Notícia

Gazeta Mercantil

Avanços no seqüenciamento do genoma

Publicado em 23 abril 2001

Por Fernando Teixeira - São Paulo
Os países que assumem a liderança na pesquisa em biotecnologia, como EUA, Reino Unido, França e Alemanha, começam a contar com um estranho companheiro: o Brasil, que tem apresentado, nos últimos dois anos, resultados internacionalmente inéditos em genoma humano do câncer, de bactérias e de plantas. "E está maduro para iniciativas ainda mais ousadas", diz José Fernando Perez, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que desde 1997 já dedicou US$ 45 milhões ao Programa Genoma. "Há uma importância estratégica no desenvolvimento da biotecnologia no Brasil, que tem grandes recursos a serem explorados na biodiversidade e no desenvolvimento da agropecuária", acrescenta Perez. A Fapesp ganhou projeção internacional em 2000, quando uma pesquisa realizada pela rede de laboratórios ONSA, financiada pela fundação, divulgou o seqüenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, a primeira vez no mundo em que foi decifrado o genoma de um microrganismo causador de doenças em plantas. A bactéria provoca uma praga chamada "amarelinho", que devasta 35% das plantações de laranja do estado de São Paulo, maior exportador de suco de laranja do mundo. O projeto consumiu investimento de US$ 13 milhões, levou dois anos para ser concluído e teve como resultado a determinação de 2,7 milhões de bases nitrogenadas, as "letras" que representam o único cromossomo da Xyllela. Aparentemente, uma conquista pequena em relação ao Projeto Genoma Humano, que teve a sua conclusão anunciada em junho de 2000. Ele registrou 3,1 bilhões de bases espalhadas em 23 cromossomos. A Celera, empresa privada que, paralelamente a um consórcio público internacional, realizou o seqüenciamento do genoma, despendeu US$ 200 milhões de dólares para finalizar a tarefa em menos de um ano. Apesar da desproporção entre as duas pesquisas, o projeto brasileiro foi considerado um avanço: a revista Nature, que divulgou a façanha em primeira página, declarou em editorial que a realização tem uma importância tanto científica quanto política: "Há um equívoco comum de que somente nações avançadas e industrializadas têm o potencial e o pessoal qualificado necessários para realizar ciência de ponta e eficaz". Segundo Perez, o Brasil leva vantagem em relação a outros países subdesenvolvidos porque - apesar das crises econômicas - o governo nunca abandonou o investimento em conhecimento. O que se colhe hoje seria resultado de um processo iniciado na segunda metade da década de 60, quando foram abertos no país cursos de pós-graduação. "Hoje a etapa de mandar gente para estudar no exterior está ultrapassada", diz Perez, lembrando que essa estratégia não é sempre bem-sucedida, pois muitas vezes os estudantes vão para o exterior e não voltam. Outro ganho da estratégia brasileira é a construção de uma infra-estrutura física básica para pesquisa, em institutos e universidades. Nos últimos quinze anos, como resultado desse processo, a participação do país em publicações científicas internacionais aumentou de 0,5 para 1,4%. Hoje, a produção de ciência no país representa quase metade do que é feito na América Latina. Além da preocupação em usar as pesquisas para aperfeiçoar a exploração da agrope-cuária - 40% do PIB do Brasil deriva de atividades do agronegócio -, Perez acredita que o maior retorno imediato do projeto é a formação de mão-de-obra qualificada. "O objetivo principal é aumentar o número de laboratórios e capacitar recursos humanos." O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do governo federal, deu início, neste ano, ao Projeto Genoma Brasileiro, com o objetivo de capacitar 25 laboratórios para o seqüenciamento genético - a rede ONSA, da Fapesp, possui 54 laboratórios. "A primeira bactéria escolhida para ser seqüenciada revela uma preocupação com a exploração da biodiversidade do Brasil", diz Silvana Almeida Filgueira Medeiros, coordenadora-geral de agropecuária e biotecnologia do CNPq. Silvana se refere à Cromobacterium violacium, cujo genoma deve estar concluído em julho. Essa bactéria, natural do rio Negro, na região amazônica, apresenta múltiplas possibilidades de aplicação prática: pode ser eficaz no tratamento de endemias, como doença de Chagas e leishmaniose, apresenta potencial de produção de plásticos biodegradáveis e elabora uma substância que pode substituir o mercúrio no garimpo do ouro. Segundo Silvana, a distribuição geográfica dos laboratórios, com unidades inclusive na região amazônica, propicia ganhos para a exploração da biodiversidade do país. Em São Paulo, a Fapesp financia o projeto "Biota", com preocupação semelhante: emprega 300 cientistas com o objetivo de identificar recursos biológicos no estado de São Paulo. BRASIL GANHA PROJEÇÃO MUNDIAL O Programa Genoma do Câncer, desenvolvido em conjunto pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, já decifrou cerca de um milhão de seqüências de genes de células cancerígenas, o que situa o Brasil em segundo lugar no seqüenciamento desse tipo de genoma, depois dos EUA. "Mais do que qualquer outro projeto, esse colocou o Brasil no cenário internacional da Genômica", diz Andrew Simpson, coordenador do Genoma do Câncer, que agora comanda também o Projeto Genoma Brasileiro. De acordo com Simpson, muito dessa pesquisa era internacionalmente inédita, com cerca de 25% do material correspondendo a regiões do Genoma que não haviam sido identificadas como genes. Simpson aponta como grande mérito do projeto o desenvolvimento de uma técnica própria, batizada péla sigla Orestes. "Uma metodologia robusta, que deixou o trabalho detalhado e que funcionou muito bem. Está sendo reconhecida como uma técnica boa e ousada", afirma. Agora, o projeto está na etapa de finalização e de procura por aplicações mais práticas: o Genoma Clínico do Câncer, que tem como meta desenvolver diagnósticos precoces e novas terapias. (F.T.) A CHAVE DA MUDANÇA Decifrar o código genético pode ser uma etapa para a produção de um transgênico. Uma variedade geneticamente modificada, chamada milho Bt, produz uma proteína própria da bactéria Bacillus thuringiensis, tóxica a certos insetos. Sua elaboração, que difere para outros tipos de transgênicos, é o exemplo de como o processo pode ser feito: 1 - Para encontrar a característica desejada no Bacillus thuringiensis, é preciso seqüenciar o seu DNA, ou trechos dele, determinando uma ordem de bases, as "letras", que representam seu código genético 2 - Depois, isolam-se nessas seqüências os genes, que são os trechos do DNA responsáveis pela elaboração de uma proteína específica. Entre esses genes, deve ser encontrado o que produz a proteína tóxica 3 - Por meio da engenharia genética, ou técnica do DNA-recombmante, é introduzido esse gene dentro do DNA de uma célula de milho 4 - Deixando a célula se desenvolver e crescer, obtém-se o milho Bt