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Aviso aos navegantes: São Paulo pode parar

Publicado em 23 janeiro 2011

Por Valdir Sanches

As projeções para a cidade de São Paulo são assustadoras. Esta afirmação vem de quem entende do assunto. Marta Arretche é diretora do Centro de Estudos da Metrópole do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e professora de Ciências Sociais da USP.

Ela diz mais: se o número de carros continuar a crescer como hoje - três novos carros para cada novo habitante -, e as ruas e avenidas continuarem as mesmas, "o tráfego da cidade tende a paralisar no médio prazo". Estudo recente diz que o nosso é o sexto pior trânsito do mundo.

DC - Quais são as soluções para a Cidade?

Marta Arretche -  Não vejo ações que possam produzir esperanças críveis de que esses problemas sejam solucionados no médio prazo. A solução que as pessoas estão encontrando é sair da cidade.

DC - De tudo, o que é mais grave?

Marta - Os dois problemas urbanos mais graves são o custo dos deslocamentos - que não são devidamente encarados como um problema social de grandes proporções (há os custos econômicos, mas também os humanos, de até cinco horas diárias em veículos lotados) - e o problema o ambiental, derivado da ocupação desordenada, do desmatamento, da emissão de carbono. É um problema coletivo que se distribui desigualmente. Mas é certamente um problema de grandes proporções.

DC - O que pode acontecer quando a Cidade parar, ou o que fazer para não parar?

Marta -Só é possível fazer projeções com base no que conhecemos hoje. Se forem mantidas todas as condições presentes, a qualidade da vida na Cidade tende a se tornar crescentemente inviável. Para que São Paulo não pare, seria necessário alterar algum ou alguns dos fatores desta máquina que gera congestionamentos intermináveis, degradação da vida urbana, taxas elevadas de emissão de carbono. Isto, entretanto, supõe adotar alguma solução que seja politicamente sustentável e respeite as características do território.

DC - Por exemplo...

Marta - O modelo londrino, que supõe a restrição do acesso ao centro, por pagamento de pedágio, poderia melhorar os congestionamentos. Contudo, não resolveria o problema na escala metropolitana.

DC - O pedágio seria para segurar a entrada de carros, ou também para financiar projetos?

Marta -Tem de ser acompanhado da expansão do acesso ao transporte público. Caso contrário, os deslocamentos se tornam inviáveis. Esta solução, entretanto, supõe respeito às características do território. As cidades que construíram o metrô antes de se tornarem grandes centros conseguiram fazer uma rede capilarizada. Este é o caso de Moscou e Paris. Entretanto, nas cidades que já estão densamente ocupadas, os custos de construção de um metrô são proibitivos.

DC - Não há outra solução, mudar o modelo do carro para algo simples e individual?

Marta - O ponto central é que a necessidade de reformas urbanas abrangentes, que melhorem as condições de vida na cidade, lamentavelmente não é condição suficiente para que essa reforma aconteça. Há soluções técnicas para o problema urbano no mundo: metrô, fechamento do centro urbano, expansão do transporte coletivo, criação de corredores de ônibus, ciclovias, etc. Qualquer solução, contudo, tem custos econômicos e políticos. O pedágio urbano no centro de Londres sempre foi criticado. Em 2007, após consulta popular, o prefeito Boris Johnson reduziu o perímetro da área sujeita ao pagamento de pedágio.

DC - Houve muita pressão?

Marta - Sim. Pressões contra cada medida que mexa no território são inevitáveis, pois alteram padrões estabelecidos de sua ocupação e uso. Quando (o urbanista e então prefeito) Jaime Lerner implantou os corredores urbanos para ônibus, em Curitiba, também enfrentou grande resistência.

DC - E quanto ao metrô?

Marta -A construção de uma linha de metrô tem custos econômicos e políticos envolvidos nas desapropriações e no rearranjo de áreas ocupadas. Portanto, qualquer solução requer uma liderança forte. Esta liderança deveria ter capacidade de sustentação política.

DC - Incluindo a população?

Marta - A população e uma coalizão de grupos com capacidade para garantir mudanças.

DC - Não existe no horizonte uma tecnologia que mude o conceito?

Marta - Soluções desse tipo têm duas dimensões. Uma é a técnica, que estabeleça metas a serem atingidas, tais como reduzir a emissão de carbono e de carros circulando em tais e tais quantidades. Entretanto, qualquer solução técnica se aplica a um território. Portanto, essas soluções têm que ser adaptadas a esse território. No final dos anos 90, havia a meta técnica de se construir 140 piscinões na região metropolitana contra os alagamentos. Mas não existe área disponível neste território para este número de piscinões.

Tecnologia e sociedade

O resultado das pesquisas tecnologias em andamento poderão ajudar a Cidade nas próximas décadas? O professor João Furtado é coordenador justamente da área de Pesquisa para a Inovação da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ele diz:

"Sem mudanças substanciais na organização da sociedade, do trabalho, da vida social, é impossível criar soluções que dependam apenas e exclusivamente da tecnologia. A tecnologia é um pedaço da solução, mas ela não é a solução."

A criação de solução, afirma, não pode nascer na universidade e nos institutos de pesquisa de modo isolado da sociedade. "Os conhecimentos que a universidade vai produzindo podem tornar-se soluções mais consistentes e eficazes quando elas estão ligadas às demandas sociais, à dinâmica da cidade, das famílias, dos indivíduos."

Furtado diz que "os dispositivos, os artefatos, as soluções materiais" podem ajudar muito a melhorar a qualidade de vida na cidade. "O trânsito pode melhorar com soluções mais inteligentes, que organizem melhor os fluxos de veículos e pessoas."

Mas pondera que diante das tragédias produzidas pelas enchentes, hoje, "precisamos reconhecer que a tecnologia não pode ignorar os limites naturais e não pode violentar certos princípios básicos".

"A natureza pode ser compreendida, a tecnologia pode ajudar a cidade a utilizar de modo adequado e sustentável os recursos da natureza, mas nós não podemos imaginar que tendo mais, muito mais tecnologia, ela pode dar-nos o meio para ignorar a natureza (física) e a organização social."