Notícia

O Jornal da Região (Andradina, SP)

Aumento de casos de câncer está relacionado ao excesso de peso

Publicado em 18 maio 2018

Pelo menos 15 mil casos de câncer por ano no Brasil – ou 3,8% do total – poderiam ser evitados com a redução do excesso de peso e da obesidade. Esse número deve crescer até 2025, quando se estima que mais de 29 mil novos casos de câncer devem ser diagnosticados. Desses, 4,6% possivelmente serão atribuídos ao sobrepeso e obesidade no país.

Essa é uma das conclusões de um estudo epidemiológico feito no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em parceria com a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos e Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O resultado foi publicado na revista científica Cancer Epidemiology, em março de 2018. O trabalho confirmou que a obesidade e o excesso de peso estão associados ao aumento do risco de vários tipos de cânceres: mama, cólon e reto, útero, vesícula biliar, rim, fígado, ovário, próstata, mieloma múltiplo (células plasmáticas da medula óssea), esôfago, pâncreas, estômago e tireoide.

Taxas do IBGE – Os pesquisadores usaram taxas de Índice de Massa Corporal (IMC) obtidas pelo censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2002 e 2013 de todos os Estados brasileiros. Em 2002, o excesso de peso ou obesidade atingiam 40% da população brasileira. Em 2013, a situação correspondia a cerca de 60% dos brasileiros.

A partir desses índices e de uma série de outras fontes de informação (como Instituto Nacional de Câncer – Inca, base de dados da Globocan da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde – OMS), os pesquisadores fizeram cálculos complexos para estimar os casos de câncer do presente e do futuro associados ao sobrepeso e obesidade em comparação aos indivíduos com peso normal.

O trabalho faz parte do doutorado de Leandro Fórnias Machado de Rezende, no Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Ele é orientado pelo professor José Eluf Neto e conta com colaboração da pesquisadora científica Renata Bertazzi Levy.

Uma das estimativas resultantes do trabalho é que, em 2012, cerca de 10 mil casos de câncer entre as mulheres e 5 mil em homens foram atribuídos ao excesso de peso e à obesidade. Outra conclusão é que os tipos de câncer que mais contribuíram com casos atribuíveis ao excesso de peso e obesidade foram câncer de mama (4.777), útero (1.729) e cólon (681) em mulheres; e cólon ( 1.062), próstata (926) e fígado (651) em homens.

Risco dos ultraprocessados – Os Estados brasileiros com maior número de pessoas com a doença associada ao excesso de peso foram São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. “Esses estados foram os que apresentaram maior excesso de peso e obesidade em 2002, por isso as estimativas de casos de câncer também foram maiores nessas localidades”, salienta.

Na avaliação de Rezende, o estudo é importante porque a relação entre aumento de peso e risco de câncer é desconhecida entre a população e precisa ser mais disseminada: “Já os riscos do tabagismo, associado à principal causa de alguns tipos de câncer no Brasil, são mais conhecidos entre as pessoas”. Ele diz que fatores ambientais e sociais também influenciam o aumento de peso, entre eles a elevada oferta de alimentos ultraprocessados (macarrão e tempero instantâneos, batata frita pronta, suco de caixinha, refrigerantes, nuggets de aves e peixes, dentre outros) e isso precisa ser mais discutido.

Para o professor Eluf Neto, um dos pontos positivos desse trabalho é aproveitar os dados brasileiros de amostra domiciliar por região (atualizados frequentemente) do IBGE, que são de boa qualidade, e aplicar fórmula específica para estimar o número de casos de câncer. “Além disso, acho importante a oportunidade para discutir políticas públicas visando a melhorar a qualidade de vida dos brasileiros e não apenas culpar o cidadão pela sua obesidade”.

Intervenção política – Eluf Neto diz que em Nova York, por exemplo, existe elevada taxação para quem compra refrigerante de dois litros em comparação com a taxa para bebida vendida em tamanho menor: “Aqui no Brasil não existe essa preocupação. A grande questão é taxar o que faz mal à saúde e influencia a obesidade”.

Segundo projeções da IARC, devido ao aumento e envelhecimento populacional no Brasil, existe previsão de que o número de novos casos de câncer (que eram 430 mil em 2012) passe para 640 mil em 2025.

Para Rezende, os pesquisadores já sabiam que o excesso de peso e a obesidade estavam aumentando no Brasil, no entanto, a magnitude de casos de câncer relacionados a esse aumento se mostrou alarmante.

Na visão deles, alimentação saudável e vida ativa são fatores primordiais para combater a obesidade. No entanto, ressaltam a necessidade de haver intervenções e políticas públicas dirigidas à área e citam como exemplo a regulamentação da produção, da venda, do marketing e da rotulagem de alimentos ultraprocessados.

Em relação à atividade física, Rezende afirma que é necessário se investir em ações como construções de ciclovias, calçadas largas e parques de forma a estimular a população a se engajar em atividades físicas, substituindo, por exemplo, o transporte individual motorizado por deslocamentos a pé ou de bicicleta nos percursos de casa para o trabalho ou para a escola.