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Portogente

Atenção para não perder o bonde

Publicado em 19 fevereiro 2008

Por Hermann Gonçalves Marx

Em uma reunião realizada semana passada, alguns empresários e intelectuais estiveram discutindo a questão da inovação no Brasil.

Numa derivação natural do tema foi levantada a questão do empreendedorismo. Segundo um dos participantes, nos Estados Unidos quando qualquer jovem é questionado quanto ao que espera para si, no futuro, ele responde: "quero ter meu negócio e ser rico".

No Brasil, quando a mesma pergunta é colocada, mesmo para jovens de classe média ou alta, a resposta é: "quero estar numa boa empresa, preferencialmente numa multinacional, em um posto de comando."

Isto me fez lembrar que as escolas de administração, em geral, induzem todos os seus alunos, via slogans consagrados, a pensar que estão na faculdade para serem gerentes, ao invés de indicar o caminho do conhecimento.

Bem, bastaria a comparação entre o objetivo dos jovens de cá com os jovens de lá para se concluir sobre o tremendo abismo entre os dois países quanto ao empreendedorismo.

Seria isso um diploma de incapacidade criativa ou administrativa do brasileiro? Com certeza não.

A criatividade do brasileiro é do mesmo nível que a de habitantes de outras partes do mundo. Basta ver que quando se fala em criação em publicidade as empresas brasileiras têm sempre sido premiadas. Ou ainda analisar o sucesso de empresários nacionais liderando empresas multinacionais, ou professores dando aulas em universidades renomadas.

Então por que a maioria das empresas nacionais não consegue crescer como as concorrentes internacionais?

Alguns aspectos foram observados:

1-    Boa parte dos empreendedores locais é de pessoas sem grande formação acadêmica, e, portanto, não podendo almejar "uma gerência numa multinacional", investem no seu próprio negócio.

2-    As escolas não formam empreendedores. Não estimulam os alunos para isso.

3-    Não há facilidade de obtenção de recursos com taxas adequadas.

4-    Não há inovação nas empresas brasileiras; quer seja inovação em produto, quer seja inovação em processos que permitam manter custos e qualidade competitivos internacionalmente.

5-    O empresário brasileiro, com poucas exceções, não é disposto a disputar lugar no mercado internacional.

Alguns argumentaram que o problema poderia ser resolvido por conta das redes de empresas, onde cada participante poderia entrar com seus recursos na formação de um grande bolsão financeiro e de informações necessárias ao desenvolvimento de novos produtos.

A questão crucial, assim entendida por boa parte dos presentes, era a falta de recurso que permite ao empresário investir, sem definhar a rentabilidade, em novos projetos.

Quando esse ponto veio à baila foi lembrado o papel da Fapesp. Esse órgão dispõe de recursos em larga escala, oriundos de percentual fixo sobre toda a arrecadação de ICMS.

No entanto os projetos aprovados nem sempre estão em sintonia com a própria missão desse órgão. E há projetos rejeitados que poderiam estimular enormemente a indústria nacional, mas são descartados por falta de entendimento correto dos analistas chamados a colaborar na sua análise. Além disso, cada análise demora no mínimo seis meses para ser apreciada, chegando a casos de mais de nove meses nas mesas burocráticas.

Enquanto isso o resto do mundo anda muito rápido. Nós ficamos no andar de tartaruga como se competição internacional pudesse ter o mesmo timing das decisões políticas em debate nas nossas câmaras, ou nos tempos de obtenção de um financiamento, quando por vezes documentos apresentados perdem sua validade tamanha a preguiça desses  processos.

De outro lado, o BNDES apesar de apresentar, atualmente, taxas comparativamente baixas , em relação ao mercado, elas ainda são altas para a maioria das empresas de médio e pequeno porte.

Outra opção seria, como de praxe nos Estados Unidos, a abertura de capital na bolsa de valores. Porém, por vezes, o custo da abertura de capital, devido às exigências da bolsa , não permite sequer que o empresário sonhe com essa possibilidade.

Restaria a aplicação de dinheiro de organizações que vislumbram possibilidade de ganho futuro, e arriscam a fundo perdido. Como essa prática não era comum no Brasil até recentemente, face aos grandes retornos das aplicações financeiras, sem grande risco, a sua aplicação é uma questão de ainda algum tempo.

Poxa! Exclamaram alguns! Então não há inovação no país?

A essa pergunta se respondeu que sim. Há pesquisa e há inovação no país. Porém, todo esse conhecimento se perde, por vezes, pois fica confinado aos laboratórios das universidades, sem apoio formal e principalmente sem qualquer ponte com as industrias nacionais.

O que nos resta fazer é criar uma ligação formal e eficiente entre a universidade e a indústria.

Talvez algum organismo não governamental (ONG) pudesse tomar esse papel para si, e ser auxiliada por aporte de capital do governo federal, no lugar daquelas ONG fantasmas, que foram criadas apenas por malandragem.

O que ficou patente foi a falta de orientação quanto ao papel do Brasil, na definição da riqueza de sua nação, como diria Adam Smith. Par onde devemos caminhar?

Uns acham que se deve buscar produtos eletrônicos, com no Japão. Outros softwares. Outros ainda insistem na área de serviços, como mais recentemente na Índia. Alguns sustentam que se deve apoiar inovação para com o uso dos enormes recursos naturais aqui disponíveis, como o uso da terra para produção de cana de açúcar e a produção do álcool para uso combustível automobilístico.

O que efetivamente todos concordam é que sem uma linha mestra de ação e sem apoios formais fica difícil avançar na linha da inovação. Aí mora o perigo. O perigo que já é repetitivo.

O Brasil foi o maior exportador de borracha no mundo. Como não investiu em pesquisa, em novos processos produtivos, perdeu seu lugar para outros países, como a Malásia que investiu em produção com tecnologia.

Foi um brasileiro que inventou a avião e nossa indústria, só apareceu com a Embraer na década de 70.

Foi um brasileiro que inventou overcraft. Até agora nós não o produzimos.

O Brasil desenvolveu o motor a álcool no Centro tecnológico da Aeronáutica (CTA), uma revolução tecnológica, e desenvolveu o processo de produzir esse combustível, que agora passa a ser parte da cobiça mundial. Se não investirmos fortemente nesse segmento, logo mais estaremos apenas destruindo mais florestas para plantar cana, apenas.