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O Liberal (PA) online

Atividades físicas ajudam a reduzir efeitos da privação de sono

Publicado em 11 março 2007

Agência Estado

Os danos físicos e mentais causados por muitas horas de privação de sono podem ter um outro remédio além da cama macia e quente - um pouco de atividade física. Estudo feito na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que, ao se exercitar, pessoas que trabalham em jornadas muito longas ou irregulares conseguem proteger o corpo dos efeitos nocivos das poucas horas dormidas. 'As substâncias químicas liberadas durante um exercício manipulam o metabolismo do corpo de forma que ele se recupera muito mais rápido do cansaço. Elas funcionam como um verdadeiro antídoto', explica Marco Túlio de Mello, do Instituto do Sono da Unifesp, que orientou o trabalho. Para descobrir isso, no entanto, ele e sua aluna de doutorado Hanna Karen Antunes tiveram de trabalhar com situações bem mais extremas, coisa de sete dias em que seus voluntários mal pregavam os olhos. Os detalhes estão na revista 'Pesquisa Fapesp' (www.revistapesquisa.fapesp.br) deste mês.

O estudo começou em 2003, quando Hanna acompanhou o estado de saúde dos participantes da primeira edição brasileira do Ecomotion-Pro, uma das mais longas e exaustivas competições do mundo. Na prova os atletas percorreram 477,6 km na Chapada Diamantina (BA) correndo, pedalando, escalando e remando, durante sete dias e seis noites, com cerca de apenas meia hora de descanso por dia (e só quando eles não agüentavam mais).

Hanna fez testes físicos e psicológicos nos participantes antes e depois da prova. Ela já esperava encontrar sintomas clássicos da privação do sono - como agressividade, agitação, além do comprometimento das funções endócrinas e metabólicas -, sem contar o stress e a exaustão causados pela própria competição.

De fato, os participantes terminaram a prova entre 7 e 10 kg mais magros, com níveis mais altos que o normal de uma proteína que indica lesão no coração e de enzimas hepáticas, sugerindo a existência de danos no fígado. Nos homens, o nível de testosterona, hormônio responsável pela restauração muscular, tinha caído 70%. Em compensação, estavam todos muito bem dispostos, animados por terem superado o desafio. E depois de dormirem de 16 a 19 horas, já estavam recuperados. 'Minha primeira suposição foi que a atividade física era a responsável por aquele bem-estar. Mas do experimento surgiram várias dúvidas. Será que a proteção ao corpo vinha do exercício ou do condicionamento físico que aqueles atletas já tinham?', comenta Hanna.

Para responder, ela voltou ao laboratório e, juntamente com Túlio de Mello, simulou os efeitos da privação do sono e dos exercícios físicos em 28 voluntários de três diferentes grupos: oito eram sedentários, 14 eram atletas de corrida de aventura que foram submetidos a uma simulação de exercícios, e outros seis também eram atletas, mas não se exercitaram nem tampouco podiam dormir.

A turma ativa cumpriu tarefas semelhantes às do Ecomotion-Pro ao longo de quatro dias. Enquanto eles malhavam, os demais tinham de se manter acordados - para isso contavam com leituras, filmes, jogos de tabuleiro, videogame e acesso à Internet. O primeiro grupo ditava também o momento de dormir. Só quando eles pediam para descansar, por pouco mais de uma hora, os voluntários que não estavam se exercitando podiam cochilar. 'Entre 24 e 48 horas depois do início, os voluntários que não fizeram exercício apresentavam cansaço físico, mau humor, irritabilidade e pouca tolerância a sons. Isso não foi observado nos ativos', conta Hanna.

Assim como tinha ocorrido na competição em campo, quem se exercitou também teve uma recuperação mais rápida. 'O que verificamos é que os sintomas da privação do sono foram similares entre os sedentários e os atletas que ficaram inativos. O que mostra que é o exercício propriamente dito que protege o corpo', diz.

Um dos desafios dos pesquisadores agora é desvendar como funciona, do ponto de vista fisiológico, essa proteção da atividade física. Assim como ocorreu com os voluntários, a ausência de um padrão adequado de sono em pessoas normais pode levar a danos, incluindo enfartes. 'A verdade é que ainda não sabemos quais mecanismos estão envolvidos nem dizer com precisão qual o melhor horário para um determinado profissional, diante de seu estilo de vida e do seu relógio biológico, fazer exercícios que melhorem a qualidade do seu sono', admite Túlio Mello.