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Jornal da Unesp online

Atrizes usam tom grave e ampliam o som nos palcos, diz estudo do câmpus da Barra Funda

Publicado em 05 maio 2010

Por Cínthia Leone

As atrizes brasileiras falam em tom mais grave do que as outras mulheres porque ajustam a voz para fazer menos força no nível das pregas vocais. A conclusão é de uma pesquisa com sessenta voluntárias, entre atrizes e não atrizes, que leram um texto em voz alta durante um minuto. O estudo foi feito pela professora Suely Master, do Instituto de Artes, câmpus da Barra Funda.

O som foi captado por um gravador digital de alta precisão, transformado em gráfico e observado com aparelhos automatizados de alto custo. O procedimento ainda é pouco comum em análises e aplicações de técnicas vocais no país, que, muitas vezes, se baseiam apenas no ouvido experiente de um especialista.

Em outros países, os profissionais da voz buscam utilizar mais as ressonâncias, isto é, todo o aparelho acústico (movimentos de abrir e fechar a cavidade bucal, além de paredes e céu da boca e também a inclinação do queixo), como explica a professora Suely. Dessa forma, o som rebate nessas superfícies e ecoa, preenchendo todo o espaço do palco. Essa diferença se dá por uma questão cultural, já que no Brasil impostamos menos a voz, e isso se reflete no modo de falar e cantar de muitos de nossos artistas.

Esse soar mais natural foi eternizado em estilos musicais como a Bossa Nova, por exemplo. Usando menos força muscular e menos tensão nas pregas vocais, as atrizes observadas conseguem falar mais grosso e vocalizar de modo que ocupem satisfatoriamente o espaço acústico para serem ouvidas pelos espectadores nos teatros.

Suely realizou um estudo semelhante com homens, em 2005, e verificou comportamento parecido entre os atores brasileiros. Ela também captou a existência do chamado formante do ator, uma grande concentração de energia acústica entre as freqüências 3Khz e 4Khz. Essa característica que garante um bom desempenho vocal não foi verificada entre as atrizes, embora a superioridade de suas vozes fosse evidente frente às outras mulheres.

Lendo o som

Os alunos do instituto que participaram das análises tiveram a chance de observar o espectro da voz no computador por meio de um eletroglotograma. O gráfico permite medir a área de contato das pregas vocais da pessoa que emitiu o som a partir das ondas projetadas. Com essa escala, um analisador de dados de voz verifica automaticamente a distribuição de energia acústica nas freqüências sonoras. A partir dessas informações, a pesquisadora consegue ler essa força e indicar se há presença do formante do ator.

Essa tecnologia já é bastante difundida na Europa e nos EUA, mas a utilização desses recursos no ensino de graduação e para a formação de atores não é tão comum no exterior. Mesmo que a aplicação desses equipamentos no tocante ao uso profissional da voz seja ainda incipiente no país, achamos um diferencial brasileiro: a inserção desse conhecimento em sala de aula, observa a pesquisadora.

Para ter acesso a esses instrumentos, o estudo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Um outro trabalho da mesma autora, feito com idosos e que mapeou o envelhecimento vocal, também foi realizado com essa tecnologia. A professora fará apresentação oral das duas pesquisas durante o 39º Simpósio Anual da Fundação Voz (The Voice Foundations 39th Annual Symposium), que será realizado de 2 a 6 de junho, na Filadelfia, no estado da Pensilvânia, nordeste dos EUA.