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Aves revelam conexão entre Amazônia e a Mata Atlântica

Publicado em 19 agosto 2013

Um estudo sobre o parentesco entre dezenas de espécies de aves da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica revelou que, em dois períodos do passado, esses dois ecossistemas, hoje separados por distâncias de até 1.500 quilômetros, estiveram conectados. Até então, não se sabia quando e quais trechos as florestas estiveram em contato. Os resultados foram publicados na revista científica Journal of Ornithology.

Segundo o biólogo Henrique Batalha-Filho, autor da pesquisa, as duas florestas brasileiras abrigam pequenas aves com graus de parentesco variados, o que é um indício de uma ligação física entre esses dois ambientes em períodos distintos.

Foram estudados trechos do DNA de pássaros do grupo dos suboscíneos do Novo Mundo, cujos principais representantes são o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) e o joão-de-barro (Furnarius rufus). Ao comparar o material genético das espécies, Batalha avaliou a semelhança entre elas e as relações de hierarquia (quais eram mais antigas e quais eram mais recentes).

"Partindo das semelhanças atuais e conhecendo o percentual de mutações que acontecem a cada período determinado de tempo para cada família, conseguimos, retrospectivamente, alcançar o ancestral comum. Foi assim que confirmamos que esses pássaros estiveram juntos no passado", diz o biólogo.

De acordo com Batalha, "os tataravós dos tataravós dos tataravós" dos pássaros que vemos hoje se conheceram e deixaram descendentes graças a acontecimentos geológicos e ecológicos em dois momentos muito distintos.

Rota Sul

O mais antigo desses momentos, o pesquisador estima, aconteceu no Mioceno, entre 23 milhões e 5 milhões de anos. Uma placa tectônica do Pacífico chocou-se com a Sul-americana neste período e fez surgir a cordilheira dos Andes. As montanhas se ergueram e formaram um paredão, isolando a Amazônia do Oceano Pacífico.

Também originaram canais elevados onde cresciam savanas inundadas, que podem ter atuado como pontes entre a porção Sudoeste da Amazônia, onde agora é o Estado de Rondônia, e a Mata Atlântica, no que hoje são as regiões Sul e Sudeste do País.

As pontes temporárias permitiram a circulação das aves a despeito do ambiente mais árido que hoje isola as duas florestas. As testemunhas dessa conexão mais antiga são o tapaculo-pintado (Psilorhamphus guttatus) da Mata Atlântica e o corneteiro-da-mata (Liosceles thoracicus), encontrado nas matas de várzea da Amazônia.

Rota Norte

A segunda ligação deu-se mais recentemente, no Plioceno e no Pleistoceno, entre 5,5 milhões e 11.500 anos. No período, a Mata Atlântica do litoral do Nordeste se uniu à vegetação amazônica das Guianas e do Estado do Pará, perto da Ilha de Marajó, além das regiões dos rios Xingu e Tocantins-Araguaia.

De acordo com Batalha, nessa região o principal fator que influenciou a diferenciação das espécies foram as glaciações. Para justificar a análise, ele recorre à Teoria dos Refúgios que afirma que, nos períodos de clima mais frio e seco do continente americano, fragmentos de florestas sobreviveram e serviram de abrigo para as aves.

"Nas glaciações, as regiões áridas tendem a se expandir e as matas encolhem. Mas a precipitação aumentou durante o Pleistoceno em alguns trechos da Caatinga, segundo indica a maior deposição de cálcio em estalactites e estalagmites de cavernas", explica Batalha. O resultado desse aumento nas chuvas foi o surgimento de uma área onde as aves conseguiam sobreviver - uma floresta intermediária entre as matas úmidas e a Caatinga, que hoje ocupa o sertão nordestino.

Um indício forte dessa ligação mais recente é a existência de espécies que vivem tanto na Amazônia como na Mata Atlântica, mas não na faixa árida que separa as duas florestas. É o caso do cricrió (Lipaugus vociferans) e do cabeça-encarnada (Pipra rubrocapilla).

Confira a íntegra da matéria na Revista Pesquisa Fapesp