Células-tronco retiradas de pacientes de diabete foram capazes de 'reiniciar' os sistemas imunológicos deles, permitindo que 14 entre os 15 observados passassem meses e até anos sem precisar de insulina, mostrou um estudo de pesquisadores norte-americanos e da Universidade de São Paulo publicado na edição de terça-feira do Journal of the American Medical Association (Jama).
Os pesquisadores não afirmam ter curado os pacientes, mas dizem que o experimento mostra ser possível ao menos interromper a resposta imune equivocada que destrói as células produtoras de insulina na diabete tipo 1.
'Isso vai gerar polêmica, interesse e entusiasmo,' disse numa entrevista por telefone Richard Burt, da Universidade do Noroeste de Chicago.
A diabete tipo 1, também chamada de diabete juvenil, é muitas vezes observada em crianças, e tem causas diferentes da diabete tipo 2, associada à obesidade e ao sedentarismo. A diabete tipo 1 é uma doença auto-imune, causada pela destruição inadvertida das chamadas células ilhotas, do pâncreas, que produzem a insulina. Os pacientes quase sempre têm de tomar insulina diariamente para controlar os níveis de açúcar no sangue.
A equipe de Burt trabalhou com 15 adultos recém-diagnosticados com a diabete do tipo 1. Ele e o dr Julio Voltarelli, da USP, destruíram, com remédios, a medula óssea dos pacientes, zerando seus sistemas imunológicos, segundo descreveram no Jama.
'Não usamos aqueles regimes intensivos que se usa no câncer. É muito menos violento para o corpo -- bem mais tolerável', disse Burt.
Eles filtraram células-tronco adultas do sangue dos pacientes. Essas células, chamadas células-tronco hematopoiéticas, dão origem aos glóbulos brancos do sistema imunológico.
Burt disse que a equipe não fez nada de especial para encontrar tipos específicos de células-tronco. Apenas injetou em cada paciente uma mistura de suas próprias células-tronco, depois de o sistema imunológico ter sido zerado. O método é denominado transplante autólogo não-mieloablativo de células-tronco hematopoiéticas.
O experimento fracassou no primeiro paciente. 'Usamos esteróides', disse Burt. Nos 14 seguintes, os esteróides não foram usados.
'Noventa e três por cento dos pacientes obtiveram períodos diferentes de independência da insulina e a toxicidade do tratamento foi baixa, sem mortalidade', escreveram os autores.
Os cientistas acreditam que o tratamento tenha 'reiniciado' o sistema imunológico, pelo menos temporariamente, mas não têm provas concretas disso, apenas a indicação dos resultados clínicos.
Um dos pacientes ficou sem insulina por quase três anos, quatro por dois anos e outros por vários meses.
A pesquisa foi financiada pela USP, pelo Ministério da Saúde, pela Fapesp e pelo CNPq, entre outros.