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Através da Unesp a cachaça vai gerar riquezas

Publicado em 08 outubro 2010

Por BETO CALONI

Talvez os araraquarenses não perceberam a importância da implantação no campus local da Unesp, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Qualidade de Cachaça, liderada pelo prof. dr. João Bosco Faria do Departamento de Alimento e Nutrição da Faculdade de Ciências Faramacêuticas. Afinal, nada mais sensato que desenvolver pesquisas para elevar a qualidade da cachaça à condição de produto exportável. Afinal estamos no coração do maior produtor alcooleiro do mundo.

A Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), também conhecida como "Universidade Capira" está atravessando uma fase de "excelência", conquistando títulos, recebendo elogios internacionais e posições dentre as melhores no país: avança sem parar no ranking das 500 melhores universidades do mundo; de acordo com o Guia do Estudante, suas graduações estão entre as três melhores do Brasil e vários cursos se destacam no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes). Por isso este tipo de conquista liderada pelo professor Bosco Faria contribui para realçar essa performance que muito orgulha o interior paulista.

É o professor Bosco Faria quem explica a importância desse Centro, que é o primeiro em todo Brasil: "O centro é um marco na história da produção de cachaça no Brasil e principalmente no Estado de São Paulo, pois terá a função de melhorar e padronizar a cachaça produzida pa ra que a mesma tenha um maior valor agregado e consequentemente possibilite ao pequeno produtor rural uma maior lucratividade". Segundo ele o objetivo principal é a junção do setores acadêmico, empresarial, entidades de apoio ao setor (SEBRAE, SENAR, Sindicato Rural), promovendo a transferência de tecnologia entre ambas as partes.

Fruto de uma parceria entre a UNESP (Reitoria), Ministério da Ciência e Tecnologia, Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e Prefeitura Municipal de Araraquara. Foram investidos aproximadamente R$1.000.000,00, sendo que o centro tem o objetivo de unir pesquisadores, profissionais, estudiosos, técnicos, entidades de apoio ao setor agroindustrial e micro e pequenos produtores de cachaça, além de entidades de apoio ao setor, através de atividades conjuntas e planejadas como: desenvolver projetos; formar pesquisadores; realizar cursos; atividades de consultoria técnica; diagnósticos técnicos em engenhos; divulgar a produção técnica e científica da área; promover encontros do setor produtivo com as instituições de pesquisa e instituições de apoio ao setor agroindustrial; análises laboratoriais com o objetivo de melhorar a qualidade da cachaça, estimular o desenvolvimento da qualidade de cachaça e de seu efetivo controle por parte dos produtores e órgãos oficiais dessa área etc… Segundo o pesquisador, o Centro quer ser um local de pesquisas através da chamada "usina piloto". "Teremos, inclusive, uma parte destinada ao envelhecimento com uma área de quase cem metros quadrados para colocar tonéis de diferentes madeiras, de tamanho natural, além disso, estará aberto para qualquer universidade que quiser fazer seu experimento.

Já temos vários parceiros como o pessoal de São Carlos, Jaboticabal, Esalq e de outros estados como Minas Gerais. Em princípio, qualquer projeto que precisar de controle poderá ser realizado aqui. Também poderemos treinar produtores de cachaça. O centro vai ser dividido em laboratório, envelhecimento da bebida e um anfiteatro que será equipado com videoconferência que poderá ser assistida em todo Brasil.

Dentre as atividades inaugurais o e VI Concurso Paulista de Cachaça de "Alambique" e também o V Encontro da Cadeia Produtiva de Cachaça acontecidos dias 10 e 11 de setembro O evento contou com 115 participantes de 40 municípios paulistas.

Bosco brinca dizendo que o Brasil foi feito como um grande laboratório para fabricar cachaça, pois a temperatura favorece, tem caldo de cana, destilar é fácil. O pesquisador conta que trabalham com análise sensorial, ou seja, usar a pessoa humana como um instrumento científico que vai mostrar o nível de aceitação. O preconceito em relação à cachaça ainda existe e isso é que querem minimizar. "Estamos exportando "bastante", principalmente para a Europa, Uruguai e Paraguai. No ano passado foram 12 milhões de litros de cachaça. O que não representa 1% da produção do Brasil."

Um Caso com a Marvada

A história do professor Bosco Faria com a cachaça é antiga. Começou quando ele ainda trabalhava numa pesquisa encomendada pela Copersucar, verificando o efeito da queima do açúcar na cana. Ele então ficou sabendo que a cachaça destilada em alambique de cobre tinha um gosto muito ruim.

"Tive a idéia de usar cromatografia para identificar esse composto. Achei que ia ser fácil, mas para se ter uma idéia fiz a tese de mestrado, de doutorado e a livre docência pesquisando o assunto. Levei vinte anos para encontrar achar esse composto, o dimetil sulfeto, que causa esse gosto ruim. Quando você destila no cobre, o mesmo reage com ele (dimetil) e forma sulfeto carbono e fica na parede. Diferente de quando se destila no inox." explica ele.

Foi assim que ele se envolveu com a melhoria da qualidade da cachaça e hoje lidera esse movimento que contribuirá para aumentar as possibilidades econômicas e sociais deste produto, como geradora de emprego, renda e divisas. De acordo com o Instituto de Economia Agrícola (IEA) a cachaça vem ganhando importância entre as exportações brasileiras de produtos manufaturados.