Notícia

Jornal da Unesp

Avanços no jornalismo científico brasileiro

Publicado em 23 julho 2012

Por Eliza Muto

Mariluce Moura tem alma de jornalista. É simplesmente assim – “jornalista” – que ela se define em seu perfil no microblog Twitter (@marilucemoura). Desde 1988, Mariluce cobre a área de ciência e, a partir de 1995, liderou a estruturação da área de comunicação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), além de fundar a revista Pesquisa Fapesp, em 1999, da qual é diretora de redação. Hoje, também preside a Associação Brasileira de Jornalismo Científico. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, é mestre e doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Jornal Unesp: Que espaço a divulgação científica ocupa na mídia brasileira?

Mariluce Moura: A ciência hoje está muito mais na mídia do que estava nos anos 1990 e é crescente a qualidade da informação jornalística disseminada pela mídia nacional a respeito da ciência. Os jornais diários dão relativa visibilidade à ciência que se produz no Brasil. E, com muita frequência, as produções da ciência brasileira se transformam em matéria no Jornal Nacional, da TV Globo, por exemplo.

JU: Há um número crescente de blogs de ciência escritos por jornalistas e cientistas, que também estão presentes no Twitter e no Facebook. Como você avalia o papel das novas mídias?

Mariluce: Num estudo realizado em São Paulo em 2007, para o qual foram entrevistadas quase 2 mil pessoas, 76% delas declararam nunca ler notícias científicas nos jornais, nas revistas ou na internet. Os resultados da pesquisa realizada pelo Labjor da Unicamp foram apresentados no 12º capítulo dos Indicadores de ciência,tecnologia e inovação em São Paulo - 2010. O paradoxal é que 63% dos entrevistados se declararam interessados ou muito interessados em ciência e tecnologia, o que nos leva a acreditar que a população está exposta de alguma forma à informação sobre ciência. Por isso, acredito que, por ora, os blogs de ciência são menos efetivos na criação de uma cultura científica.

JU: A revista Pesquisa Fapesp é um veículo jornalístico?

Mariluce: Ela nasceu como uma publicação muito especial, fruto de uma concepção jornalística articulada à ideia de que era essencial difundir e valorizar os resultados das melhores produções científicas e tecnológicas em São Paulo. Tinha como objetivo articular a comunidade científica com informações relevantes de todas as áreas do conhecimento, mas hoje atinge um público mais amplo. Além disso, já em 1999, a revista se abriu para pesquisas nacionais, e em 2002 passou a ser vendida nas bancas e a comercializar publicidade. Dessa forma, a Pesquisa Fapesp é um veículo jornalístico, uma vez que se vale dos princípios jornalísticos desde a concepção da reportagem até a apuração e a redação do texto.

JU: E quem é hoje o leitor da revista?

Mariluce: A primeira pesquisa de opinião com nossos leitores [feita pelo Instituto Datafolha em 2011, com 858 pessoas] trouxe resultados surpreendentes. Antes, imaginávamos que nosso leitor tinha um elevado grau de formação acadêmica. Com a pesquisa, percebemos que, se existe um público formado por uma elite intelectual e empresarial, também há professores de ensino médio, profissionais liberais, estudantes no começo da graduação e até estudantes de ensino médio. Outra constatação foi que 90% consideraram os textos da revista de fácil leitura.

JU: Podemos dizer que a Pesquisa Fapesp também evoluiu?

Mariluce: Para nós, sempre foi muito claro o que é notícia, mas acho que no começo éramos

mais otimistas e ingênuos. Hoje, nossos jornalistas dialogam mais criticamente com os cientistas e os formuladores de política de ciência e tecnologia. Embora a linguagem dos jornalistas seja diferente daquela dos pesquisadores e algumas vezes esse diálogo seja tenso, sempre procuramos encontrar o ponto exato para não pisar em falso. Além disso, o conselho editorial criado em 2011 vem fazendo importantes avaliações e sugestões, no sentido de tornar a leitura mais agradável e fácil sem nenhuma concessão ao rigor das informações e à relevância científica e jornalística dos temas. Uma das mudanças resultantes disso é que adotamos o uso de infográficos claros e sintéticos como um modo adicional de informação.

JU: Como você vê a revista no futuro?

Mariluce: Queremos formar um público maior de leitores e contribuir para ampliar a cultura científica na sociedade brasileira. Em dois anos, pretendemos atingir uma tiragem de 100 mil exemplares.