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Correio Popular

Atuar junto ao mercado é o segredo

Publicado em 30 novembro 2003

O Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) é a mais nova das seis instituições de pesquisa ligadas à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta). Completou 40 anos em 2003 e mantém em sua lista as metas de colaborar para o desenvolvimento da inovação tecnológica no País, contribuir para aumentar a competitividade dos setores ligados ao agronegócio, oferecer soluções confiáveis ao setor industrial, trabalhar para o aperfeiçoamento de leis, normas técnicas e padrões de segurança alimentar, prestar serviços com base em políticas de qualidade, participar de projetos para ampliar o desenvolvimento regional e as exportações, e transmitir conhecimento em suas áreas de especialidade. A instituição tem, sobre muitos órgãos governamentais, vantagens como ter a parceria do setor privado, que injeta dinheiro em pesquisa e desenvolvimento; trabalhar no ritmo da indústria, muito acelerado; e ter como público, direta ou indiretamente, consumidores ávidos por produtos de maior qualidade e mais acessíveis. De acordo com o diretor do instituto, Luis Madi, "problemas existem, mas não adianta ficar só reclamando". Apesar de gozar de características que a maioria dos irmãos mais velhos sequer experimentou, o Ital trabalha muito para conseguir manter a estrutura dinâmica que estimula pesquisadores, funcionários e estagiários. Abaixo trechos da entrevista: Qual a principal diferença entre o Ital e órgãos públicos que não têm como parceiro o setor privado? O Ital é, desde 2002, uma das seis instituições pertencentes à Apta, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, do Governo do Estado de São Paulo. Sendo uma instituição da administração direta, os recursos vêm para o Ital, uma unidade de despesa, de forma centralizada por meio da Apta, uma unidade financeira. Por ser uma das instituições mais novas da secretaria, sempre buscamos modelos mais atuais. E por ser uma instituição ligada ã indústria, à iniciativa privada, temos mecanismos mais modernos de controle de gestão, o que acaba nos diferenciando de outros institutos. Entendemos que o orçamento da instituição, olhando o mundo, nunca mais seria governamental. Por isso criamos um tripé básico de funcionamento, formado pelo Governo do Estado, pelas agências de fomento e pelo setor privado. Usando isso desde 95, conseguimos um dinamismo na gestão. Algumas unidades do Ital já faziam isso de forma organizada há 15 anos, mas isoladamente. Em 95, reestruturamos a instituição e montamos um organograma focado em nichos de mercado e demos nomes dos produtos, para criar vínculo com o usuário, com o cliente. Hoje, do orçamento de R$ 17 milhões/ano, 50% vêm da Apta, 15% de agências de fomento e 35° o do setor privado. Em 1995, nosso orçamento era de R$ 8,5 milhões. Em 2002 ele foi pra R$ 17 milhões, R$ 8,5 ficaram sendo só a parte do Estado, da qual R$ 2,5 milhões são para custeio e investimento. A diferença é que em 95 tínhamos 109 pesquisadores e em 2002,78. Significa que quando centramos, focamos, conseguimos orientar melhor o trabalho. É possível dizer, portanto, que antes havia certo desperdício de mão-de-obra? Somos poucos agora. Teremos concurso em dezembro, por meio do qual deveremos conseguir cerca de 30 novos pesquisadores. É um processo de inovação. Já temos contratados 15 pesquisadores, além dos 78, mas o concurso garante mais gente nova, que dá o dinamismo que o setor privado na área de alimentos exige. Em 1998, o Ital conseguiu a ISO-9001/94, em 2001 conseguiu a ISO-9001/2000 e agora passamos pela auditoria da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para a ISO-17025 Laboratorial. Fomos à primeira instituição governamental a ganhar o Prêmio Banas de Qualidade, a conseguir o Prêmio Paulista da Qualidade de Gestão. De onde saiu tudo isso? Do modelo de gestão dinâmico, governamental, porém perto do mercado. Agora, claro que temos dificuldades, mas não adianta a gente ficar reclamando. Quais são as principais dificuldades hoje? Estão ligadas ao modelo administrativo, de administração direta centralizada. Precisamos de um modelo mais moderno e isso já vem sendo estudado: pode ser uma autarquia especial, como funcionam as universidades, ou organização social, que permite contratos de gestão etc. Aí teremos maior flexibilidade orçamentária, de trabalho é de atendimento. O gestor continua sendo o Estado. Nossa missão e pesquisa e desenvolvimento tecnológico em benefício da sociedade. Mas existem caminhos mais modernos para isso. Acreditamos que isso mude ainda neste governo. Pelo que o senhor disse, aqui os pesquisadores já tem mais flexibilidade de trabalho que em outros institutos... Há três pontos que caracterizam o Ital. O primeiro é o orçamentário, baseado no tripé do qual já falei. O segundo é o tripé de atividades. Uma instituição de pesquisa não vive só de pesquisa, exclusivamente. Aqui, temos que atender o mercado. E o mercado demanda pesquisa e desenvolvimento, serviços e atendimento, e eventos. Fazemos, em média, 40 eventos por ano. Para não ir muito longe, cito como exemplo o maior seminário realizado no mundo sobre reciclagem de PET pós-consumo para contato com alimentos, feito por nós, que reuniu representantes da União Européia, Estados Unidos, Brasil. Mercosul. O Ital tem conseguido, por meio de suas unidades, explorar esses eventos e trazer para o país essas informações que, isoladamente, a iniciativa privada não vai trazer. E o outro ponto é a descentralização: aqui dentro trabalhamos integrados, mas de forma descentralizada. As unidades representam os mercados diferentes. Esses três pontos permitem uma atuação com foco no cliente, seja ele privado ou público, e um nível de satisfação muito alto desse cliente. O Ital atua mais na área de desenvolvimento e adequação de produtos do que em pesquisa propriamente dita? Os cenários nacional e internacional exigem isso. É importante para o Governo do Estado ter dentro do seu corpo laboratórios de excelência credenciados, uma vez que o Brasil tem que atender às exigências do mercado internacional para produtos fabricados aqui. Muitas vezes esse mercado quer laudos comprovando a qualidade do nosso produto. O Estado poderia solicitar isso do setor privado, mas ele tem o Ital que faz esse trabalho. Outro fato é que, além de temos limitações orçamentárias para pesquisa, o desenvolvimento é uma ação com resultados mais práticos, mais úteis para a sociedade, para o mercado. O Estado hoje, com esse modelo de gestão, não tem recursos suficientes para as pesquisas. E nós, cientes disso há vários anos, buscamos outras fontes de recursos para pesquisas, porque não adianta ficar reclamando do Estado. Então, as agências de fomento têm um papel muito importante. E a média de aprovação de financiamentos Dará nossos projetos tem sido de 50%, em valor, ou seja, em cada R$ 1 milhão que pedimos, conseguimos R$ 500 mil. De 1995, quando captávamos R$ 600 mil por ano, de agências, para R$ 3 milhões em 2002. Isso mostra que hoje existe uma credibilidade muito maior do Ital junto às agências de fomento. Por quê? Porque o trabalho dá resultado. Algumas entidades têm linhas de apoio à pesquisa e outras de apoio à infra-estrutura. O Ital tem projetos financiados pela Finep, CNPq e Fapesp. E com a iniciativa privada, como é o relacionamento? É a iniciativa privada que chega mais perto da mesa do consumidor. Quando melhoramos as características microbiológicas de um alimento para uma empresa, estamos indiretamente trabalhando para a sociedade, não há dúvida. Essa empresa e o setor privado em geral têm a necessidade de adequar seus produtos tanto para o mercado interno quanto para exportação. Nossa relação com esse setor é diferenciada. Na parte estrutural, a iniciativa privada faz um contrato com a Fundepag (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa Agropecuária), uma fundação auxiliar que repassa esses recursos, por meio da Apta. O dinheiro que sai do setor privado chega o mesmo nos institutos, apesar de todo esse trâmite? Há taxas administrativas, mas chega sim. Sem a Fundepag, seria muito difícil atender a iniciativa privada. A participação do setor cresce, de 95 para cá, no Ital, algo em torno de 100/o, 15%.Estamos chegando em valores acima de R$ 6 milhões esse ano. Quem são esses parceiros? Há grandes empresas, sim, mas eu gostaria de chamar a atenção para a participação das entidades setoriais, como a Abima (Associação Brasileira da Indústria de Massas Alimentícias), Abia (Associação Brasileira de Indústrias de Alimentação), Ibraf (Instituto Brasileiro de Frutas) e tantas outras. Só na área de embalagens há umas 40. Temos todas essas entidades setoriais que ajudam a gente a fazer projetos estratégicos para o setor. O que o instituto faz para disseminar o conhecimento aqui produzido? Fazemos muitos eventos. Quando a gente fala em eventos, está falando também em capacitação. Treinamos funcionários de empresas. Além disso, passam por aqui cerca de 500 estagiários por ano, que trabalham em laboratório, em plantas-piloto, e saem daqui com muito mais experiência. O Ital tem 300 funcionários, 200 da administração direta e 100 contratados pela Fundepag, para projetos. Sem contar os estagiários. O modelo permite dinamismo, porque se fôssemos depender só dos 200 funcionários, não resistiríamos. Isso é bom, mas depende de trabalho, porque se não entrar dinheiro de fomento e setor privado, temos que mandar gente embora. Qual sua opinião sobre a qualidade dos alimentos no Brasil? Ela sofreu uma melhora considerável nos últimos 20 anos e vai melhorar mais. O Brasil está abrindo mercados e não é só para Estados Unidos, Europa e Japão. Estamos falando de China, índia, Turquia, países árabes e uma série de outros compradores. O que ainda pode ser explorado é a diversificação de produtos para o consumo direto, produtos mais elaborados. E isso depende do poder aquisitivo da sociedade. Se a economia melhorar, vamos ter melhores produtos com valor agregado no mercado, porque o consumidor vai poder comprar. A pesquisa tem responsabilidade direta nisso. Por exemplo, em 1963 não havia nenhuma faculdade de engenharia de alimentos no Brasil. Hoje existem 46 escolas, colocando no mercado mil engenheiros por ano. Esses profissionais vão melhorar produtos para o mercado, sem dúvida. E esse é um fator de sobrevivência até em âmbito internacional. EMBALAGENS MELHORES É OBJETIVO DO CETEA Você está empurrando o carrinho de supermercado, pára em frente à prateleira de enlatados, pega algumas latas de molho de ' tomate, outras de milho e ervilha. Mais adiante, separa as de creme de leite e leite condensado. De repente, você se lembra de olhar se as embalagens não estão amassadas, pois se sua família ingerir o alimento de uma lata danificada, as conseqüências podem ser imprevisíveis. Podem mesmo? Quais são os perigos de consumir produtos enlatados, se as embalagens estiverem danificadas? Pensando em desmistificar algumas informações a esse respeito e prestar um serviço à sociedade, um grupo de especialistas do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea) do Ital desenvolveu o projeto "Latas amassadas: dimensionamento do índice de rejeição e avaliação da possibilidade de consumo em programas de suprimento de alimentos para populações carentes". De acordo com a gerente da área de embalagens metálicas e de vidro, Sílvia Tondella Dantas, as secretarias do Ministério da Saúde recomendam que os alimentos contidos nessas latas não sejam consumidos. Entretanto, na primeira fase do projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), não observou-se nenhum caso de contaminação metálica em latas amassadas. Os pesquisadores trabalharam com latas de atum, creme de leite, extrato e molho de tomate, ervilha, milho e palmito. Danificaram algumas dessas embalagens em laboratório e estocaram os produtos. "Não notamos aumento da dissolução metálica", afirma Sílvia. O maior perigo, diz ela, é que com o amassamento o verniz da lata é danificado e o material fica exposto à possibilidade de interagir com os alimentos, por meio da dissolução ou oxidação (enferrujamento) dos metais. "A questão é se isso se aplica a qualquer tipo de lata e em quais condições", diz a pesquisadora. Segundo ela, é possível dizer a partir de outras análises, que alimentos como óleos e azeites, leites e achocolatados em pó, doces e produtos que não sejam ácidos não possuem características de agressividade à folha metálica da lata. Teoricamente, isso daria a esses produtos condições de serem consumidos. Mas a pesquisadora é cautelosa: "Não estamos contrariando as orientações do ministério, apenas mostrando dados de pesquisa", diz. Em produtos ácidos, as análises e resultados são mais delicados. Se a lata estiver inchada, por exemplo, é melhor o consumidor trocar a mercadoria. "O ferro da folha metálica da lata, por exemplo, não teria influência negativa na saúde, apenas alteraria o sabor", afirma Sílvia. O que preocupa mais os órgãos de saúde é a contaminação por estanho, alumínio e cromo. "Mas, nos estudos feitos, quando se registrou a presença desses elementos, nenhum deles excedeu as quantidades consideradas limite." A segunda fase do projeto está começando agora. O Banco de Alimentos de Santo André (SP) enviará para o Ital as latas amassadas doadas à entidade, para classificação e análises, inclusive microbiológicas, de riscos. O estudo sobre latas amassadas é a pontinha do iceberg. A garrafa retornável de uso exclusivo para cervejas também foi desenvolvida no Cetea. Reparando bem, há gravadas no vidro as inscrições 'cerveja', no começo do corpo da garrafa, e 'uso exclusivo para cerveja', no pé da embalagem. Essas mudanças, visíveis para o consumidor, e outras, nem tanto - peso, capacidade de volume, resistência a pressão, espessura e etc. - permitem um controle mais rigoroso sobre as embalagens usadas. Elas só poderão ser fabricadas por vidraçarias credenciadas. Além de conferir maior resistência à garrafa, evitando acidentes, a mudança garante melhor controle de qualidade e a segurança do consumidor. Por tratar de embalagens, a unidade tem preocupações com a área de meio ambiente. Um dos projetos de destaque do Cetea é o ACV (Avaliação do Ciclo de Vida de Embalagens para o Mercado Brasileiro). Realizado entre 1997 e 1999, ele avaliou 13 sistemas de embalagem de produtos de grande consumo, nas áreas de vidro, metálicas, plásticas e celulósicas. Esses estudos ainda vêm sendo desenvolvidos, ampliando a área de pesquisa para, além de embalagens, os setores de energia elétrica, transporte e gerenciamento de resíduos sólidos. "Buscamos pontos críticos, tentamos otimizar os sistemas e quantificar o impacto ambientais", afirma a pesquisadora Leda Coltro.