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Jornal Correio

Avanço da cana valoriza terras

Publicado em 22 maio 2007

O preço da terra no Estado de São Paulo mais do que dobrou nos últimos cinco anos, segundo levantamento do lnstituto da Economia Agrícola (IEA). De 2001 a 2006, o valor médio por hectare subiu 113,6%, de R$ 4.740,11 para R$ 10.128,12. Não foi uma valorização homogênea, como mostra o mapa do IEA, mas foi registrado com mais vigor no interior de São Paulo. Em Franca, o valor por hectare subiu 170% no mesmo período e em Ribeirão Preto, 160,4%.
"Ao centro de gravidade da economia paulista mudou. Foi do interior no período do café. Foi da capital no período da industrialização. E agora volta ao interior com a agroindústria exportadora", resume o pesquisador da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), Vicente. Gotfeto.
Dois fatores determinaram essa valorização até agora. A primeira está relacionada à estabilidade de preços da economia brasileira pós-Plano Real. Mas associado a isso está o desenvolvimento de negócios de grande escala que forma cadeias agro-industriais exportadoras. Entre as atividades que se desenvolveram, segundo pesquisadores, estão grãos açúcar,suco de laranja carne bovina - esta, atividade com a situação mais critica do ponto de vista dos produtores.
Um dado: a exportação da macrorregião de Ribeirão Preto no primeiro quadrimestre deste ano atingiu US$ 1,442 bilhão, crescimento de 41,9% em relação ao que a região exportou no mesmo período de 2006. "SÓ Araraquara vai exportar US$ 1 bilhão este ano. Por enquanto, não tem nada com cana, é laranja. Suco de laranja", explica Golfeto.
O mesmo modelo que ajudou a inflacionar o preço da terra em São Paulo receberá a partir de agora um reforço. A valorização da terra, que pare cia se estabilizar no ano passado, tomou novo fôlego a partir deste ano com o etanol. Um novo ciclo de investimentos em usinas para produção de álcool provoca nova corrida por áreas necessárias para a formação de canaviais no Estado.
"No longo prazo, a tendência de alta do preço da terra deverá prevalecer no mercado paulista, tendo como principal fator de sustentação a demanda mundial crescente por biocombustiveis", aponta Felipe Pires de Camargo, engenheiro agrônomo e pesquisador cientifico do IEA, responsável pelo ultimo levantamento do preço de terra em São Paulo.
A elevação do preço das áreas agrícolas chamou tanta atenção do instituto, que uma série de pesquisas financiadas pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) tentará buscar explicações sobre o que ocorre com essas populações rurais e a relação socioeconômica no interior paulista. Além da substituição de cultura — vista com ênfase na conversão de grandes áreas de pasto em canaviais -, ha uma suspeita sobre um processo de concentração fundiária em São Paulo nas mãos de grandes grupos sucroalcooleiros ou de fornecedores de cana.
Uma usina de tamanho médio capaz de moer 1,5 milhão de tonelada de cana por ano precisa de um canavial de 25 mil hectares plantados Há projetos ainda maiores em desenvolvimento em São Paulo, o que requer glebas dedicadas ainda mais extensas Segundo levantamento da União da Agroindustria da Cana-de-Açucar (Unica), ate a safra 2012/2013, o Estado de São Paulo tem garantidos a construção de mais 31 novas usinas, o que elevará o total de unidades para 179 Ha combustível para mais valorização da terra, sustentam especialistas."A corrida por área para as novas usinas dará novo impulso à valorização da terra. Ao contrário do que muita gente pensa, o efeito do etanol ainda não está refletido no preço de terra", avalia Bastiaan Reydon, professor e pesquisador do Núcleo de Economia Agrícola do Instituto de Econômica da Agricola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Reydon estuda o preço de terra há 25 anos e se surpreende com a atual tendência Ele alerta, entretanto, que nem o maior dos otimistas com o etanol pode assegurar que essa valorização seja sustentável. Parte disso está relacionado a falta de regulação do uso da terra no País, explica Reydon.
A situação do setor sucroalcooleiro, segundo ele, é um bom exemplo Não ha qualquer regulação que impeça o dono de usina em ter áreas para abastecer as moendas Nem o contrário Esta é uma maneira, afirma, de controlar o processo de concentração da terra. A outra é tornar efetivo o controle do pagamento do Imposto Territorial Rural, o IPTU do campo.