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Correio Popular

Avião testa querosene de cana

Publicado em 04 novembro 2011

Por Maria Teresa Costa

DA AGÊNCIA ANHANGUEHA

O primeiro querosene para aviões produzido de cana-de-açúcar será testado em uma aeronave Embraer da Azul Linhas Aéreas no início de 2012. Desenvolvimento pela Amyris, centro de pesquisa instalado no Techno Park, em Campinas, o combustível renovável é parte de uma linha de pesquisa em busca de bio-combustíveis que podem diminuir as emissões de gás de efeito estufa e fornecer uma alternativa sustentável aos combustíveis de petróleo para aviões. A empresa planeja comercializar o querosene de cana para aviões em 2014.

Os testes iniciais, segundo a empresa, mostram que o biocombustível tem bom desempenho em baixas temperaturas. A empresa informou que começou a testar o querosene de cana para aviões em motores maiores e com fabricantes de aeronaves e outras indústrias participantes do setor como o Air Force Research Labo-ratoryE.U., Southwest Research Institute, e a GE Aviation. No Brasil, um projeto com a Embraer, General Electric e Azul está avaliando os aspectos técnicos e de sustentabilidade.

No voo teste, uma das turbinas GE, por questões de segurança, levará o querosene tradicional e a outra, o de cana-de-açúcar. No voo experimental será avaliado como o combustível reage em testes fora de bancada As fabricantes de aviões Boeing e Embraer e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)-estão financiar»;--do uma análise de sustentabilidade para a produção do biocombustível para jatos desenvolvido pela Amyris. O estudo está fazendo uma análise do ciclo de vida das emissões associadas com o combustível de fonte renovável, incluindo mudança do uso indireto da terra e seus efeitos. Programado para ser concluído no início de 2012, o estudo está sendo coordenado pelo ícone, uma incubadora brasileira de pesquisas que atua na agricultura e análise de biocombustí-veis. No projeto, o World Wü-dlife Fund (WWF) atua como consultor independente. Ele avaliará o potencial da produção em larga escala de combustíveis alternativos para jatos a partir da cana.

A Amyris já desenvolveu um diesel de cana, o primeiro renovável, não poluente, obtido da cana-de-açúcar. Os testes de bancada com motores Mercedes foram concluídos e mostraram que a utilização de 10% do diesel de cana no tanque misturado ao biodiesel tradicional reduziu em 9% a emissão de material particulado, não aumentou a emissão de óxido de nitrogênio, não afetou o desempenho do motor e nem o consumo de combustível. A Mercedes está testando o novo diesel no transporte coletivo de São Paulo.

Com 100% de diesel de cana, o desempenho é muito superior. Os testes-mostram redução de 6,3% de oxido de nitrogênio, 12,5% de material particulado, 3,2% de dióxido de carbono, 11,8% de hidrocarbonetos, 34,5% de monóxido de carbono. É o combustível ideal, segundo a empresa, para ser utilizado nos motores que, a partir de 2012, deverão atender à norma denominada P7 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que fixa os limites de emissões que deverão ser respeitados no Brasil.

O diesel pertence à segunda geração de combustíveis renováveis a partir da cana-de-açúcar (o primeiro foi o etanol). Ele é biologicamente formulado por meio da fermentação da cana para criar hidrocarbonetos, a mesma estrutura molecular encontrada em combustíveis tradicionais de petróleo. O processo de produção do novo diesel em uma usina é semelhante à da produção de açúcar e álcooL A diferença é que, no momento da fermentação, a levedura Sacaromice cerevisiae (tradicional fermento biológico) que passou por um processo de reengenharia, separa o óleo existente no processo do caldo da cana O óleo passa então pela finalização química obtendo, assim, hidrocarbonos.

A Amyris investiu cerca de US$ 100 milhões no desenvolvimento de uma plataforma de tecnologia que permitiu a reengenharia de microorganismos em "fábricas vivas" para a produção sem danos ao meio ambiente de inúmeros produtos utilizando matérias-primas renováveis, como cana-de-açúcar e celulose. Essa tecnologia surgiu de um projeto para desenvolver uma fonte secundária de Artemísia um ingrediente chave para um remédio contra a malária Nesse caso, a Amyris fez a engenharia de micróbios que podem produzir sinteticamente Artemisia para suprimir limitações atuais no fornecimento desse ingrediente.

Unicamp pode ter centro de pesquisa de biocombustíveis

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é uma candidata, entre universidades paulistas, a sediar um centro de pesquisas em biocombustíveis para aviões. A definição da localização desse centro será feita com base em estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e as fabricantes de aviões Boeing e Embraer. O. estudo fará um mapeamento das pesquisas relacionadas coma produção e distribuição do combustível renovável e vai pautar o edital que selecionará a sede do centro. O diretor-científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, disse ontem que o maior desafio do centro de pesquisa será encontrar um biocombustível que preencha os requisitos físicos, energéticos, econômicos e de mercado (fornecimento). "Tara aviões grandes, esses requisitos são muito restritivos. O que se busca é um combustível que seja o que os americanos chamam de "drop-in", isso é, que possa substituir o querosene de aviação sem se mudar nada no resto da turbina e dos controles", afirmou. Vai pesar na escolha, a qualidade científica e técnica do plano de pesquisa apresentado. Brito Cruz informou que os detalhes ainda serão definidos, mas deve ser um plano de longo prazo — até 11 anos — com conteúdo de ciência fundamental conectado ao de ciência aplicada e tecnologia. "Espera-se que haja uma equipe básica com excelente experiência nos vários aspectos do tema. Além disso as instituições sede deverão garantir perfeita , infraestrutura, apoio administrativo e de gestão e conexão do centro com ensino de graduação e pós-graduação", disse. A primeira parte do projeto, que vai durar de 9 a 12 meses, será liderada por Lufe Augusto Barbosa Cortez, coordenador adjunto de Programas Especiais da Fapesp e professor da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, que terá como pesquisador associado Francisco Nigro, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (1PT). (MTC/AAN)