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A Tribuna (Santos, SP)

Aumento de desastres preocupa

Publicado em 06 julho 2008

Especialistas reunidos na Universidade de São Paulo, esta semana, ressaltam a importância do trabalho de prevenção. Além de provocarem milhares de mortes no mundo todos os anos, os desastres naturais afetam a economia.

525 ocorrências foram registradas no site da Secretaria Nacional de Defesa Civil no ano de 2007. Se tiver um escorregamento na Serra do Mar, que estrago vai provocar no PIB do país? - Agostinho Tadashi Ogura Geólogo do IPT

 

Deslizamentos, inundações, alagamentos, sismos, terremotos, vendavais, tempestades. Esses são alguns dos exemplos de desastres naturais mais comuns no Brasil e no restante do mundo, fazendo milhares de vítimas entre feridos, mortos e desabrigados.

E não é exagero afirmar que essas ocorrências têm aumentado no País. Para se ter idéia do crescimento, basta acessar a página na Internet da Secretaria Nacional de Defesa Civil. O site possui sistema de cadastro de desastres naturais que acumula as informações. Somente neste ano (até 27 de junho, data da última atualização) já foram registrados 459 acidentes em todos os estados brasileiros. O número está próximo do total de 2007, quando 525 desastres foram contabilizados.

A principal justificativa para tantos episódios é a mudança climática a que vem sendo submetido o planeta, resultado principalmente da ação do homem. Preocupados com esse cenário, especialistas se reuniram nesta semana na Universidade de São Paulo (USP) para o II Encontro Nacional sobre Mudanças Climáticas e Defesa Civil.

O evento, realizado pela Associação Brasileira de Ecologia e Prevenção à Poluição, Escola Politécnica da USP e Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), contou com várias palestras e foi unânime em destacar a importância do trabalho de prevenção -- que pode incluir desde simples observação até tecnologia capaz de enviar alertas sobre possíveis desastres, e da Defesa Civil.

Para ressaltar a importância da prevenção, o diretor de reabilitação e reconstrução da Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec), do Ministério da Integração Nacional, José Luis D’Ávila Fernandes, explicou que do orçamento deste ano para a pasta (sem contar com as emendas parlamentares), R$ 42 milhões estão destinados ao programa de preparação para desastres, e apenas R$ 333.000 para respostas aos desastres e reconstrução.

“As mudanças climáticas estão aí, e cada vez mais as Defesas Civis serão acionadas. Por isso, devem se preparar'', alertou.

A capacitação dos recursos humanos de Defesa Civil “é a nossa menina dos olhos'', reforçou Luis Massao Kita, que é secretário-chefe da Casa Militar do Palácio dos Bandeirantes e Coordenador Estadual de Defesa Civil de São Paulo.

Kita destacou a importância de preparar a população para situações de risco, e que o caminho para isso é a divulgação da doutrina da entidade. “A médio prazo precisamos criar o sistema de serviço voluntário da Defesa Civil''.

Santos

Trabalho de prevenção de desastres é realizado em Santos todos os anos. Entre 1º de dezembro e 30 de abril, a Prefeitura realiza na área dos morros da Cidade, o Plano Preventivo da Defesa Civil (PPDC). O modelo, baseado no acompanhamento das chuvas, possibilita medidas preventivas que evitem ocorrências fatais, já que tenta se antecipar a escorregamentos de solo e queda de blocos rochosos. O trabalho envolve geólogos, engenheiros civis e outros técnicos, além de moradores das áreas de risco.

Conforme informações divulgadas pela Defesa Civil, entre 2006 e 2007 foram registradas 70 ocorrências na Cidade durante a operação do PPDC. A maior parte de escorregamento de solo. Dois anos antes, entre dezembro de 2004 e abril de 2005, 123 casos foram contabilizados pela Defesa Civil.

Ocorrências no Litoral

1928 - No dia 10 de março, uma chuva torrencial fez deslizar 130 mil metros cúbicos de terra pela encosta do Monte Serrat, soterrando oito casas e mantando 81 pessoas. O acidente natural é até hoje um dos maiores em números de vítimas na história de Santos

1956 - Dia 1º de março um deslizamento de terra do Morro Santa Terezinha atingiu casas do Marapé, matando 22 pessoas (a maioria mulheres e crianças). Naquele dia foram oito horas de chuva ininterruptas Dias depois (24 de março), os novos deslizamentos registrados no Embaré, Santa Terezinha, São Bento, Penha, Pacheco, Fontana e Monte Serrat deixaram saldo de 37 mortos e 102 feridos

1967 - a madrugada de 18 de março, uma tromba d'água atingiu Caraguatatuba e provocou centenas de deslizamentos na Serra do Mar. A serra avançou sobre a cidade despejando milhares de toneladas de lama e vegetação. Apesar de não existir registro oficial sobre o número de mortos, estima-se mais de 400 vítimas fatais 2008 No dia 13 de janeiro, fortes chuvas que atingiram cidades do Litoral Sul e Vale do Ribeira deixaram 12 mil desabrigados. Com as inundações, mais de cinco mil casas ficaram danificadas

Sistema vai monitorar e disparar alerta

A partir do dia 11 um software começa a auxiliar a prevenção de desastres naturais. Trata-se do Sistema de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). O sistema é o produto final do Projeto Serra do Mar, pesquisa que envolve várias entidades e que foi iniciada há três anos com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Conforme a coordenadora do Projeto Serra do Mar, Chou Sin Chan, o objetivo do sistema é refinar a previsão de chuvas e de possíveis ocorrências. “A idéia é buscar o máximo possível de informação, com medidas locais através das estações (metereológicas e hidrológicas), levantamento por satélite e também através de modelos. A gente quer entender qual é a condição atmosférica que gera aquelas situações de chuva mais extremas, mais críticas''.

Para que o sistema de alerta funcione depende de várias informações. Parte delas é coletada pelas estações que estão sendo instaladas ao longo do litoral e em outras cidades do Estado

Segundo Chou, a estação faz a medida e quando percebe que está chovendo muito forte envia essa informação para o software, que combina com outros dados (previsões de modelos e satélites) e interpreta. Se o sistema concluir que há perigo de desastre, dispara um alerta por mensagens de e-mail ou por celular para a Defesa Civil, por exemplo.

Esta é a primeira versão do programa, que por enquanto vai funcionar como protótipo para um sistema de alerta para deslizamentos. Mas depois de desenvolvido poderá ser aplicado para outros tipos de risco. O download do programa é livre e pode ser usado por qualquer prefeitura ou empresa.

Uma das primeiras cidades que deve se beneficiar com o sistema é Cubatão. Segundo o secretário-executivo da Subcomissão Especial de Restauro da Serra do Mar (órgão vinculado a Secretaria de Estado do Meio Ambiente), Marco Antonio José Lainha, apesar do plano de contingência realizado pelo grupo todos os anos entre dezembro e março (com foco no pólo industrial), o novo programa deve incrementar o monitoramento da área. “Será uma informação mais confiável, já que existem pontos obscuros entre a Serra e o Planalto. Essas informações vão subsidiar as tomadas de decisões''.

Compromisso deve ser geral, diz Mills

“Todos precisam estar com prometidos com os sistemas de prevenção e resposta aos desastres''. O alerta é do diretor geral da International Union of Air Pollution Prevention and Environmental Protection Associations (Iuappa), Richard Mills, que participou do Encontro Nacional sobre Mudanças Climáticas e Defesa Civil realizado nesta semana na USP. O especialista chamou atenção para o número de grandes desastres naturais no mundo que vem aumentando ano após ano.

O principal causador desses desastres é o clima. Acidentes relacionados as mudanças climáticas são mais comuns do que os geológicos. Diante desse cenário, o especialista afirma que é preciso mudar comportamentos e trabalhar sobre metas em escala internacional.

Entre as medidas propostas por Mills estão tornar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas uma área prioritária na cooperação internacional, ampliar a ajuda internacional e sua eficácia, e redefinir desenvolvimento sustentável de forma a tornar a capacidade de sobreviver aos desastres um objetivo importante.

Já em escala nacional, Mills sugeriu que sejam adaptados os programas de infra-estrutura para refletirem as novas condições urbanas, a defesa contra inundações e os sistemas de drenagem. “A cidade é a escala mais importante para as políticas de adaptação aos novos desafios'', por isso  “é preciso ampliar a troca de experiência, conhecimentos e técnicas entre líderes da sociedade, planejadores e defesa civil''.