Notícia

Agrosoft

Aves imunizadas

Publicado em 05 outubro 2011


Uma técnica desenvolvida em 1998 pelos cientistas norte-americanos Andrew Z. Fire e Craig C. Mello para controlar a expressão de genes, testada por uma pesquisadora brasileira na avicultura, pode auxiliar no controle de um dos principais ví­rus causadores de doenças respiratórias virais, que representam hoje as maiores fontes de prejuízos ao setor avícola.

Denominada interferência por RNA, a técnica, que rendeu o prêmio Nobel de Medicina de 2006 a Fire e Mello, possibilitou o estudo das funções de genes especí­ficos e pode ajudar a desenvolver tratamentos para uma série de doenças genéticas.

A dupla percebeu que, ao introduzir nos órgãos reprodutivos do verme Caenorhabditis elegans moléculas de RNA correspondente a uma determinada proteína muscular do artrópode, seus descendentes se contorciam de maneira peculiar. E esse mesmo movimento era observado em vermes modificados geneticamente para não ter o gene que sintetiza a proteína.

Por meio desse experimento, os cientistas concluíram que as moléculas de RNA eram capazes de inativar o gene do verme, inibindo a produção da proteína responsável pela produção de um músculo dele, sem alterar diretamente seu DNA.

Entre 2004 a 2007, durante seu doutorado, realizado no Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com Bolsa da Fapesp, a pesquisadora Helena Lage Ferreira decidiu verificar se a técnica também era capaz de inibir a replicação do metapneumoví­rus aviário (AMPV) - o agente primário da rinotraqueíte de perus e associado à síndrome da cabeça inchada em frangos e galinhas, que é uma doença altamente contagiosa.

Introduzindo moléculas de RNA em regiões alvo do genoma do AMPV nas células de aves infectadas, a pesquisadora observou que a técnica também foi capaz de inibir em quase 100% a replicação do ví­rus.

"Até então essa técnica tinha sido aplicada para inibir apenas ví­rus humanos, e depois desse trabalho, surgiram vários outros aplicando a mesma tecnologia para impedir a replicação de ví­rus aviários", disse Lage durante a conferência que proferiu durante o Simpósio Cientí­fico sobre Defesa Sanitária Animal e Vegetal, promovido em setembro pela Fapesp e pela Fundação Bunge.

A pesquisadora foi contemplada com o Prêmio Fundação Bunge 2011, no tema "Defesa Sanitária Animal e Vegetal", na categoria Juventude (direcionada a pesquisadores com até 35 anos de idade), por suas pesquisas sobre doenças respiratórias aviárias - clique aqui para mais informações.

Apesar dos bons resultados obtidos com a utilização da técnica na avicultura, ela ainda não está sendo usada no setor devido ao seu alto custo. Mas, em contrapartida, está sendo estudada para inibir a replicação do metapneumoví­rus humano, que é do mesmo gênero do aviário.

"Essas moléculas de RNA ainda não estão sendo comercializadas, porque representam uma tecnologia nova. Mas já estão em fase experimental e em breve deverão chegar às farmácias para o tratamento de doenças respiratórias em humanos", disse Lage.

TROPISMO VIRAL

Segundo a cientista, as doenças respiratórias virais representam hoje alguns dos principais problemas para a avicultura brasileira, que ocupa o terceiro lugar na produção mundial.

Entre os principais ví­rus causadores dessas doenças são o da laringotraqueí­te infecciosa, o metapneumoví­rus aviário, o ví­rus da bronquite infecciosa, a influenza aviária e da doença de Newcastle, que representam as maiores fontes de prejuí­zos ao setor.

Encontrados em aves silvestres (exceto o ví­rus da laringotraqueíte infecciosa), as quais normalmente não apresentam os problemas respiratórios causados por eles, esses ví­rus são propagados pelas aves comerciais e podem exterminar um plantel.

Para combater esses ví­rus, atualmente os criadores de galinhas e perus utilizam vacinas de origem europeia ou norte-americana. Mas, de acordo com a pesquisadora, é preciso verificar se essas vacinas realmente combatem os ví­rus de campo "brasileiros".

"É preciso estudar os limites dos programas de vacinação contra ví­rus de doenças respiratórias aviárias no Brasil, porque o tropismo viral -- propensão que um ví­rus tem em infectar um determinado tipo de célula ou tecido -- pode não ser o mesmo dos ví­rus combatidos pelas vacinas importadas de empresas multinacionais", disse.

Além disso, de acordo com Lage, é preciso verificar a eficácia dessas vacinas, que devem ser capazes de inibir tanto a infecção como a excreção viral, para evitar a contaminação dos ambientes de criação, e tentar estabelecer uma correlação da proteção com a resposta sorológica para certificar se as aves estão sendo bem vacinadas.

FONTE: Agência Fapesp