bacia
Área - 150,2 km2
Número de nascentes - 257
Densidade hidrográfica - 1,7 nascente por km2
Arruamento - 15,33 km2
Área ocupada por ruas - 10,2%
População - 283.325
Densidade demográfica - 188 habitantes por km2
Domicílios - 95.743
Densidade de domicílios - 63 por km2
Lixo - 237 domicílios jogam lixo em terrenos baldios, ruas ou rio
Renda da população - 10.2% ganham menos de 2 salários mínimos
Escolaridade da população - 4,61% são analfabetos