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Jornal da Ciência online

Aumentar o diálogo com a sociedade é uma questão de sobrevivência para a ciência brasileira

Publicado em 04 junho 2019

Editorial da revista Cadernos de Saúde Pública traz um debate vital sobre a importância e necessidade vital de a ciência brasileira dialogar e ampliar sua base social no conjunto da sociedade

Em tempos de dotações orçamentárias mais baixas dos últimos 15 anos e criminalização da atividade de cátedra e do livre pensar, as pesquisadoras Luisa Massarani, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, e Cristina Araripe, também da COC/Fiocruz, assinam editorial da edição de junho (vol.35 no.6) da Cadernos de Saúde Pública, que traz um debate vital sobre a importância e necessidade vital de a ciência brasileira dialogar e ampliar sua base social no conjunto da sociedade.

Leia abaixo na íntegra ou aqui, na publicação original.

“Em fins de março, um anúncio feito pelo atual governo caiu como uma bomba na comunidade científica: um “congelamento” de 42% no orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações.

O anúncio não era apenas contraditório com as promessas de campanha – o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro prometeu passar de 1,2% para 3% do PIB os investimentos em ciência -, mas também uma pá de cal em uma situação que já era de penúria.

Antes mesmo do corte, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) já tinha anunciado que os recursos então disponíveis só seriam suficientes para pagar as bolsas de pesquisa até setembro de 2019.

É o menor orçamento para investimentos para a pasta nos últimos 15 anos. O país vai, assim, na contramão do que tem sido feito por países como a China, que passou de 0,563% do PIB em 1996 para 2,1% o valor destinado à ciência 1.

Ato contínuo, o governo brasileiro anunciou um corte de cerca de 30% no orçamento das universidades públicas, nas quais pelo menos 90% da pesquisa brasileira são realizadas. Além disso, trata-se de um retrocesso no acesso ao ensino universitário: segundo o último Censo da Educação Superior – Notas Estatísticas de 2017, foram oferecidas cerca de 10,7 milhões de vagas em cursos de graduação, sendo 73,3% vagas novas.

A situação é ainda mais grave em termos de orçamento federal quando se leva em conta a mudança constitucional que estabelece um teto para os gastos nos próximos 20 anos, dinamitando as esperanças de que no ano que vem a situação possa ser diferente.

Nos estados, a situação também é grave. Quase todos os estados brasileiros têm, no momento, uma fundação de amparo à pesquisa (FAPs), fruto de um movimento que se intensificou a partir da década de 1980 para se criar uma organização nos estados seguindo o modelo bem-sucedido da Fapesp (São Paulo) que, desde os anos 1960, atrela recursos destinados a C&T ao orçamento estadual. No entanto, várias dessas FAPs estão no momento à deriva.

Além da situação em si de morte anunciada, a sensação de frustração é ainda maior quando lembramos que, em um passado não muito distante, vimos a Ciência brasileira alcançando patamares respeitáveis no cenário internacional, resultado de políticas de apoio ao setor.

Ilustrativo disso é o fato de que o Brasil, no período de 2011 e 2016, ocupou o 13º lugar no ranking mundial de produção de publicações científicas 2. Embora ainda abaixo da média mundial, o país aumentou em 15% o impacto de citação no período.

Ciência na corda bamba:

Tão grave quanto a redução drástica de recursos é a visão de Ciência existente no momento e o reduzido status dado ao setor.

O anúncio recente de que o Brasil não deve investir nas Ciências Humanas e Sociais tem suscitado protestos efusivos no Brasil e no exterior.

Outro exemplo que mostra como a Ciência está sob ataque e passa por um momento de descrédito é o caso da fosfoetanoelamina, popularmente conhecida como pílula do câncer. Oferecida à população desde a década de 1980 por um pesquisador da Universidade de São Paulo, de São Carlos, a pílula teve sua distribuição interrompida em 2015, sob a argumentação de que não haviam sido feitos os devidos testes que comprovassem a sua eficácia.

Tendo em vista os protestos de pacientes e familiares, foram realizados testes independentes por quatro grupos de pesquisa. Os testes mostraram não haver evidências de que a pílula é contra o câncer e até mesmo poderia induzir metástases. No entanto, parlamentares de São Paulo decidiram abrir uma CPI para investigar os estudos científicos, questionando o próprio papel da Ciência.

Um outro caso que merece atenção é a vacinação – ou a falta dela.

O Brasil perdeu o certificado da Organização Mundial da Saúde (OMS) de território livre do sarampo. Em 2016, a doença foi considerada erradicada no país; em 2000, nos Estados Unidos. No entanto, a doença está crescendo a passos galopantes no globo terrestre, o que levou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) a lançar, em abril deste ano, a campanha #VacinasFuncionam, alertando para o fato de que, a cada ano, mais de 20 milhões de crianças em todo o mundo deixam de receber a vacina contra o sarampo 3.

As razões que levam à redução vacinal são variadas e incluem a falta de acesso aos serviços de saúde, mas também o medo ou ceticismo em relação às vacinas, o que tem motivado crescentes movimentos antivacinação. No entanto, em vez de culpabilizar a sociedade em nome da ignorância, talvez valha perguntar: o que estamos fazendo de errado?

Afinal, muitos desses movimentos antivacinação sistematicamente citam o estudo que correlacionou autismo e vacinação.

Ora, os resultados desse estudo foram anunciados há pouco mais de 20 anos, em 1998. Segundo a OMS, os estudos existentes mostram não existir evidências de associação entre autismo e vacinação, no caso, com a vacina tríplice. A própria revista Lancet retratou o artigo em questão em 2000. Por que, então, a mensagem que ficou no imaginário social insiste em reproduzir a ideia de risco de autismo associado à vacinação? Por que outros tantos estudos que mostraram os aspectos positivos da vacinação ganham menos espaço no imaginário social?

Os cientistas e a sociedade

O cenário é desesperador.

Mas, também, é uma chamada para a comunidade científica de que não é hora de ficar de braços cruzados. Mais do que nunca, é fundamental realizar ações que aumentem o diálogo entre a comunidade científica e a sociedade.

Não é a primeira vez que isso acontece. Na década de 1920, a então comunidade científica embrionária se mobilizou no escopo da Academia Brasileira de Ciência e consolidou uma série de iniciativas de divulgação científica, incluindo a criação da primeira rádio brasileira, para mostrar aos cidadãos comuns e aos tomadores de decisão que a Ciência tinha um papel central a ser evidenciado.

Um estudo recente realizado com bolsistas de produtividade brasileiros mostrou que cientistas brasileiros têm participado de atividades de divulgação científica, dando palestras para o público geral e entrevistas para a mídia 4. Mas têm sido pouco proativos para manter um diálogo direto e constante com a sociedade e os tomadores de decisão.

Igualmente relevantes são as ações que buscam dar visibilidade à importância da Ciência para o desenvolvimento econômico e social do país que, por serem ainda tímidas e frágeis, não conseguem mostrar que a inovação e a criatividade formam a base para o crescimento tecnológico e industrial das nações modernas.

De uma perspectiva mais ampla, no campo da saúde, da educação e do meio ambiente, os cientistas brasileiros têm respondido, com compromisso histórico, aos desafios de produzir conhecimento para o enfrentamento das desigualdades e iniquidades que atingem em cheio a população mais desfavorecida do país.

Nesse sentido, um exemplo recente foi o caso da epidemia do vírus zika e o aparecimento de casos de microcefalia, em que houve alocação de recursos para pesquisa e a comunidade científica respondeu prontamente, gerando conhecimentos científicos que foram decisivos para o enfrentamento da doença.

A hora é esta. Precisamos nos mobilizar e mostrar para a sociedade e para os tomadores de decisão que a Ciência é, sim, relevante para o desenvolvimento do país.”

REFERÊNCIAS

World Bank. Research and development expenditure (% of GDP).https://data.worldbank.org/indicator/GB.XPD.RSDV.GD.ZS?locations=CN(acessado em 07/Mai/2019). [ Links ] Cross D, Thomson S, Sinclair A. Research in Brazil. A report for Capes by Clarivate Analytics.https://www.capes.gov.br/images/stories/download/diversos/17012018-Capes-InCitesReport-Final.pdf(acessado em 07/Mai/2019). [ Links ] Fundo das Nações Unidas para a Infância. A cada ano, mais de 20 milhões de crianças em todo o mundo não recebem a vacina contra o sarampo. https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/cada-ano-mais-de-20-milhoes-de-criancas-em-todo-o-mundo-nao-recebem-vacinas(acessado em 08/Mai/2019). [ Links ] Massarani L, Peters HP. Scientists in the public realm: interactions of scientists and journalists in Brazil. An Acad Bras Ciênc 2016; 88:1165-75. [ Links ]