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Correio da Paraíba

Avançam estudos sobre anticorpos

Publicado em 02 maio 2010

São Paulo (Agência Fapesp) - Não foi nada fácil para a bioquímica Fernanda Alvarez Rojas realizar seus experimentos e concluir o doutorado em ciências médicas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizado entre 1998 e 2001. A pesquisadora dedicou-se ao estudo de modelos animais para uso em laboratório em pesquisas sobre resistência à insulina. Fazia parte do estudo a execução de experimentos com uso de anticorpos, componentes essenciais para kits de diagnóstico e novos medicamentos.

Na essência, os anticorpos são moléculas produzidas pelo sistema imune para combater doenças e têm sido empregados em trabalhos científicos para a determinação de características dos antígenos, partículas presentes nas células invasoras que induzem a resposta imune do organismo. O problema é que o Brasil não fabricava esse produto, que precisava - e ainda precisa - ser importado. Aí residia o calvário de Fernanda - e de muitos outros pesquisadores pelo país afora. "Os anticorpos eram encomendados e demoravam muito para chegar, atrasando as pesquisas.

Além disso, quando chegavam muitos estavam com prazo de validade vencido ou estragados por problemas de acondicionamento no transporte", recorda-se Fernanda. "Numa ocasião, fiz 50 experimentos e só aproveitei quatro. Era muito desperdício de tempo e dinheiro." Episódios como esse fizeram Fernanda, depois de concluída a pós-graduação, cogitar a ideia de ela mesma produzir anticorpos para suas pesquisas e de seus colegas na academia.

A bioquímica associou-se a duas colegas - a enfermeira Eliana Araújo e a farmacêutica Alessandra Gasparetti - e criou, em 2004, a Imuny Biotechnology, em Campinas, interior de São Paulo, para produzir e comercializar anticorpos. A partir daquele ano a empresa contou com apoio financeiro da FAPESP por meio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe).

Quatro anos depois, Fernanda fundou, com o biólogo Luís Antônio Peroni, a Rheabiotech, uma spin-off da Imuny, que passou a produzir também kits para diagnóstico, deixando para a empresa-mãe a atividade comercial dos insumos biotecnológicos. Mais uma vez os pesquisadores contaram com um projeto Pipe, agora para desenvolver kits para a área agrícola.

Um dos primeiros produtos da Rheabiotech é o Soja Detecta, para detecção precoce da ferrugem asiática de soja, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, que gera grande prejuízo para os agricultores. Ele foi desenvolvido com apoio técnico da Bayer CropScience, que forneceu folhas infectadas para testes em laboratório, e se encontra em testes de validação de campo. O kit utiliza um soro contendo anticorpos capazes de detectar a presença do fungo na planta.

Para isso é preciso fazer um macerado de folhas de soja e aplicá-lo em um papel especial. Em seguida, esse papel com as amostras das folhas é colocado em contato com reagentes contendo os anticorpos. Caso exista presença do fungo no material, o papel adquire uma coloração avermelhada.

Com 300 anticorpos diferentes, a Rheabiotech faturou no ano passado, ainda sem uma estratégia comercial, R$ 30 mil e prevê elevar sua receita para R$ 150 mil este ano. Para tanto, a empresa aposta no desenvolvimento de novos produtos, entre eles um kit em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), para a detecção de salmonelose suína nos frigoríficos, além de dois kits para o setor de cítricos e outro para diagnóstico e prognóstico de doenças autoimunes, inflamatórias e alguns tipos de câncer. Esse último produto está sendo desenvolvido com o apoio financeiro do Programa de Subvenção 2009 da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

Dois anos após sua criação, a Rhea­biotech faz parte de um seleto e reduzido grupo de empresas de base tecnológica - que se contam nos dedos de uma mão - especializadas na produção de anticorpos, kits de diagnóstico e outros insumos biotecnológicos destinados à pesquisa básica, à detecção de doenças humanas, animais e vegetais. "O mercado nacional depende fortemente da importação de anticorpos. Diria que 99% desses insumos, fundamentais para diagnóstico de doenças e realização de pesquisas científicas, vêm do exterior", afirma o médico Fernando Kreutz, sócio da FK Biotecnologia, empresa gaúcha pioneira do setor.

Segundo ele, o mercado nacional de reagentes para diagnósticos, que inclui os anticorpos usados para pesquisa e detecção de doenças, gira em torno de R$ 1,2 bilhão, enquanto o de anticorpos de uso terapêutico ficou em R$ 1,8 bilhão em 2009. "É estratégico para o país ter uma indústria sólida desses insumos e, assim, reduzir a dependência da importação de anticorpos e kits de diagnóstico", diz Kreutz.

Uso terapêutico - Criada em 1999, a FK Biotecnologia, com sede em Porto Alegre, já colocou no mercado mais de 150 anticorpos monoclonais para pesquisa acadêmica e investe na pesquisa e desenvolvimento de anticorpos de uso terapêutico para tratamento de câncer. Esses são anticorpos especialmente desenvolvidos para combate a doenças. É um mercado ainda imaturo, com aproximadamente 20 anticorpos aprovados para uso terapêutico pela Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana que regula o setor de medicamentos.

O faturamento do setor é de aproximadamente US$ 15 bilhões e quase a metade desse valor vem da venda de oito anticorpos na área de oncologia. Segundo o Ministério da Saúde, o país gastou em 2009 R$ 389,8 milhões apenas com quatro desses medicamentos. No Brasil, outra empresa que atua nesse segmento é a paulista Recepta Biopharma (ver Pesquisa FAPESP nº 137).

A FK investe também em outro segmento que utiliza os anticorpos como matéria-prima, o de kits de diagnóstico. No início de 2010, a FK em parceria com a empresa Lifemed, de São Paulo, obteve registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de quatro novos produtos. Ainda no primeiro semestre deste ano a empresa deve lançar três kits de diagnóstico HCG, sigla de gonadotrofina coriônica humana, o hormônio que indica pela dosagem se a mulher está grávida ou não. Os kits possuem anticorpos monoclonais que detectam o HCG secretado em grande quantidade no início da gravidez. Com os novos kits, ele espera elevar seu faturamento para R$ 10 milhões, cinco vezes o obtido em 2009. "Até o ano passado, nossa produção era limitada a anticorpos para uso em pesquisa. A partir de 2010 daremos um salto expressivo com os kits de diagnóstico. Agora seremos capazes de competir com os grandes fornecedores mundiais", diz Kreutz. Os novos kits serão vendidos em farmácia e devem ser exportados para África e Oriente Médio.

O biólogo imunologista Sandro Gomes Soares, diretor-executivo da Invent Biotecnologia, empresa instalada na Supera, a incubadora de empresas de base tecnológica localizada no campus da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, no interior paulista, tem opinião parecida com a de Kreutz. Para ele, é fundamental que o país domine as técnicas de produção de anticorpos em larga escala, além de investir em pesquisa e desenvolvimento visando à criação de uma nova geração de anticorpos com a aplicação de técnicas de DNA recombinante. Nessa técnica, por meio de processos biotecnológicos, um gene que produz determinado anticorpo é inserido ou codificado no genoma de um organismo. "Precisamos dar um salto em direção a produtos inovadores, maior do que as indústrias farmacêuticas nacionais têm dado", aponta Soares.