Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Avanço científico pressupõe responsabilidade social

Publicado em 28 junho 2000

A decodificação quase completa dos genes do corpo humano abre a perspectiva de uma nova era no desenvolvimento de técnicas capazes de prolongar a vida humana e medicamentos mais eficazes no tratamento de doenças como o câncer. O mapeamento do código genético se tornou um objetivo tão importante que o anúncio da conclusão da primeira fase do Projeto Genoma foi feito simultaneamente nos vários países envolvidos nas pesquisas. A própria natureza supranacional da investigação dos genes demonstra a necessária preocupação com questões cruciais envolvendo esta área da ciência. Esses conhecimentos não podem, nem devem, ficar restritos a uma só nação, ou a uma empresa privada, como é o caso da Celera Genomics, que também realiza um mapa das informações genéticas. A formação de um consórcio de laboratórios de diversas partes do globo - incluindo o Brasil, através da Fapesp - foi uma alternativa coerente, pois garante que os resultados se tornem um patrimônio universal, e não uma arma estratégica, como aconteceu com a energia nuclear. Essa cooperação, vale lembrar, dificilmente seria possível, caso o mundo continuasse dividido em dois blocos políticos antagônicos. O otimismo despertado pelo mapa genético, contudo, não elimina algumas dúvidas sérias sobre o uso que será feito dessa tecnologia, quando ela estiver completamente aperfeiçoada. A história do Século 20 desmente a suposta neutralidade da ciência. Qualquer descoberta pode servir ao totalitarismo e, nessa área específica, a grupos que pregam a limpeza racial. Não podem ser esquecidas as terríveis experiências feitas pelos nazistas, nem os recentes conflitos no Leste Europeu, motivados por diferenças étnicas. Existe o risco concreto de que a pesquisa do genoma possa servir, mais tarde, para confirmar os piores temores de controle social por governos, ou grupos, É preciso alertar, desde já, para esse perigo, pois a euforia com o progresso espetacular da ciência pode, com facilidade, fazer com que sejam ignoradas suas conotações mais sinistras. Outra questão, que se refere à possibilidade de prolongamento do tempo médio de vida dos seres humanos, tem profundas implicações sociais. A expectativa de se viver mais, com qualidade, pressupõe a melhoria da distribuição de renda e o combate à miséria, de forma global. Além disso, todas essas conquistas têm de ser democratizadas, ou seja, devem estar ao alcance da maioria das pessoas. O surgimento de uma casta de privilegiados, com capacidade econômica de acesso aos benefícios da medicina, seria a reprodução de um modelo que, ainda hoje, o mundo tenta superar. É preciso que os avanços científicos e políticos finalmente caminhem juntos. O Projeto Genoma é uma boa oportunidade para isso.