Notícia

O Dia (SP)

Avanço no projeto Genoma do Câncer

Publicado em 24 julho 2000

O projeto brasileiro Genoma' Humano do Câncer conseguiu seqüenciar 500 mil genes humanos expressos nos tumores mais comuns no país, dos quais 270 mil foram colocados à disposição da comunidade científica internacional. E a nova meta é produzir 1 milhão de seqüências até o final deste ano. A principal vantagem obtida a partir dos resultados deste projeto será o diagnóstico precoce do câncer. No total, o Governo do Estado terá destinado, até dezembro, US$ 20 milhões ao projeto. O anuncio da ampliação e do balanço da contribuição do projeto às pesquisas mundiais sobre os genes humanos foi feito sexta-feira pelo governador do Estado, Mário Covas, em solenidade no Palácio dos Bandeirantes. "O sucesso obtido em São Paulo reflete em todo o País; não é uma vitória individual", destacou Covas. "É um projeto de dimensões ética e humana, de interesse comum à toda a sociedade", acrescentou. A pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) e pelo Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, já recebeu o equivalente a US$ 15 milhões, desde o seu início, em março de 1999. Está prevista ainda a liberação de mais US$ 5 milhões até dezembro próximo. O trabalho vem sendo realizado por cientistas da Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos (Onsa), um instituto virtual de genômica estruturado pela Fapesp. A rede reúne cerca de 60 laboratórios li-' gados a institutos e universidades paulistas. "O compromisso do projeto é disponibilizar as seqüências de forma rápida e contínua para maximizar os benefícios para a humanidade", ressaltou o presidente da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz. A combinação de dados produzidos pelo Genoma Câncer no Brasil com os de outros projetos permitirá a identificação da estrutura da maioria dos genes humanos associados ao câncer. "No futuro, poderemos prever o comportamento clínico do tumor, fazer um diagnóstico e indicar o tratamento adequado para quem já tem a doença", afirmou Andrew Simpson, diretor científico da Fapesp. Com isso, a doença que aflige grande parcela da população mundial poderá ser controlada e, quem sabe, evitada, se for feito um diagnóstico a tempo, segundo o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez. O passo seguinte será a criação de dois bancos de clones, que oferecerão cópias das seqüências identificadas para um número maior de cientistas possa estudar suas funções. Também estão previstos os lançamentos do Genoma Clínico do Câncer, para análise dos genes associados à doença, e do Genoma Estrutural, que abrangerá o estudo da estrutura e da função de proteínas expressas em células de tumores de câncer. Nestes dois casos, elabora-se o tratamento e a terapia mais adequados para cada paciente. O Brasil já é o segundo colocado no ranking dos países que mais seqüenciaram fragmentos de genes relacionados ao câncer. Através do Genoma Câncer, já foi possível identificar 100 novos genes no cromossomo 22, onde a comunidade científica internacional tinha localizado cerca de 500. As 500 mil seqüências deve-se à aplicação da tecnologia Orestes (Open Reading Frames Expressed Sequence Tags) em tecidos retirados de tumores cancerosos. A metodologia consiste, inicialmente, no seqüenciamento da parte central dos genes, onde está concentrada a informação relevante para a síntese de proteínas. "A maior contribuição brasileira está relacionada aos tumores de cabeça e pescoço, que passaram de 3 mil seqüências para 100 mil, e aos de mama e cólon (intestino)", disse Ricardo Brentani, presidente do Hospital do Câncer e do Instituto Ludwig. Todas as seqüências serão depositadas no maior banco público internacional, o GenBank, possibilitando identificar os genes humanos, e que poderá ser consultada por toda a comunidade científica. Os fragmentos de genes não devem receber a proteção de patentes por serem informações em estado bruto, no entendimento da Fapesp e do Instituto Ludwig. "Apenas quando se puder apontar uma aplicação precisa para o seqüenciamento, é que se deve fazer a patente", afirmou Brentani.