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Augusto Damineli: "Estamos bem, mas somos muito poucos"

Publicado em 14 janeiro 2019

Augusto Damineli é um dos principais astrofísicos brasileiros e pesquisadores dos fenômenos que envolvem a estrela Eta Carinae, a mais brilhosa da Via Láctea. O professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) falou ao Ciência & Saúde sobre suas recentes descobertas e o atual cenário da astrofísica brasileira, que, para ele, sofre com a falta de contratação de cientistas nas universidades devido à crise econômica, além das perspectivas políticas com o novo governo que se inicia.

O POVO: O senhor já fez descobertas importantes sobre a estrela Eta Carinae. Como estão as suas descobertas nesse campo de estudo?

Augusto Damineli: Minhas duas descobertas mais recentes são: quando a estrela menor do sistema duplo de Eta Carinae se aproxima da maior (a cada 5,5 anos), ela penetra em sua atmosfera e sai pelo lado de trás. De nosso lado, vemos o buraco produzido pelo fenômeno por algumas semanas, que depois se fecha novamente. A outra descoberta é que o aumento constante de brilho que Eta Carinae está apresentando não vai levar a estrela a uma nova explosão como a que aconteceu em 1847. O aumento de brilho não é intrínseco à estrela. Ele é causado pela dissipação de uma "nuvenzinha" de poeira que fica bem em frente da estrela. Essa "nuvenzinha" vai desaparecer completamente dentro de 10 a 20 anos. Aí a estrela vai parar de aumentar de brilho e poderemos ver claramente o par de estrelas que forma eta Carinae.

OP: Qual o papel do Brasil hoje no mapa mundial da astrofísica?

Augusto Damineli: O número de astrônomos profissionais ativos em Astronomia (que publicam nas revistas mais importantes do mundo) é por volta de 300, ou seja, cerca de 1% da área mundial. O número de artigos científicos por cientista, entretanto, é o dobro da média mundial. Estamos bem, mas somos muito poucos. A Espanha, por exemplo, tem um PIB menor e sete vezes mais astrônomos.

OP: Como avalia o cenário da astrofísica no Brasil?

Augusto Damineli: A Astrofísica no Brasil começou no final dos anos 1960, tempo bem curto comparado com os países de "primeiro mundo", onde esta área tem séculos de atividade. Nestes 50 anos no Brasil, a área mostrou um excelente desempenho em pesquisas e formação de pessoal. A partir do ano 2000, nos tornamos sócios de grandes telescópios como os Gemini (2 telescópios de 8m) e o Soar (com espelho de 4m). O último elo da cadeia é a construção de instrumentos. Eles exigem tecnologia de ponta e puxam o desenvolvimento industrial. Nos últimos 10 anos, entramos nesta fase, através do Laboratório Nacional de Astrofísica do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil) e tivemos uma boa experiência. A construção de instrumentos (câmaras e espectrógrafos) para a próxima geração de telescópios vai exigir que subamos um degrau bem mais alto do que temos subido até agora.

OP: Sobre o investimento público, quais as perspectivas para os próximos anos no novo governo?

Augusto Damineli: O envolvimento do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia) em grandes projetos na área tem sido problemático. O acesso aos grandes telescópios desta geração tem sido mantido, mas nenhum envolvimento em projetos da próxima década - os Extremely Large Telescopes (ELTs). Tivemos uma década de formação de excelentes doutores e pós-doutores, mas que não têm perspectivas de serem contratados para continuarem na área acadêmica. Tenho visto alguns pesquisadores brilhantes serem absorvidos pelo mercado financeiro, pressionados pela necessidade de sobrevivência. A situação é um pouco melhor no estado de São Paulo. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) se tornou sócia do primeiro telescópio ELT a entrar em operação no ano 2024 - o Telescópio Gigante Magalhães (GMT), nos andes chilenos. Mas enquanto a crise econômica persistir, a falta de contratação de jovens cientistas nas universidades vai continuar a ser um gargalo para nosso desenvolvimento.

OP: O que esperar do Ministro da Ciência e Tecnologia comando pelo astronauta Marcos Ponte?

Augusto Damineli: Marcos Pontes conviveu num ambiente de alta tecnologia e ciência avançada. Nisso, ele tem vantagem em relação a muitos dos ministros de Ciência e Tecnologia recentes, que eram políticos que desconheciam a área. As instituições de pesquisa e desenvolvimento tecnológico já se reuniram com ele e apresentaram um mapa geral da área. Se isso se traduzir em progresso, só o tempo dirá, pois quem decide sobre o destino das verbas são os vários ministérios que têm interseção com Ciência e Tecnologia. É claro que além da boa vontade e conhecimento do ministro, que eu acredito que ele as tenha, vai pesar a orientação do governo como um todo e seu sucesso ou insucesso em sair da crise econômica em que nos encontramos.

OP: O senhor esteve recentemente em Fortaleza. Como foi sua passagem?

Augusto Damineli: Eu sempre me surpreendo com o Ceará. Tem uma atividade econômica forte, se vêem muitas construções recentes. O apoio governamental ao ensino é melhor que a média do País. Haja vista, por exemplo, nos planetários: o do Dragão do Mar mudou para um projetor de última geração, enquanto o principal de São Paulo foi paralisado. Fiquei muito bem impressionado com o excelente trabalho que está sendo feito para comemorar os 100 anos do eclipse de Sobral. Colocar o eclipse de Sobral no mapa internacional é ligar o Brasil à história desse grande feito científico. Isso irá entusiasmar a juventude cearense.