Notícia

Gazeta Mercantil

Avança pesquisa sobre plásticos biodegradáveis

Publicado em 22 fevereiro 1998

Por Ana Heloísa Ferrara - de Campinas
IPT, Copersucar e suas 13 parceiras trabalham para transformar a resina fabricada a partir da cana-de-açúcar num produto viável. Plásticos biodegradáveis, como a resina produzida a partir da cana-de-açúcar, podem se degradar em apenas 15 semanas, gerando gás carbônico e água, conforme o tipo de solo. Em contraste, o lixo plástico tradicional - de origem petroquímica - leva cerca de cem anos para se decompor. Esta é uma das conclusões de um trabalho que está sendo coordenado pelo professor Derval dos Santos Rosa, da Faculdade de Engenharia da Universidade São Francisco (USF). O Brasil despeja 2,2 milhões de toneladas de resíduos plásticos no meio ambiente a cada ano. Só no estado de São Paulo são descartadas 900 mil toneladas anuais, das quais 40% de plásticos derivados das indústrias de embalagens. Preocupados com o impacto desses materiais, os pesquisadores da USF estudam há um ano a decomposição de plásticos biodegradáveis para apresentar soluções de baixo impacto. Entre os materiais alternativos em estudo está o plástico derivado da cana-de-açúcar, batizado de PHB, que vem sendo desenvolvido pela Cooperativa de Produtores de Cana-de-Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar) há cerca de seis anos. Para estudar a degradação dos plásticos alternativos, a equipe da USF teve que avaliar sua resistência mecânica e seu modo de processamento, bem como seu comportamento em cinco diferentes tipos de solo. Num pH mais alto (ou mais básico), o material se degrada mais rapidamente. "Os solos com cal processam o material até duas vezes mais rápido", diz. Outro fator importante, ressalta, é a quantidade de microorganismos encontrados no solo. A queima e a reciclagem do lixo plástico não são soluções ideais, segundo Santos Rosa. No primeiro caso, são gerados compostos altamente tóxicos e, no segundo, o custo é elevado, e exige uma mudança cultural. A Cromex Brancolor Ltda., fabricante nacional de matérias-primas para as indústrias plásticas desenvolve há três anos uma parceira da Copersucar para testar as aplicações práticas do plástico derivado do açúcar, especialmente em produtos que não podem ser reaproveitados, como embalagens para medicamentos e herbicidas. "Nos testes que realizamos até agora verificamos que ainda não temos o peso molecular adequado para que a resina de açúcar seja empregada em escala industrial. Por enquanto são só projetos pilotos", afirma a gerente de marketing e revenda de matérias-primas da empresa, Toshiko Yokote. Segundo o gerente de novos produtos e negócios da Copersucar, Marco Antônio Azzolini, até o final do ano ela deverá obter um estudo completo de viabilidade técnica e econômica da resina biodegradável. Segundo Azzolini, para algumas aplicações produzidas em máquinas injetáveis, como réguas e talheres descartáveis, a resina já poderia ser repassada para uso industrial. "Só que ainda não temos volume pois a planta em que estamos desenvolvendo a pesquisa é pequena", observa. O trabalho da Copersucar, que é desenvolvido junto com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), está sendo realizado na usina da Pedra, no município paulista de Serrana, na região de Ribeirão Preto, onde a cooperativa já investiu mais de US$ 2,5 milhões, desde 1994. Azzolini calcula que, pelos estudos prévios de viabilidade econômica do projeto, para uma produção de 5 mil a 10 mil toneladas anuais da resina - cuja matéria-prima principal é o açúcar - seriam necessários investimentos de US$ 20 milhões a US$ 30 milhões. Além da Cromex Brancolor, a Copersucar mantém 12 parcerias com empresas e instituições interessadas na resina, mas mantém segredo sobre seus nomes. Há, inclusive, empresas e instituições da Alemanha que mantêm parceria com a cooperativa, sem nenhum tipo de exclusividade garantida para quando a resina estiver em condições de uso comercial. "Uma pequena empresa alemã interessada na resina já fabrica produtos com plásticos biodegradáveis, como o biopol, da Inglaterra, obtido do processo de fermentação da beterraba. São produzidos por ela desde copos e talheres descartáveis até vasos de mudas de plantas", conta. Depois de finalizada a primeira etapa de pesquisa da equipe da Universidade São Francisco - prevista para o final deste ano - professor e alunos passarão a se preocupar com a aplicação do plástico biodegradável para fins médicos. Uma das aplicações, antecipa Santos Rosa, seria a substituição dos pinos de platina implantados em pacientes com fraturas. Como a duração do plástico biodegradável não é longa, o organismo acaba absorvendo-o, sem a necessidade de uma cirurgia para sua remoção.