Notícia

Gazeta Mercantil

Avanços científicos vão torna: câncer totalmente controlável

Publicado em 03 janeiro 2000

Ao fechar o ano de 1999 inaugurando, no mês passado, o Laboratório de Genoma Funcional, o Hospital do Câncer em associação com o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, de São Paulo, deu um passo importante na consolidação de um novo conceito a respeito da doença. O câncer, neste século prestes a se iniciar, está fadado a desaparecer, ou a se tornar uma doença absolutamente controlável. Esta é a opinião do diretor do Hospital do Câncer, Ricardo Brentani. Esta mudança de atitude em relação ao problema - há cerca de 20 anos, muitas pessoas nem ousavam pronunciar a palavra câncer e hoje o hospital, sem rodeios, estampa o nome da doença de forma direta - está baseada em um conjunto de fatores. - Um deles, sem dúvida, está relacionado às novas formas de se diagnosticar o câncer, com resultados mais precisos e revelados precoce-mente. As outras bases dessa nova maneira de encarar a doença estão nos prognósticos mais claros sobre o problema e nas drogas que aumentam as chances de cura e garantem melhor qualidade de vida ao paciente em tratamento. Atualmente, existem medicamentos que se propõem a inibir, com sucesso, o crescimento dos vasos sanguíneos que alimentam o tumor - dessa forma, ele acaba "morrendo" por falta de nutrientes. Outra classe de drogas - os anticorpos monoclonais - também possui mecanismos capazes de se juntar as moléculas que atuam na duplicação de células cancerosas, matando-as sem prejuízo às células saudáveis. Medicamentos menos tóxicos e mais eficientes são o grande desafio da ciência, mas já há boas perspectivas para pacientes com câncer neste sentido. De outro lado, o suporte ao doente também avançou: hoje a abordagem do paciente consiste em um trabalho desenvolvido por uma equipe multidisciplinar, com nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo, remédios potentes para bloquear dores, melhoria na qualidade do atendimento hospitalar, médicos mais bem preparados e informados. Atualmente, mais do que nunca, ter câncer não é igual a morrer - os tumores agressivos, de difícil resposta aos tratamentos, já fazem parte de uma realidade cada vez mais rara. Nos Estados Unidos, estima-se que, neste novo ano, uma em cada 900 pessoas será uma sobrevivente de câncer. O que significa que mais pessoas terão resistido à doença. Para Brentani, no século XXI se assistirá ao desaparecimento do câncer, "basicamente por conta de seu caráter de doença passível de prevenção". Segundo o médico, essa será uma realidade possível de ser vivida dentro de uns 30 anos. "Hoje já sabemos que 35% dos tumores estão associados ao rumo, 15% ao álcool, 10% provêm do vírus HPV - vírus do papiloma humano - 15% são tumores hereditários e 25% têm causa desconhecida", explica o médico. Deixando de fumar e bebendo com moderação, é possível, então, de acordo com o especialista, evitar metade dos tipos de câncer conhecidos. O cigarro, segundo Brentani, é responsável por tumores nas vias aéreas superiores, no pulmão, nas vias digestivas superiores, bexiga, mama e estômago. "Não há dúvida nenhuma em relação a isso", diz o médico. Já o álcool responde pelos tipos de câncer que atingem o estômago e as vias digestivas superiores. Visitando o ginecologista e o urologista com freqüência e observando algumas regras básicas de higiene, como reduzir o número de parceiros sexuais e fazer sexo com preservativo, consegue-se prevenir mais 10% dos tumores - os de colo do útero, do pênis e do ânus, provocados por este vírus. Além disso, em 20 anos, acredita-se que já haverá uma vacina contra o vírus HPV. Entre os fatores ambientais mais conhecidos por provocar câncer está o sol. "Pouquíssimas pessoas podem se queixar de que não sabem que o sol em excesso pode levar ao câncer de pele", diz o médico do Hospital do Câncer. Da mesma forma, diz, os perigos do bronzeamento artificial também têm sido alertados pela mídia. 'Todos os médicos concordam nesse ponto e são unânimes em condenar o bronzeamento." Os cânceres hereditários (mama e intestino grosso, por exemplo), com os avanços da ciência, como os proporcionados pelo Laboratório de Genoma Funcional, terão seus riscos medidos antes mesmo que as pessoas suscetíveis possam desenvolvê-los. Dessa forma, serão evitados que se instalem no organismo. Os 25% restantes, que têm causa desconhecida, necessitam de pesquisa, básica, de acordo com Brentani, que está otimista também com essa perspectiva. "O genoma humano, o extenso trabalho de reconhecimento dos genes, será concluído, estima-se, dentro de um prazo médio de cinco anos e, com isso, estará aberto o caminho para o entendimento desses cânceres cuja causa ainda não conhecemos e que muitas vezes são os mais agressivos." A eficiência dos serviços públicos e a educação e informação da população a respeito dos sintomas e o acesso a todas as drogas de primeira geração complementam o arsenal contra a doença. Hoje, um dos tipos de câncer que mais provoca mortes no Brasil é o de mama. Isso porque 70% dos casos são diagnosticados tardiamente - justamente por falta de informação por parte das mulheres, que não se auto-examinam ou não têm o hábito de procurar um especialista. Segundo Brentani, dentro de 25 anos já vai ser possível saber a causa de todos os tumores e, o melhor, como evitá-los.