Notícia

Agência USP de Notícias

Aves do Parque Nacional das Emas são contaminadas por endossulfam

Publicado em 11 julho 2007

Por Valéria Dias, Agência USP

No Parque Nacional das Emas, em Goiás, aves da família Caprimulgidae apresentam contaminação pelo endossulfam, um agrotóxico muito usado nas fazendas vizinhas ao Parque que cultivam milho, algodão e soja. Uma das espécies estudadas, conhecida como bacurau-do-rabo-branco (Eleothreptus candicans), é rara, endêmica e está na Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção (http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna/index.cfm).

"Porém, para determinar quais as conseqüências para a saúde destas aves serão necessários estudos mais aprofundados", ressalta o autor da pesquisa, o médico veterinário Sady Alexis Chavauty Valdes. Segundo ele, a causa da contaminação encontrada é alimentar, pela ingestão de insetos atingidos pelo agrotóxico durante a aplicação do produto nas lavouras.

Valdes pesquisou o tema em seu doutorado, apresentado em maio deste ano ao Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da USP em Piracicaba.

O Parque Nacional das Emas fica na região Sudoeste de Goiás, na divisa com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em uma área de cerca de 131.800 hectares, configurando-se como uma Unidade de Conservação isolada em meio a latifúndios agrícolas. Em 2001, o Parque foi incluído na lista (http://whc.unesco.org/en/list/1035) de Patrimônios Naturais da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Coleta e resultados

Entre novembro de 2004 e novembro de 2006, o veterinário viajou até o Parque e capturou 157 aves da Família Caprimulgidae, sendo 109 bacuraus-do-rabo-branco. A captura aconteceu à noite — horário de alimentação das aves —, e em vários pontos do Parque. O veterinário colheu o conteúdo digestivo dos pássaros, congelou o material e trouxe para analisar em São Paulo. Os animais foram soltos em seguida.

Nas cidades próximas ao Parque, como Mineiros e Chapadão do Céu (GO), e Costa Rica (MS), Valdes pesquisou nas revendedoras de agrotóxicos quais eram os produtos mais comercializados e selecionou para o estudo o endossulfam, o monocrotofós e o parationa-metílica (metilparation).

A análise desses produtos no conteúdo digestivo indicou que, das 157 amostras, 119 estavam contaminadas com o endossulfam, 1 com o metilparation e nenhuma com monocrotofós.

Recomendações

As aves contaminadas por endossulfam foram encontradas em locais distantes até 15 quilômetros das fazendas onde o produto foi aplicado. Sobre o monocrotofós e o metilparation, o pesquisador pondera sobre a necessidade de novas pesquisas que utilizem técnicas mais apuradas de detecção desses produtos.

"Seria necessário fazer um monitoramento permanente dessas aves, além de usar espécies não-ameaçadas de extinção como indicadores da contaminação ambiental, para avaliar se mudanças na política de utilização de agrotóxicos no entorno do Parque reduziriam o grau de contaminação encontrado", recomenda.

O pesquisador destaca a participação da comunidade local na pesquisa, com o intuito de discutir o uso de agrotóxico no entorno do Parque. "Alunos e professores das escolas locais puderam participar do projeto, assistindo as nossas palestras e visitando o Parque, para acompanhar a captura e soltura das aves", afirma.

Valdes contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Fundo Nacional do Meio Ambiente.

Mais informações: (0XX19) 3432-8854 ou e-mail sadyzola@usp.br, com Sady Valdes. Pesquisa orientada pelo professor Valdemar Luiz Tornisielo