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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Auditório do IA recebe espetáculo de dança indiana

Publicado em 11 novembro 2010

Quando encontrar o guru indiano Manoranjan Pradhan nos corredores da Unicamp evite cumprimentá-lo com um aperto de mão ocidental. Ela pode ficar pairando no vazio. Afinal, mesmo com mais de um mês no Brasil, a reverência oriental, com mãos fechadas em reza seguida por uma leve reverência com a cabeça, ainda prevalece. De tantas feitas, quem o cumprimenta aprende e passa a usá-la também. Na tarde de terça-feira, após desencontros de cumprimentos, o dançarino indiano visitou o Auditório do Instituto de Artes. Volta nesta sexta (12) ao lugar, às 12h30, para encenar um espetáculo de dança indiana ao estilo odissi.

Em companhia de Marília Baiana, professora do Instituto de Artes e estudiosa da arte indiana, o guru atendeu a reportagem do Caderno C sentado no palco do auditório. Antes de responder as perguntas e comentar sobre sua arte, pediu dez minutos para se aprontar. Como combinado, faria uma breve apresentação para a produção das fotos desta reportagem. Enquanto começava a se maquiar, Marília Baiana, a responsável por trazê-lo ao Brasil, explicou a visita. "É um intercâmbio entre a pesquisa de meu grupo, o Ar Cênico, com a codificação da linguagem corporal para a interpretação, aspecto forte na dança indiana", conta a professora. A visita tem o apoio da Fapesp.

A maquiagem inicia com um risco na testa. Tímido e vermelho. "Simboliza que ele está abrindo a mente para a entrada de Deus", explica. Sem se atrapalhar com os ruídos externos, o guru faz um novo risco. Dessa vez, branco. "O vermelho exalta a mãe terra, o segundo a iluminação espiritual." Toda feita com pincel, a maquiagem fica pronta em instantes. Pradhan pede desculpas. Claro, em orya (dialeto falado na região onde nasceu na Índia: Orissa). "A maquiagem para dançar não é fácil desse jeito. Levam duas horas para ficar pronta", diz timidamente, o dançarino, dono de uma voz delicada.

Trajado devidamente com o doti (roupa masculina para o bailado do odissi), numa mescla entre dourado e vermelho, o próximo passo do guru é se enfeitar com prataria. Além dos brincos, coloca pulseiras, colares, braceletes e um cinto prateado trabalhado artesanalmente. Trata-se da jóia tradicional de Orissa. "Ela enfatiza o plexo solar, que fica abaixo do umbigo, ponto de nosso equilíbrio", ensina Marília Baiana. Ao usar a ótica da visão ocidental, afirma que todo mundo pode acionar tal chakra. "A maneira mais fácil é quando andamos na montanha-russa e sentimos aquilo no estômago", brinca.

Por último, Pradhan enrola uma corda de guizos nas canelas. Momento acompanhado em silêncio por Marília Baiana. O objeto sagrado só pode ser usado em apresentações. Em ensaios, jamais. "Serve para chamar os deuses. Só se coloca antes de entrar em cena." No palco, após uma reverência de entrada, o guru passeia por distintas expressões. Faz uma reverência à terra, busca um olhar arregalado, esboça a fisionomia de espanto, utiliza-se da felicidade, opta pelo deboche e, por fim, arquiteta a raiva. Enfim, mostra-se um poço de expressividade.

O programa

Após atender a um telefone da mulher, também dançarina, que está na Argentina; o guru senta-se no palco de forma refestelada. Propõe-se didaticamente a explicar todos os motivos que o estimularam a executar tais expressões. A explanação dura alguns minutos. Finaliza, em tom professoral: "Existem mais de mil expressões, entre as dos olhos, mãos e corpo, que projetam nossa expressividade", explica Pradhan, de 45 anos. Para a apresentação de amanhã, o guru preparou um programa tradicional ao estilo odissi, considerada uma das cinco danças sagradas da Índia. "Seria a capoeira para o Brasil", compara Marília.

A abertura se dá com Mangalacharan. Momento de saudar os deuses incumbidos de presidir o espetáculo, a Mãe Terra, o guru e, por fim, a plateia. Aliás, a encenação de amanhã será dedicada ao guru Gangadhar Pradhan, mestre de Manoranjan e Marília Baiana, falecido poucos depois da chegada do discípulo indiano ao Brasil. Uma grande perda, atesta a dupla. "Mas vamos dar prosseguimento aos seus ensinamentos. Ainda não sei qual será minha reação quando voltar", diz o guru. Apesar do abalo, Manoranjan buscará não se abater quando entrar em cena. Sabe da dificuldade. "O bailarino tem que está por inteiro dentro da cena. De corpo e alma. O pensamento não pode estar em outro lugar", filosofa o guru.

O programa segue com Pallavi. Trata-se de uma dança pura da técnica odissi. Instante em que a plateia aprecia o virtuosismo de movimentos do bailarino. "Prioriza a demonstração técnica do dançarino. Não há uma sequência lógica. A expressividade está pouco presente. Não é o destaque." Ao final da apresentação, o guru presenteia o público com outra dança pura: Moksha. "É um instante de iluminação. O bailarino faz nova devoção aos deuses. É uma libertação, uma salvação. Finaliza com uma bênção seguida por meditação.

Contudo, o ponto alto do espetáculo paira sobre a dança interpretativa Abhinaya. Por sinal, molda-se como o momento mais expressivo do programa. Algo próximo à dança-teatro. Esta dança pode ser influenciada tanto pela história dos deuses, quanto pelas poesias dos poetas de Orissa. "É o ponto máximo da dança indiana. Torna-se o momento ápice da interpretação do dançarino, o momento dele mostrar tudo o que aprendeu", avalia. Para ilustrar melhor a Abhinaya, o guru levanta-se rapidamente e encena a tragicômica história de um elefante que teve uma das pernas dilacerada pela mordida de um crocodilo. Instigante.

SAIBA MAIS

O quê: Dança Indiana ao estilo odissi, como o guru Manoranjan Pradhan

Quando: sexta, dia 12, às 12h30

Onde: Auditório do Instituto de Artes da Unicamp (Rua Elis Regina, 50, Cidade Universitária, Barão Geraldo, fone: 3289-1510)

Quanto: Entrada franca