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Aumentam casos de distúrbios de sono que podem causar Alzheimer

Publicado em 23 julho 2019

Por Elton Alisson, de Campo Grande (MS)  |  Agência FAPESP

Perder a memória e "não dormir bem" tem relação direta. O cérebro precisa descansar. Na The Lancet Neurology de março há dois estudos sobre o tema que sugerem que evidências têm mostrado que o distúrbio do sono contribui para o declínio cognitivo e também pode aumentar o risco de demência da doença de Alzheimer, aumentando a carga de ß-amiloide.

Até recentemente, as alterações do sono eram geralmente consideradas uma conseqüência da doença de Alzheimer, mas através de estudos recentes essa correlação têm mudado e o distúrbio do sono está considerado um fator de risco para a doença de Alzheimer.

A relação bidirecional entre o sono e a doença de Alzheimer é apoiada por avanços na compreensão de que o aumento induzido pela perturbação do sono na inflamação sistêmica, que pode ser visto como um evento precoce no curso da doença de Alzheimer. A inflamação aumenta a carga de ß-amiloide e acredita-se que conduza a patogênese da doença de Alzheimer.

O número de pessoas, de diferentes faixas etárias, que apresentam distúrbios do sono tem aumentado vertiginosamente em diversas partes do mundo nas últimas décadas.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, uma em cada três pessoas tem apneia obstrutiva do sono, condição em que a respiração para e volta diversas vezes enquanto se está dormindo.

Os dados, que fazem parte da pesquisa “Episono São Paulo”, foram apresentados por Monica Levy Andersen, pesquisadora do Instituto do Sono da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), durante palestra na 71ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Com o tema “Ciência e inovação nas fronteiras da bioeconomia, da diversidade e do desenvolvimento social”, o evento ocorre até sábado (27/07) no campus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande.

“Conhecemos mais de 80 distúrbios do sono, como a apneia obstrutiva, insônia, bruxismo, sonambulismo e parassonia [caracterizada por movimentos anormais durante o sono], que são os mais prevalentes”, disse Andersen.

“Além de preexistir em algumas pessoas, esses distúrbios ainda podem ser agravados pelo ritmo de vida da sociedade atual, denominada 24/7/365 – em que as pessoas não funcionam bem durante as 24 horas dos sete dias da semana e dos 365 dias do ano”, disse a professora da Unifesp.

Ela destaca que a geração Z – composta por pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 até o início dos anos 2010 – é a mais acometida pela falta de sono. Algumas das razões para isso seriam que essa geração foi diretamente atingida pela quarta e última grande onda causadora da privação do sono na sociedade moderna: a criação da web e a popularização da internet, a partir de 1995.

As outras três ondas foram a Revolução Industrial – com o surgimento de mais um turno de trabalho –, o advento da luz elétrica, em 1879, e o advento da televisão, na década de 1920.

“Nada foi mais revolucionário e teve um impacto tão grande na privação do sono como a internet, e a geração Z é a mais permeada por ela”, disse Andersen.

É nessa geração que também se observa o maior consumo de substâncias para inibir ou retardar o sono, apontou a pesquisadora. Entre os jovens tem crescido o consumo de bebidas energéticas, por exemplo, juntamente com bebidas alcoólicas.

As bebidas energéticas têm poucas substâncias estimulantes, como a taurina e a cafeína. O efeito delas na privação do sono, contudo, é potencializado pela ação do álcool das bebidas destiladas com as quais são misturadas, explicou Andersen.

“O álcool priva a execução dos sonhos, que ocorrem durante quatro ou seis vezes durante o sono e têm duração total de, mais ou menos, 90 minutos. E os sonhos são importantes porque proporcionam o bem-estar físico e psicológico. Mas não se sabe ainda qual o mecanismo que faz com que o álcool prive as pessoas dos sonhos”, disse.

Privação do sono em crianças

As crianças representam outra parcela da população que tem sido muito acometida pela privação do sono e que mais tem preocupado os pesquisadores da área.

Andersen citou estudos que apontam que 60% das crianças são privadas de sono atualmente. Entre as principais causas estariam o uso excessivo de dispositivos eletrônicos, como tablets e smartphones.

“Uma criança com 5 a 7 anos deveria dormir entre 9 e 11 horas por noite, mas a maioria dorme muito menos do que isso”, disse.

Algumas das consequências do sono insuficiente em crianças são a piora do rendimento escolar, aumento de peso, risco de desenvolver doenças cardiometabólicas na vida adulta e alterações comportamentais, como hiperatividade.

Enquanto em adultos a privação do sono causa sonolência e a pessoa se torna menos produtiva, em crianças a insuficiência de sono as torna hiperativas, comparou Andersen. “Crianças muito irritadas ou muito ativas sinalizam privação de sono”, disse.

Um estudo feito nos Estados Unidos mostrou que crianças que foram privadas de sono durante uma semana, em que dormiram cinco horas por noite, pioraram o desempenho em testes de atenção e tiveram menor nota do que tinham antes em testes aritméticos.

Outro trabalho mostrou que crianças com restrição de sono por mais tempo começaram a ingerir maior quantidade de alimentos e bebidas açucarados.

“A privação do sono aumenta a preferência por alimentos calóricos e a percepção da fome, em razão do incremento da produção do hormônio da fome e a diminuição do hormônio da saciedade”, explicou Andersen.

Além de alterar o humor, afetar a memória e a atenção e aumentar a predisposição a doenças cardiometabólicas, como o diabetes, a privação de sono pode afetar o sistema imunológico.