Notícia

Gazeta Mercantil

Avança pesquisa de drogas fitoterápicas

Publicado em 15 junho 1998

Por Márcio Venciguerra - de São Paulo
Brasil pode conquistar lugar de destaque internacional no ramo de remédios à base de plantas medicinais O Brasil perdeu o bonde dos medicamentos sintéticos, na opinião do médico e pesquisador Dagoberto Brandão. No entanto, o País pode conquistar uma posição mundial respeitável no ramo dos fitoterápicos, remédios feitos à base de plantas medicinais. Além de uma questão de soberania è mercado para empresas brasileiras, o investimento em pesquisa poderá aumentar tanto o leque de exportações como o de instrumentos para a cura de doentes. Com bem menos dinheiro do que o desenvolvimento de novas moléculas, o uso da química contida nas plantas poderá ampliar a farmacopéia brasileira. "Estamos falando de alopatia pura, prescrita pelos médicos, e não de medicina alternativa", afirma o pesquisador brasileiro. Segundo estimativas da FDA, agência norte-americana de controle de medicamentos e alimentos, uma nova droga produzida totalmente em tubos de ensaio não chega ao final da corrida por menos de US$ 500 milhões, considerando os erros e acertos de moléculas que não existem na natureza e os testes clínicos. "Eles desenham uma substância e não sabem como ela irá reagir, por isso precisam montar centenas para conseguir uma eficiente", explica Brandão. Já um, fitoterápico pode custar algo na casa de US$ 1 ou US$ 2 milhões, da bancada de pesquisa ao balcão da farmácia. É mais barato porque não se ignoram os milênios de evolução da vida. Todos os temperos usados na cozinha e chás contra gripe são moléculas bem adaptadas. A maior parte são venenos que as plantas desenvolveram para afastar um inimigo em especial, seja uma espécie de pulgão, sejam fungos. O própolis, por exemplo, é um antibiótico com milhares de anos de experiência na defesa do mel das abelhas, um caldo de cultura excelente para colônias de bactérias parasitas. "Mas nós temos de estudar qual é, o melhor meio para usá-lo contra as infecções na garganta", diz Brandão. Qual a concentração ideal do princípio ativo ou a forma a ser ministrada, bala, xarope, solução, drágeas. A natureza, porém, fez a maior parte do trabalho. No início da carreira, Brandão buscava uma maneira de resolver enjôos de mulheres grávidas, sem o perigo de passar substâncias tóxicas para o feto. Foi, então, apresentado ao Eparema, um produto tradicional feito com boldo, ruibarbo e cascara sagrada. "Prescrevi a droga com muito sucesso e, anos mais tarde, meu primeiro ensaio clínico foi justamente sobre o Eparema", conta. "É o destino." Hoje, Brandão abriu uma assessoria para orientar fabricantes de remédios em testes clínicos e estudos científicos, a Medinfar. Ele participou também da formação das regras sobre o registro e comprovação de eficácia, preparadas durante a administração Adib Jatene. "Foi um trabalho que envolveu técnicos do governo, empresas, profissionais e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência", conta. A legislação saiu sob a forma da portaria 6, de 31 de janeiro de 95, que permite a venda de fitoterápicos registrados na categoria OTC - medicamentos que podem ser usados pelo próprio paciente para resolver problemas autodiagnosticáveis, como digestivos e tranqüilizantes leves. Esses produtos devem ter escrito no rótulo que o Ministério da Saúde aguarda a comprovação de sua eficácia e que a venda é permitida por causa de indícios resultantes do uso tradicional da droga. Enquanto isso, essas drogas devem ser testadas com base nas regras para ensaios clínicos previstas na portaria de número 196/96. Segundo Brandão, é um erro dizer que apenas grandes laboratórios multinacionais têm recursos para demonstrar cientificamente a eficácia de seus produtos, com exames clínicos envolvendo algumas centenas de pacientes. Nas contas de Brandão, uma bateria de testes sai por volta de R$ 400 mil e é um instrumento vital para entrar no chamado "mercado ético", o dos remédios prescritos por médicos. Isso aconteceu com o tranqüilizante Laitan, de fabricação alemã e importado pela Byk Química e Farmacêutica. Segundo a gerente médica de produtos da Byk, Maristela Sampaio, as vendas evoluíram rapidamente por causa da comprovação científica. Para ela, com as pesquisas feitas com metodologia correta, publicadas em revistas científicas, o médico não hesita em usar produtos naturais. Afinal, as penicilinas e o interferon saíram de plantas. "O Buscopan é uma beladona", conta. A resistência do público também começa a ser vencida. "O médico brasileiro era muito avesso à fitoterapia porque queria se afastar da tradição dos chás", diz Oswaldo Silva Filho, presidente dos Laboratórios Catarinense, com 53 anos de atividade. Segundo ele, os pacientes também contribuíam com o preconceito, ao duvidar se vale mesmo a pena pagar pela consulta e sair com uma receita à base de ervas, o que soa como curandeirismo. "Isso está mudando em todo o mundo e nós temos tecnologia para explorar a biodiversidade brasileira", afirma Silva. O Catarinense faturou US$ 26 milhões em 1997 e investiu US$ 2 milhões em pesquisa e desenvolvimento. "Nós temos um convênio com a Universidade Federal de Santa Catarina para analisar as propriedades de cada lote de nossos extratos e fazemos uma parceria com a Embrapa e a Emater para que o cultivo seja feito com padrões rígidos", diz Silva. Segundo ele, os apicultores e agricultores brasileiros são bastante preparados. O mel argentino, por exemplo, diz, costuma vir com traços muito fortes de pesticidas. Silva conta fazer os testes clínicos desde 1992, com produtos como o Melagrião e o Catuama, que estão há mais de 20 anos nas prateleiras. Esse esforço é necessário também para manter o espaço conquistado na Europa. "Entrar no mercado alemão é mais difícil do que nos Estados Unidos, onde o controle é muito menor." A Europa está passando por uma mudança na legislação sobre produtos fitoterápicos. Na Alemanha, um comitê especializado da Autoridade Alemã de Drogas (Komission E) era o responsável pela publicação de monografias com dados sobre a segurança e eficácia de plantas. A Gazeta Federal Alemã publicou 23 desses estudos, o que permite a venda de produtos baseados nas indicações previstas nos textos. A França tem uma lista semelhante, com 200 plantas catalogadas. Com a unificação européia, segundo a diretriz 65/65, os medicamentos de extratos vegetais serão tratados da mesma forma que os sintéticos e deverão ter provas científicas da qualidade, segurança e eficácia. Um exemplo da riqueza farmacêutica que a criatividade dos cientistas brasileiros pode extrair das matas é uma vela que começa a ser produzida pelo Laboratório Farmacêutico de Pernambuco (Lafepe). Misturado à parafina, há um repelente a mosquitos eficiente contra o Aedes, transmissor da dengue; o Anopheles, da malária; e o Culex, que carrega a verminose filaria, causadora da elefantíase. O produto, desenvolvido pela farmacêutica Gisleine Pereira, da Fundação Oswaldo Cruz, afasta os insetos enquanto queima e temi ação residual de mais de um mês. Gisleine sabia que os índios amazônicos espantam mosquitos ao queimar a casca e as sementes da andiroba, uma árvore de 20 metros de altura, cujo nome científico é Carapa guianensis. A farmacêutica desenvolveu um processo industrial para levar essas propriedades aos lares brasileiros. Ela extraiu o óleo dos frutos da árvore, que são misturados à parafina. Cada vela custará R$ 0,30 e começará a ser vendida ainda neste ano. PRAZO PARA TESTE É DE DEZ ANOS Com prazo de dez anos para testar cientificamente todos os medicamentos fitoterápicos no Brasil, segundo as regras previstas na portaria nº 116/96 do Ministério da Saúde, os laboratórios já conduzem experimentos sobre as marcas, algumas delas com mais de 20 anos no mercado. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia e professor da Faculdade de Medicina da Fundação ABC, Eric Roger Wroclawski, o estudo que não deixa dúvidas para a comunidade científica é o duplo cego prospectivo randomizado. Randomizado porque o papel do paciente na pesquisa é decidido por sorteio. Prospectivo porque o objetivo do estudo é definido durante seu planejamento. E duplo cego porque nem o médico que aplica a medicação e faz todos os exames nem o paciente sabe se está usando a droga em teste ou uma pílula sem efeito, conhecida como placebo. "Os urologistas prescrevem há décadas fitoterápicos para tratar a próstata baseados apenas no uso tradicional", diz Wroclawski. "Fico feliz em saber que a lei agora obriga a realização dos testes", comenta. Os medicamentos fitoterápicos usados pelos urologistas são o Prostemplus, o Permixon e o Eviprostat. Wroclawski realiza testes duplo cego do Viagra, uma droga sintetizada prescrita para tratar impotência. Ele conta que os urologistas não costumam usar um fitoterápico com indicação para corrigir falhas na ereção, que deverá ser testado em duplo cego ainda este ano: o Catuama - um composto dos extratos de guaraná, gengibre e catuaba. TESTES Durante testes clínicos inconclusivos realizados no Hospital do Coração, em São Paulo, a droga apresentou indícios de ajudar os pacientes que tomam anti-hipertensivos - além de prejudicar o desempenho sexual, esses medicamentos são a maior contra-indicação ao uso do Viagra -, e foi o fator responsável pelas mortes que envolveram o remédio. Nos estudos com poucas dezenas de doentes do Hospital do coração, a capacidade de ereção subiu de 11% nos pacientes para 66% com o uso do Catuama. "A sugestão psicológica é muito grande nos casos de impotência, por isso o duplo cego é indispensável nesses casos". O Catarinense, que irá concluir um duplo cego do Melagrião no tratamento de asma na próxima semana, já está preparando um protocolo para o Catuama em hipertensos. Essa é a fase final da bateria de testes, que começou com o exame de toxicidade em roedores e não roedores, feito na Universidade Federal de Santa Catarina e publicado na revista Phytotherapy Research. Em seguida, os ensaios de toxicidade foram feitos pela Universidade de Campinas, com 24 mulheres e 24 homens sadios, para anotar efeitos colaterais. Segundo a portaria do Ministério, é necessário envolver ao menos 14 voluntários, mas os cientistas acreditam ser indispensável usar, no mínimo, 24. Os pesquisadores da Unicamp, não encontraram efeitos adversos importantes no uso do Catuama. A Unicamp também verificou a eficácia in vitro do xarope sobre tiras de 2 centímetros de corpus cavernosum (estruturas localizadas no interior do pênis que ficam repletas de sangue) retirados de quatro pacientes.